Da Groenlândia ao ICE: entenda os embates de Trump dentro e fora dos EUA

Governo do republicano é marcado por tensões entre países da América do Sul, Europa e Oriente Médio em 2026

Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump

O governo dos Estados Unidos, comandado por Donald Trump, protagonizou conflitos e tensões relevantes dentro e fora do país no início de 2026. No âmbito da política internacional, janeiro foi marcado principalmente pela captura de Nicolás Maduro, a tentativa de anexação com a Groenlândia e ameaças contra o Irã. Internamente, o país enfrentou uma onda de protestos após a atuação violenta do Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos (ICE) que resultou em duas mortes de cidadãos norte-americanos.

Recém-completado um ano de seu segundo mandato, o presidente dos EUA destacou que o governo republicano alcançou três pontos positivos. Além do combate à imigração ilegal, que é uma das prioridades de Trump, ele afirmou que o país fez mais pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) do que qualquer outro líder, além de ter sido responsável por “encerrar” oito conflitos.

Em entrevista à Itatiaia, o professor de política internacional e de defesa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Lucas Rezende, explicou que o governo de Donald Trump interrompe a ideia de que os Estados Unidos são a maior democracia do mundo.

“Os Estados Unidos, que se apresentavam como a maior democracia, ou a democracia mais consolidada do mundo, hoje não são mais uma democracia liberal, dentro do conceito que a ciência entende”, disse.

Neste segundo mandato, Washington está utilizando estratégias de governos “neo totalitários”, como a descredibilização das instituições democráticas, o populismo e a ideia de que apenas um líder consegue interpretar a vontade real da população, conforme o professor.

Ele ainda explicou que, agora, a visão política de Trump busca dividir o mundo entre líderes de três potências: EUA, Rússia e China. Essa ideia, segundo o especialista, pode explicar as ações comandadas pelo republicano. “O que ele [Trump] quer é redistribuir o mundo entre ele, Xi Jinping e Vladimir Putin. Cada um em um lado. Uma distribuição trilateral do mundo”, disse.

Ação na América do Sul: captura de Maduro

No primeiro fim de semana de 2026, os EUA realizaram uma operação militar na Venezuela, durante a madrugada de sábado (3), e capturaram o então presidente Nicolás Maduro e a esposa dele, Cília Flores.

A ofensiva norte-americana ocorreu após meses de tensão entre os dois países, com intensa mobilização de tropas no mar do caribe e ações contra barcos que, supostamente, seriam do narcotráfico.

Após a captura, Trump afirmou que os EUA vão governar a Venezuela até que haja uma transição democrática no país. Ele também ressaltou o interesse nas reservas de petróleo, e afirmou que empresas americanas vão voltar a operar no território.

O casal foi levado de Caracas aos Estados Unidos para julgamento sobre uma possível “conspiração narcoterrorista”, além do transporte ilegal de cocaína e posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos.

Maduro e Flores se declararam inocentes das acusações durante a audiência de custódia, em um tribunal de Nova York, no dia 5 de janeiro. A próxima audiência foi marcada pelo juiz federal Alvin Hellerstein para o dia 17 de março, às 11h do horário local, sendo 13h em Brasília.

A vice-presidente da Venezuela, Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina do país dias após a captura do chavista. Contrariando as expectativas da oposição, Trump afirmou que a principal líder e vencedora do Nobel da Paz, María Corina Machado, não conseguiria assumir o governo após o período de transição com a administração dos Estados Unidos. “Ela não conta com respeito nem apoio dentro do seu país. É uma mulher muito amável, mas não inspira respeito”, disse.

Leia mais sobre o assunto:

Para além de interesses econômicos, o professor da UFMG afirmou que Trump tem um objetivo muito maior: redefinir a agenda política global.

“O que houve foi uma submissão total do regime venezuelano para continuar existindo às vontades de Donald Trump. Ele não está preocupado com a democracia na Venezuela, com a vida dos venezuelanos, com a proteção dos direitos civis ou mesmo com o impacto do tráfico de drogas na região”, explicou Lucas Rezende.

Tensões internas: política anti-imigração

O combate a imigração ilegal nos Estados Unidos foi uma das promessas de campanha para a eleição de Trump em 2024. Desde então, o republicano duplicou o número de efetivos do ICE, passando de 10 mil para 22 mil no último ano.

A ação resultou em mais de 600 mil deportações entre janeiro e dezembro de 2025, segundo a Casa Branca, além de 65 mil migrantes detidos. Os números destacam que quase 2 milhões de pessoas optaram pela “auto-deportação voluntária”, em meio a pressões e ameaças.

Neste sentido, o professor da UFMG destacou acreditar que as ações do ICE corroboram para a ideia de um governo neototalitário, relacionando com a característica de “busca constante de um inimigo.” “Nos Estados Unidos, está sendo direcionado para imigrantes, principalmente latinos e asiáticos”, comentou.

Em janeiro deste ano, Minneapolis foi palco de diversas ações de agentes federais. Milhares de migrantes, incluindo jovens e crianças, foram detidos e encaminhados para unidades do ICE. Um caso emblemático foi com Liam Conejo Ramos, um menino de cinco anos, nascido no Equador, que está detido junto com o pai. O advogado da família afirmou que eles pediram asilo no país em 2024 e estão legais.

A cidade foi marcada por tiroteios fatais nas últimas três semanas, incluindo a morte de dois cidadãos norte-americanos: Renee Good e Alex Fretti, os dois de 37 anos. Durante uma operação, em 7 de janeiro, um agente federal atirou no carro em que Renee estava. A secretária de Segurança Interna, Kriti Noem, afirmou, na época, que havia uma multidão hostilizando os agentes e a mulher teria “transformado o seu veículo em uma arma”, tentando atropelar o policial. Para se defender, ele abriu fogo contra Renee.

Autoridades locais contestaram a versão da secretária. O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, e o governador de Minnesota, Tim Walz, são contra as ações do ICE no território. As declarações tensionam a relação deles com Donald Trump, que caracteriza o trabalho da agência como “fenomenal.” O caso aumentou a tensão em Minneapolis e manifestantes entraram em combate com a polícia.

Leia mais sobre o assunto:

Em 24 de janeiro, agentes federais atiraram e mataram Alex Pretti, sob a justificativa que o cidadão estadunidense estaria armado e resistiu à abordagem durante uma operação em Minneapolis, levando o agente a atirar em legítima defesa.

Porém, o jornal The New York Times publicou que repórteres analisaram um vídeo do ocorrido e revelaram que não há indício de que Alex estava armado, mesmo que ele tivesse autorização de posse de arma. O cidadão estadunidense foi atingido nas costas enquanto estava caído na calçada.

Após as mortes, o governador de Minnesota classificou a ação do ICE como “repugnante” e ainda declarou que Minnesota “não aguenta mais.” Ele ainda fez uma pergunta direta a Trump: “O que temos que fazer para que estes agentes federais saiam do nosso estado?”

Em meio às tensões e posições contrárias sobre o tema, Trump baixou o tom e anunciou uma ligação com Walz, na última segunda-feira (26).

“O governador Tim Walz ligou para me pedir que trabalhemos conjuntamente. Foi uma ligação muito positiva e, na verdade, parece que estamos em sintonia. Vamos voltar a nos falar muito em breve”, escreveu o republicano.

Ele também anunciou o envio de seu “czar” anti-imigração ilegal, Tom Homan, para Minnesota, com a missão de informá-lo pessoalmente sobre a situação no estado.

Desestabilizar a Europa: controle da Groenlândia

“A questão da Groenlândia é uma forma de rachar a Europa. O objetivo principal é quebrar a Europa e a Otan. É a velha tática de dividir para governar e ele está implementando isso de maneira muito eficaz”, explicou Lucas Rezende. “Ele fez isso na América Latina, com a ação na Venezuela, está fazendo isso na Europa com relação à Groenlândia, e também tenta mudar o regime do Irã”, completou o professor.

Trump expõe o desejo de anexar os Estados Unidos com a Groenlândia, território 80% coberto de gelo autônomo da Dinamarca, desde o fim de 2025, sob a premissa que necessita ter o controle da ilha para a “segurança nacional”. O republicano proferiu diversas ameaças ao território ártico, desde ações militares até uma tentativa de comprar o país, ao invés de invadi-lo.

A localização estratégica e os recursos da Groenlândia poderiam beneficiar os EUA. A região fica na rota mais curta da Europa para a América do Norte, o que pode ser crucial para o sistema de alerta de mísseis balísticos do país, por exemplo.

Não é a primeira vez que os Estados Unidos tentam controlar esse território. O interesse atravessa séculos. O acesso aos recursos minerais é considerado crucial pelos norte-americanos, que assinaram um memorando de cooperação neste setor anteriormente.

Leia mais sobre o assunto:

As ameaças de Washington aumentaram a tensão entre os países, mas também com a Dinamarca e outros membros da Otan. Trump chegou a anunciar que iria impor tarifas de até 25% contra países que forem contra a compra da Groenlândia. Porém, o republicano cancelou a medida após reunião com o secretário-geral da Otan, Mark Rutte.

O presidente norte-americano anunciou que o encontro também resultou em um acordo preliminar entre os EUA e a Otan sobre a Groenlândia. Poucos detalhes foram divulgados, mas Trump garantiu que “obteve tudo que buscava” e “para sempre.”

Por outro lado, o primeiro-ministro da Groenlândia, Jens-Frederik Nielsen, afirmou desconhecer o acordo. O premiê segue ressaltando que não irá ceder e que “ninguém além da Groenlândia e da Dinamarca está autorizado a firmar acordos sobre a ilha e o Reino da Dinamarca.”

Oriente Médio: intervenção no Irã

Desde o início das manifestações no Irã, no fim do ano passado, Trump não descarta a possibilidade de uma intervenção militar no país. Para o professor da UFMG, o modus operandi o republicano é o mesmo: interferir no Irã na tentativa de derrubar a República Islâmica, que está no poder desde a Revolução de 1979.

Depois de diversas ameaças, Trump cogitou realizar uma reunião com autoridades iranianas. A Casa Branca ainda afirmou que Teerã suspendeu 800 execuções após os comentários do republicano.

Leia mais sobre o assunto:

A tensão entre os países voltou nesta semana, após o Comando Central (Centcom), responsável pelas operações militares dos Estados Unidos no Oriente Médio, anunciar a chegada de uma força militar na região.

O Centcom não revelou a localização exata do porta-aviões Abraham Lincoln, mas explicou que foi levado para a área com o objetivo de “promover a segurança e estabilidade regionais.” Após o anúncio norte-americano, a missão do Irã na Organização das Nações Unidas publicou um texto afirmando que o país “responderá como nunca antes” caso seja atacado.

Leia também

Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.

Ouvindo...