Captura de Maduro por Trump completa um mês; veja o que mudou desde então

Ação militar norte-americana reflete em toda a América do Sul; atual presidente da Venezuela aceita manter relações amistosas com os Estados Unidos

Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn, em Nova York

Nicolás Maduro foi capturado por autoridades dos Estados Unidos há um mês. Ele e a esposa, Cília Flores, estão no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn, em Nova York, sob a custódia norte-americana, que move diversos processos por crime organizado e narcotráfico contra os dois.

A ação militar dos EUA em Caracas pode significar, neste momento, uma atenção de Washington com a América do Sul e deixa em alerta os líderes latinos-americanos opositores de Donald Trump. Desde então, o país norte-americano tem influenciado diretamente em questões políticas e econômicas da Venezuela - agora comandada pela chavista Delcy Rodríguez.

Após a captura de Maduro, os países chegaram a acordos principalmente relacionados ao petróleo e à libertação de presos na Venezuela. Em discurso sobre o primeiro ano de mandato, Trump disse estar “amando” o país sul-americano, visto que Rodríguez está colaborando e trabalhando bem com os Estados Unidos.

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A tensão entre Washignton e Caracas se intensificou após o início do segundo mandato de Donald Trump. As ameaças norte-americanas se intensificaram no segundo semestre do ano passado, com ataques a barcos supotamente ligados ao narcotráfico, escalonando até a invasão à Venezuela.

Combate ao ‘narcotráfico’

Águas internacionais no Caribe têm sido alvo de tensões desde agosto de 2025, quando sete navios de guerra dos Estados Unidos foram enviados para o local. No mesmo mês, o país norte-americano elevou para U$50 milhões a recompensa por informações que levassem à prisão de Nicolás Maduro.

EUA publicaram vídeo de ataque a barco com ‘terroristas’

A campanha militar, denominada Força-Tarefa Conjunta Lança do Sul, supostamente contra o narcotráfico, começou em setembro, com bombardeios contra barcos. Até o dia 31 de dezembro, a ação registrou a destruição de pelo menos 36 embarcações e a morte de 115 pessoas.

Em novembro, Trump e Maduro chegaram a conversar por telefone. Porém, os contatos terminaram sem avanços, já que o venezuelano teria demonstrado resistência em deixar o poder, de acordo com a imprensa estadunidense.

A véspera de Natal foi marcada pelo primeiro ataque dos Estados Unidos à Venezuela. Em 24 de dezembro, Trump confirmou que o alvo foi um pequeno porto que era usado para o carregamento de embarcações que transportavam drogas, segundo o republicano.

O ataque

A captura de Nicolás Maduro e de sua esposa foi comemorada por Donald Trump, que acompanhou toda a ação por meio de uma transmissão. A ação militar na Venezuela, que aconteceu na madrugada do dia 3 de janeiro, havia sido planejada pelas forças de segurança dos Estados Unidos.

Por outro lado, o “sequestro”, denominado assim pelo pesquisador do Núcleo de Prospecção e Inteligência Internacional da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Leonardo Paz, foi uma surpresa.

Explosões ocorreram em toda a Venezuela na madrugada do dia 3 de janeiro

“Acho que a maior parte dos analistas imaginavam que seria um ataque a posições, ou relacionadas ao narcotráfico ou uma base aérea, se fosse algo mais sério. Mas a ideia de um ataque coordenado com um sequestro, isso foi completamente imprevisível”, disse em entrevista à Itatiaia.

Tropas de elite da Força Delta invadiram o complexo onde Maduro estava com Cilia Flores. A inteligência da CIA monitorava o padrão de vida do chavista desde agosto. Em menos de meia hora, os dois foram retirados de helicóptero e levados ao navio militar USS Iwo Jima, posicionado estrategicamente no Mar do Caribe.

Horas depois, Trump publicou a primeira imagem de Maduro sob custódia. Na foto, ele aparece algemado, com os olhos vendados e usando fones de ouvido. Durante a tarde, em coletiva em Mar-a-Lago, Trump afirmou que os EUA governarão a Venezuela imediatamente para garantir uma “transição sensata”. Ele descartou o apoio à opositora María Corina Machado, afirmando que ela não teria força para governar sozinha.

A então vice-presidente Delcy Rodríguez rejeitou a autoridade americana e convocou um conselho especial de defesa. No entanto, a Suprema Corte da Venezuela ordenou que ela assumisse a presidência interina para garantir a continuidade administrativa do país.

No início da noite, a aeronave militar com Maduro pousou na Base Aérea de Stewart, em Nova York. Escoltado por mais de uma dúzia de agentes federais da DEA, Maduro foi visto algemado e vestindo roupas cinzas. Ele passou pelo processo de fichamento, incluindo coleta de digitais e fotos judiciais. Depois, foi transferido para o Centro de Detenção Metropolitano no Brooklyn, a mesma unidade onde estão detidas figuras como o rapper Sean “Diddy” Combs.

Petróleo como principal motivador?

O governo de Donald Trump tem afirmado que as reservas de petróleo da Venezuela são um dos principais motivadores para a ação militar norte-americana. No entanto, especialistas divergem do republicano. O pesquisador da FGV identificou um conjunto de outros motivos importantes que podem ter influenciado o ataque estadunidense, ponderando, inclusive, a hipótese de que o petróleo não é tão importante assim.

  • Migração;
  • Consenso bipartidário dos Estados Unidos sobre a Venezuela;
  • Apoio da Venezuela à Cuba;
  • Narcotráfico.

“Tem um monte de motivos e acho que o acesso americano ao petróleo venezuelano, na minha opinião, seria o menor deles. Os Estados Unidos não precisam desse petróleo, ele é o maior produtor de petróleo no mundo hoje”, disse. “Petróleo não é uma commodity onde hoje, olhando para o futuro, todo mundo está correndo atrás, ao contrário. Se você me perguntasse antes, eu diria que não, mas o próprio Trump falou que sim. Então, quem sou para desmenti-lo”, concluiu Leonardo Paz.

O secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, detalhou um plano do governo norte-americano para consolidar a mudança de regime na Venezuela. Na primeira fase, denominada estabilização, está previsto que os EUA tomem entre 30 e 50 milhões de petróleo venezuelano, vendendo a commodity a preços internacionais e controlando a forma como serão distribuídas as receitas obtidas com essas transações.

A segunda fase está relacionada à reintegração da Venezuela ao mercado global, abrindo o mercado venezuelano para empresas norte-americanas e ocidentais. Porém, representantes das principais empresas petrolíferas se reuniram e, na ocasião, a francesa Total Energies afirmou que um eventual retorno do grupo à extração de petróleo no país sul-americano não está no topo das prioridades.

“Viabilizaram a venda de petróleo, Marco Rubio já disse que está organizando um conjunto de mecanismos financeiros para poder permitir que a Venezuela consiga cumprir alguns pagamentos, porque os Estados Unidos também fez uma série de sanções e bloqueou recursos venezuelanos”, explicou Leonardo Paz. “A ver no médio prazo, a Delcy Rodríguez vai começar a se organizar com os Estados Unidos e criar algum canal de diálogo mais próximo.”

A Venezuela tem reservas estimadas em 303 bilhões de barris de petróleo - sendo a maior reserva comprovada no mundo - mas a produção está em declínio desde o início dos anos 2000. Os EUA pretendem manter um controle significativo sobre a indústria petrolífera venezuelana, incluindo a supervisão da venda da produção do país.

“Quais os reflexos disso? É difícil prever porque a gente não tem clareza ainda do tipo de direcionamento que o Trump vai dar para Venezuela. A gente pode então olhar para reduzir o acesso de petróleo venezuelano para Cuba ou China. Mas também pensar na relação que a Venezuela vai começar a abrir mais o seu mercado para as petroleiras norte-americanas. Tem vários reflexos que vão começar a andar nesse sentido”, ponderou o pesquisador da FGV.

Violação do direito internacional

Em seis de janeiro, a Organização das Nações Unidas afirmou que a operação dos Estados Unidos em Caracas violou um princípio fundamental do direito internacional. O Artigo 2º, parágrafo 4, da Carta da ONU diz: “Todos os Membros deverão abster-se, em suas relações internacionais, da ameaça ou do uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado”. O parágrafo 7 do Artigo 2º também fala sobre o princípio de “não intervenção em assuntos de jurisdição interna de qualquer outro Estado”.

Porém, o pesquisador da FGV destaca que a violação de direitos internacionais começou desde os bombardeamentos contra barcos de supostos narcotraficantes. “Os Estados Unidos estavam querendo completar a cartela de bingo da violação de direito internacional”, disse.

Julgamento Maduro

Em 5 de janeiro, Maduro passou por audiência de custódia, sob acusação de associação ao narcotráfico e narcoterrorismo ainda no primeiro mandato de Trump. Ele ainda recebeu uma nova acusação com quatro pontos:

  • Conspiração para o narcoterrorismo;
  • Conspiração para o tráfico de cocaína;
  • Posse de metralhadoras e dispositivos explosivos;
  • Conspiração para posse de metralhadoras para uso pelo narcotráfico.

Desenho feito no tribunal mostra o ex-presidente da Venezuela, Nicolás Maduro (à esquerda), e sua esposa, Cilia Flores

Na ocasião, ele se declarou inocente em todas as acusações. Maduro será julgado no tribunal dos Estados Unidos por estar sendo acusado pelo Estado norte-americano. Questionado sobre os próximos passos, Leonardo Paz afirmou que é necessário “esperar o processo seguir.”

“Acho que os Estados Unidos não estão se importando muito com o que a ONU vai dizer ou como a Venezuela vai se posicionar em relação a quem deve ou não, e se deve, julgar Maduro”, explicou o pesquisador.

A próxima audiência de Nicolás Maduro e Cilia Flores foi marcada pelo juiz federal Alvin Hellerstein para o dia 17 de março, às 11h do horário local, sendo 13h em Brasília.

Relação entre os Estados Unidos e a Venezuela após captura

Um dia após a captura do chavista, a presidente interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou nas redes sociais que aceita negociar com os Estados Unidos e avançar em direção a um “relacionamento internacional e respeitoso entre os EUA e a Venezuela, baseado na igualdade soberana e sem interferência.”

Desde então, a relação entre os países melhorou parcialmente, classificou Leonardo Paz. Isso se dá, principalmente, porque Rodríguez está assumindo um papel que equilibra dois fatores: a garantia de uma linha dura do chavismo mas, ao mesmo tempo, se acerta com Trump em alguns aspectos - entre eles, a viabilização da venda do petróleo.

A presidente venezuelana já afirmou que está buscando avançar em direção a “relações internacionais equilibradas e respeitosas” com os Estados Unidos. Os dois países chegaram a um acordo para exportar até U$2 bilhões em petróleo bruto venezuelano para os EUA e Rodríguez anunciou uma proposta de “lei de anistia” para centenas de presos no país.

Futuro da América do Sul

A invasão dos Estados Unidos em Caracas chama atenção de outros países sul-americanos e pode tensionar ainda mais a relação de líderes opositores com Washington. “Boa parte dos latinos-americanos vão pensar duas vezes na maneira de como vão antagonizar com o presidente Trump”, disse Leonardo Paz.

É esperado que os EUA continuem influenciando a Venezuela, buscando direcionar, principalmente, a política de Caracas. Para o pesquisador da FGV, a presidente venezuelana está em uma “corda bamba.”

“A presidente está em uma linha muito tênue. Ela tem que, obviamente, lidar com a pressão norte-americana e aceitá-la, porque está imaginando que também corre o risco de ser sequestrada ou atacada. Ela está entre dançar um pouco na corda, indo contra os Estados Unidos, mas, ao mesmo tempo, aceitando uma série de diretrizes que o governo americano já passou e vai passar”, finalizou Leonardo Paz.

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Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.

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