Com arquitetura messiânica, o ato liderado por Nikolas Ferreira (PL) marca um movimento de expansão de sua figura dentro do bolsonarismo, moldando um nome que, no futuro próximo, pode carregar as bandeiras defendidas pelo ex-presidente como um possível líder do campo conservador. Reunindo milhares em Brasília, no Distrito Federal, e com adesão de nomes de peso da direita durante toda a ‘via crucis’ entre Paracatu, no Noroeste de Minas Gerais, e a capital federal, Nikolas “interpretou Jesus Cristo” e saiu engrandecido do ato, mesmo que não tenha reverberado fora da caixa de ressonância da direita.
Flávio Bolsonaro, apontado pelo pai como candidato ao Palácio do Planalto nestas eleições, ainda lidera a direita em 2026, mas o nome do parlamentar de Minas Gerais, que chegou a ser cotado para disputar o Palácio Tiradentes, ganha musculatura e pode vir a representar o campo político nas próximas eleições gerais. “Nikolas mostrou iniciativa e grande capacidade de mobilização. A caminhada uniu as tendências de direita em torno dele. Ele já era um nome forte e ficou mais fortalecido agora”, avalia o cientista político Adriano Cerqueira.
Vídeo mostra momento em que raio atinge manifestação com Nikolas em Brasília Após 7 dias de caminhada, Nikolas chega à manifestação em Brasília Sem Flávio e Eduardo, Michelle e Carlos acompanham o fim da caminhada de Nikolas Ato liderado por Nikolas Ferreira reúne milhares em Brasília
“Ele certamente está na disputa pelo espólio eleitoral de Jair Bolsonaro. Mas o que as pesquisas mostram é que a indicação ainda tem peso. Jair Bolsonaro continua sendo a liderança, é o cara que está ali colado com o Lula nas intenções de voto. Se ele aponta o dedo e diz (quem vai disputar), os seguidores vão lá e o apoiam. Então, o Flávio tem esse peso. Mas eu acho que talvez o Nikolas esteja em uma empreitada de longo prazo e deve estar funcionando”, opina o cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Camilo Aggio.
Nikolas Ferreira publicou, na noite de segunda-feira (19), uma “carta aberta ao povo do Brasil” explicando os motivos que o levaram a começar o percurso de 240 km entre o Noroeste mineiro e o Distrito Federal. No texto, o parlamentar nega que seu gesto seja de “vaidade” ou seja um “espetáculo” e alega ser um “ato de consciência, de amor ao Brasil e de compromisso com a liberdade”. “Que cada brasileiro saiba: a liberdade não se pede de joelhos; defende-se de pé”, argumentou.
Ele defende que os presos do 8 de janeiro são submetidos a “desumanização” e processos “ilegais, parciais e arbitrários”. “São sintomas de algo muito mais profundo e perigoso: o cansaço moral de uma nação que vê o mal triunfar sem consequências, escândalos sucederem escândalos, o crime organizado avançar sobre o território e as instituições, enquanto o cidadão honesto é esmagado por um Estado inerte para proteger o bem, mas voraz para cobrar impostos”, destacou.
A iniciativa de Nikolas, que ocorreu no recesso parlamentar, capturou as atenções e mobilizou a direita em um momento quando a política fica em segundo plano na discussão pública. Apesar disso, o movimento gerou críticas e até ações práticas de parlamentares da esquerda, que chegaram a pedir à Polícia Rodoviária Federal (PRF) que interrompesse a caminhada devido ao risco trazido tanto a quem cruzava a divisa entre Minas e o Distrito Federal, quanto a quem trafegava no local. Nikolas, segundo o órgão, não comunicou oficialmente a PRF antes de começar o trajeto, o que o parlamentar negou.
Nas redes sociais, a reação ao movimento é distinta entre esquerda e direita – de piada para apoiadores do governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a um “ato heroico” para quem é afeito ao ex-presidente Jair Bolsonaro. “Você é muito importante para o Brasil e fez sua parte. Acordou o Brasil, chega de escândalos e de roubalheira!”, diz um apoiador de Nikolas Ferreira nas redes sociais. “O golpe está aí, cai quem quer”, ironizou uma opositora, também nas plataformas digitais.