Venezuela anuncia libertação de mais de 100 presos políticos; ONG contesta número

Solturas fazem parte de um acordo com o governo dos Estados Unidos após invasão no início do mês

De acordo com a ONG Foro Penal, 15 solturas foram realizadas durante a madrugada desta segunda-feira (12)

A Venezuela confirmou a libertação de 116 presos políticos nesta segunda-feira (12). O anúncio faz parte de um processo de solturas anunciado na semana passada, após a captura do presidente deposto, Nicolás Maduro, durante um bombardeio em Caracas, comandado pelos Estados Unidos. Porém, o número de soltura é contestado pela ONG Foro Penal. A entidade afirma que 40 pessoas foram libertas, incluindo dois italianos.

A informação foi inicialmente divulgada pelo Ministério do Serviço Penitenciário venezuelano. Porém, as divergências seguem. O número pode subir para 48, se forem levados em consideração levantamentos de partidos da oposição e outras ONGs.

Ainda de acordo com a ONG Foro Penal, 15 solturas foram realizadas durante a madrugada desta segunda, mas os libertados não saíram pela porta principal. Familiares relataram que eles estão sendo levados para a sede do serviço de contrainteligência em Caracas para serem soltos.

“O que outros familiares nos contam é que os levam para um lugar perto de El Rodeo, pedem que tirem o uniforme, dão roupa comum e até colocam perfume neles”, disse à AFP Daniela Camacho, esposa de José Daniel Mendoza, que foi detido há dois anos e meio.

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Manuel Mendoza, pai de José, também estava no local. Ele mora no estado de Yaracuy e realiza um trajeto de seis horas para ver o filho por 20 minutos, uma vez por semana.

“Se eles deram o passo de oferecer a libertação de todos os presos políticos, estamos apenas pedindo que cumpram a palavra que puseram sobre a mesa. Já são quatro dias ao relento, passando por dificuldades”, protestou.

No último domingo (11), dia de visita, os familiares mantiveram a mesma rotina. Levaram produtos de higiene, entraram na prisão encapuzados e depois viram seus parentes presos através de um vidro.

“Estou muito feliz e esperançosa”, contou Mireya Sierra, cujo marido e filho estão detidos em El Rodeo I há quase um ano. Após a visita, ela afirmou que os detidos estão “muito contentes e mantendo a calma, porque já sabem que a qualquer momento todos vão sair.”

Nesta segunda, o presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez, informou que transmitiu à presidente interina da Venezuela a “necessidade de continuar libertando presos políticos”, durante uma ligação na semana passada.

Captura de Maduro

Desde o último dia 3, o presidente norte-americano, Donald Trump, afirma que está no comando da Venezuela. Na data, Maduro e Cilia Flores, esposa dele, foram capturados e levados para Nova York, onde serão julgados por tráfico de drogas e armas e conspiração.

Desenho mostra Nicolás Maduro em audiência em Nova York

Há uma semana, os dois passaram por uma audiência e se declararam inocentes. Eles enfrentarão novamente a Justiça em março.

Trump disse estar satisfeito com a sucessora de Maduro, a presidente interina Delcy Rodríguez e sinalizou a intenção de se reunir com a chavista. O republicano postou em sua rede social uma imagem alterada de seu perfil na Wikipédia em que aparece como “presidente encarregado da Venezuela”.

Em uma tentativa de retomada das relações diplomáticas entre os países, diplomatas dos EUA viajaram a Caracas, na última sexta-feira (9), para avaliar a reabertura da embaixada que está fechada desde 2019.

O governo interino de Rodríguez fez as primeiras concessões. Assinou acordos petrolíferos com os país norte-americano e concordou com a libertação de um “número importante” de presos políticos.

Líder da oposição faz visita ao papa

O papa Leão XIV recebeu, nesta segunda, a líder opositora venezuelana e prêmio Nobel da Paz, María Corina Machado, segundo um comunicado do Vaticano. Os dois tiveram uma conversa privada.

Fotos do encontro, que mostra Machado vestida de preto e usando um terço, foram divulgadas. Na última sexta (9), Leão XIV pediu respeito à “vontade do povo venezuelano” e a garantia dos “direitos humanos e civis de todos”.

Papa Leão XIV com María Corina Machado

A líder opositora passou mais de um ano na clandestinidade na Venezuela e precisou sair em uma complexa operação para receber o Nobel em Oslo, capital da Noruega.

Machado denunciou reiteradamente que Maduro fraudou as eleições de julho de 2024 e que Edmundo González Urrutia havia sido o vencedor. Porém, mesmo com a invasão dos Estados Unidos, Trump descartou entregar o controle da Venezuela à oposição.

O republicano chegou a afirmar que a relação com o governo interino de Rodríguez “está funcionando muito bem” e garantiu que não descartava uma reunião.

Nesta semana, ele afirmou que receberá Machado em Washington, sobre quem disse que “não desfruta de apoio nem de respeito em seu país”.

Tensão em outros países

Cuba, aliado histórico do chavismo, também está sob tensão com o país norte-americano. Trump anunciou um corte das ajudas petrolíferas da Venezuela à ilha e instou que cheguem a um acordo com Washington “antes que seja tarde demais”.

Em resposta às declarações do republicano, o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel, declarou que “não há conversas” em andamento com os EUA.

O governo da Groenlândia também se manifestou contra o desejo dos Estados Unidos de anexar os países. Em comunicado, o primeiro-ministro, Jens-Frederik Nielsen, afirmou que Washington reitera o desejo de tomar posse da Groenlândia, porém o governo “não pode aceitá-lo sob nenhuma circunstância.”.

* Com informações da AFP.

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Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.

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