STF decide por adesão de São Paulo ao Propag; economia esperada é de R$ 1 bi por mês

O ministro André Mendonça definiu que o estado cumpriu com as medidas exigidas para o ingresso no programa de refinanciamento da dívida com a União

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O ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), decidiu que a adesão de São Paulo ao Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). A medida atende a uma Ação Cível Originária movida pela gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) pelo reconhecimento da celebração do contrato de renegociação do débito do estado com a União pela Secretaria do Tesouro Nacional (STN).

A decisão foi assinada pelo ministro na última sexta-feira (23) e, além de permitir o pagamento da dívida paulista, impede a União de aplicar sanções e restrições de crédito ao estado. Com a adesão ao Propag, o governo de São Paulo espera economizar R$ 1 bilhão por mês a partir do pagamento de parcelas com juros reduzidos e o refinanciamento em parcelas divididas pelos próximos 30 anos.

Na decisão, Mendonça argumenta que São Paulo cumpriu com todas as exigências para adesão ao Propag. O estado sancionou uma lei autorizativa na Assembleia Legislativa (Alesp) e assinou um termo aditivo enviado pela União e ainda pagou a primeira parcela com base nos valores editados pelo programa de refinanciamento.

A dívida de São Paulo com a União é a maior entre todos os estados, avaliada em R$ 317,6 bilhões de acordo com o Portal da Transparência do Tesouro Nacional. A situação paulista, no entanto, não é a mais grave considerando seu orçamento. Em relação ao comprometimento da receita corrente líquida (RCL), as piores situações são as do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais — todos eles em processo de adesão ao Propag.

O que diz o Propag

O Programa de Pleno pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) foi criado a partir das dificuldades encontradas pelo governador Romeu Zema (Novo) em aprovar a adesão de Minas Gerais ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF) na Assembleia Legislativa (ALMG). Principal pauta do Executivo Estadual para lidar com a situação da bilionária dívida com a União, a medida foi considerada excessivamente austera pelos parlamentares e não caminhou na Casa.

O RRF foi instituído durante a presidência de Michel Temer (MDB) como uma forma de adequação orçamentária dos estados endividados. Durante nove anos de vigência do regime, os estados precisam conter investimentos, limitar os reajustes salariais dos servidores e congelar novos concursos para o funcionalismo público, por exemplo.

Sem conseguir aderir ao regime via Legislativa, Zema conseguiu o ingresso via Supremo Tribunal Federal (STF) em 2024. Minas, então, se somou a um grupo formado por Goiás, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, todos operando sob o RRF. Paralelamente à empreitada jurídica do governador, membros da oposição na Assembleia, o presidente da Casa, Tadeu Martins Leite (MDB), e o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), começaram a costurar o que viria a ser o Propag.

O projeto de lei complementar que propunha a criação do Propag foi aprovado no Congresso Nacional em dezembro de 2024, sancionado parcialmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em janeiro do ano seguinte e regulamentado em abril.

O programa prevê a criação de condições para que os estados endividados com a União consigam parcelar o pagamento do débito em até 30 anos. Neste contexto, o Propag estabelece mecanismos para a redução dos juros cobrados sobre as parcelas, hoje calculados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — que estabelece a inflação — mais 4% do estoque da dívida ao ano.

O ingresso no Propag deve ser decidido pelos estados até o fim deste ano e pode ser feito em diferentes modelagens, todas elas com a possibilidade da redução dos juros reais com a eliminação dos quatro pontos percentuais cobrados além da inflação.

O modelo escolhido pelo governo mineiro e em discussão com um pacote com mais de uma dezena de projetos enviados à Assembleia prevê a redução de dois pontos percentuais a partir do abatimento de ao menos 20% do estoque da dívida. Hoje, Minas deve cerca de R$ 175 bilhões à União e, portanto, precisaria pagar R$ 35 bilhões para atingir seu objetivo.

Esse pagamento pode ser feito a partir da federalização de ativos estatais para amortizar a dívida com seu repasse ao governo federal ou via privatização dos bens com uso do recurso para o abatimento do débito. Neste contexto estão os polêmicos debates de venda de imóveis do estado e da Copasa e da federalização da Codemig, há meses monopolizando a discussão no Legislativo mineiro.

Outro ponto percentual pode ser abatido com o compromisso de que a economia obtida com essa redução de juros seja reinvestida no estado. O uso do valor que não será pago em forma de dívida deve, portanto, ser aplicado em ações de segurança pública, ensino profissionalizante, infraestrutura e outras áreas nevrálgicas da estrutura do estado.

Por fim, mais um ponto percentual pode ser suprimido com a contribuição com o Fundo de Equalização Federativa. Instituído pelo próprio Propag, essa medida foi tomada como uma forma de negociar a aprovação do texto no Congresso junto a parlamentares de estados que não estão em dívida com a União e que viam no programa de refinanciamento uma iniciativa de favorecimento das unidades federativas em débito. Os valores destinados ao fundo serão redistribuídos entre os estados do país.

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Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

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