Neste domingo (25), completam-se sete anos do rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho, na Região Metropolitana de Belo Horizonte. A tragédia deixou 270 mortos, ou 272, se contadas as vítimas que estavam grávidas, e segue impactando profundamente a vida de famílias e cidades atingidas, que ainda cobram justiça, responsabilização criminal e avanços concretos na reparação.
Para os familiares das vítimas, o tempo não amenizou a dor. Segundo a presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem (Avabrum), Nayara Porto, a ausência de punições agrava o sofrimento.
“Na verdade ela aumenta, porque nós temos sete anos de tragédia e o que importa pra a gente que é justiça, a gente não tem. Não temos ninguém preso, temos várias investigações, uma investigação muito bem feita na verdade, mas todo aquele atraso de processos, de mudança de Ministério Público que só atrasa e nisso também vai alterando a dor da gente, vai aumentando a dor da gente, porque pra gente o que interessa é justiça, porque a gente quer que as pessoas que teve responsabilidade dessa tragédia, eles sejam presos, isso que é o que interessa pra gente, então infelizmente a dor só aumenta”, disse.
Ela explica que os processos judiciais ainda estão longe de um desfecho. “Nós vamos começar agora, em fevereiro, com as audiências de instruções, vai ter a escolha. Da acusação, da defesa, das testemunhas de acusação, das testemunhas de defesa e dos réus, mas nós vamos passar aí por um período muito extenso, que é um ano e meio praticamente dessas audiências de instruções, tá caminhando, caminhou, né, ano passado caminhou um pouco, mas ainda falta muita coisa ainda pela frente”.
A sensação de desigualdade na disputa judicial também é destacada por Josiane Melo, integrante da diretoria da Avabrum.
“Nós nos sentimos como o Davi perante Golias, uma luta diária, a gente sabe de todo poderio da Vale, a gente sabe que a Vale faz campanhas milionárias para que traga a população um olhar diferente, que a Vale cuida do meio ambiente, que a Vale já virou a praga, que a Vale está descaracterizando barragens, como se isso fosse uma vantagem, se é apenas uma obrigação dela, está na lei, então ela está cumprindo obrigações, então a gente sabe que é tudo muito complexo, que é tudo muito difícil, mas nós não vamos desistir porque o amor que nós temos pelas pessoas que nós perdemos é muito maior do que tudo isso”, afirmou.
Reconstrução e impactos sociais
O prefeito de Brumadinho, Gabriel Parreiras, afirma que a cidade não pode ser reduzida à tragédia, mas reconhece que a reparação e a justiça ainda não chegaram.
“A gente precisa lembrar que Brumadinho não acabou e que Brumadinho não é a cidade da lama. A gente não pode deixar de ser reconhecido por isso, por um crime que fizeram com a gente. Isso não é o que é Brumadinho. Brumadinho é uma cidade de um povo maravilhoso, de umas beleza naturais incríveis e que a gente está reconstruindo”, disse.
Segundo ele, ainda há revolta diante da lentidão das ações. “A gente ainda sente uma revolta muito grande por ver que a reparação e a justiça estão muito longe de acontecerem. A reparação das obras de reparação na prática, vamos para sete anos, muitas dessas obras ainda em fase de projeto conceitual, a gente não aguenta esperar mais por isso”.
O prefeito também destacou impactos que vão além das obras físicas. “O que mais preocupa hoje são os danos que não foram precificados pelo crime da Vale. Por exemplo, os danos sociais de Brumadinho. Hoje um aluguel de Brumadinho é mais caro, um curso de vida é mais caro, nós tivemos um adoecimento mental grande na nossa cidade”, seguiu, reforçando o convite para que as pessoas conheçam o município. “As pessoas precisam vir aqui, a lama não destruiu a nossa cidade. Passados sete anos as pessoas ainda têm essa impressão errada”.
Situação em Mário Campos
Uma das cidades mais afetadas, Mário Campos também cobra avanços. A prefeita Andresa Rodrigues afirma que, após sete anos, o município ainda não teve obras de reparação executadas.
“Inicialmente, é importante reforçar que Mário Campos é a segunda cidade mais atingida pela tragédia, tendo perdido 20 vidas e sofrendo impactos diretos, pois é a cidade que antecede Brumadinho. Após sete anos, o município não possui nenhuma obra de reparação em andamento”.
Ela critica a lentidão do processo judicial. “Sete anos já se passaram desde a tragédia crime, que em menos de um minuto tirou 272 vidas, e até hoje ninguém foi responsabilizado. É fundamental que a justiça atue com mais celeridade e dê respostas à sociedade”, seguiu.
A prefeita defendeu também mudanças no modelo de reparação. “Para que a reparação se inicie em Mário Campos, é essencial que a conversão da obrigação de fazer da Vale para obrigação de pagar seja realizada”.
Posicionamento da Vale
A diretora de Reparação da Vale, Gleuza Jesué, afirma que a empresa atua desde 2019 para minimizar os impactos econômicos e sociais da tragédia em Brumadinho.
“Com o rompimento da barragem, Brumadinho sofreu uma grande queda na recadação de impostos. A nossa preocupação foi imediata desde 2019 e várias ações vêm sendo implementadas”.
Ela destacou projetos voltados ao turismo e ao desenvolvimento econômico. “Hoje temos várias ações e já em endamento um pacote de experiências turísticas com 38 experiências que são oferecidas ao público”, disse.
Sobre Mário Campos, a Vale informou, em nota, que segue desenvolvendo ações sociais, como cursos profissionalizantes previstos no Acordo de Reparação, apoio a projetos esportivos e culturais e iniciativas na área da saúde. Segundo a empresa, estão aprovadas a construção de duas novas Unidades Básicas de Saúde e a reforma de outras duas, além de projetos de infraestrutura e apoio à agricultura local.