Alckmin diz que Propag foi ‘dádiva verdadeira’ para Minas pagar dívida bilionária

Vice-presidente disse que redução dos juros apenas ao índice inflacionário é ‘um espetáculo’ e comparou situação dos estados com as cobranças aplicadas ao governo federal

O vice-presidente Geraldo Alckmin no programa “Bom dia, ministro” nesta quinta-feira (15)

O vice-presidente da República e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Geraldo Alckmin (PSB), disse que o Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) foi uma ‘dádiva verdadeira’ para Minas Gerais. A declaração foi feita nesta quinta-feira (15) durante o programa “Bom dia, ministro”, da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC).

Em resposta à uma pergunta feita pela Itatiaia, Alckmin recordou o tempo em que foi governador de São Paulo (2001 -2006 e 2011- 2018) — estado que também tem uma dívida bilionária com a União — e disse que a perspectiva de pagar a dívida com a União com valores corrigidos apenas pela inflação representa um avanço histórico. Atualmente, Minas deve cerca de R$ 180 bilhões.

“Para se ter uma ideia, o Governo Federal paga 15% de Selic (taxa básica de juros) para captar recursos. Os estados pagam 4%. Agora foi dado um outro passo com o presidente Lula. Não precisa ser 4%, pode ser 0%. Tem que investir 1% em ensino técnico, escolas técnicas, colocar 1% lá no fundo que na verdade é para os próprios estados e você zera o imposto. Então Minas Gerais tem um benefício muito importante, eu acho que foi uma dádiva verdadeira, porque você vai sair para juro zero ao invés de ir com a Selic de 15%. Não pagar juros é um espetáculo”, afirmou.

Durante todo o segundo semestre do ano passado, a Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) debateu mais de uma dezena de projetos enviados pelo Executivo Estadual para definir os moldes da adesão ao Propag. Atualmente, Minas e o governo federal fazem os últimos ajustes para determinar a forma do pagamento da dívida em parcelas divididas pelos próximos 30 anos.

O que diz o Propag

O Programa de Pleno pagamento de Dívidas dos Estados (Propag) foi criado a partir das dificuldades encontradas pelo governador Romeu Zema (Novo) em aprovar a adesão de Minas Gerais ao Regime de Recuperação Fiscal (RRF) na Assembleia Legislativa (ALMG). Principal pauta do Executivo Estadual para lidar com a situação da bilionária dívida com a União, a medida foi considerada excessivamente austera pelos parlamentares e não caminhou na Casa.

O RRF foi instituído durante a presidência de Michel Temer (MDB) como uma forma de adequação orçamentária dos estados endividados. Durante nove anos de vigência do regime, os estados precisam conter investimentos, limitar os reajustes salariais dos servidores e congelar novos concursos para o funcionalismo público, por exemplo.

Sem conseguir aderir ao regime via Legislativa, Zema conseguiu o ingresso via Supremo Tribunal Federal (STF) em 2024. Minas, então, se somou a um grupo formado por Goiás, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, todos operando sob o RRF. Paralelamente à empreitada jurídica do governador, membros da oposição na Assembleia, o presidente da Casa, Tadeu Martins Leite (MDB), e o então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), começaram a costurar o que viria a ser o Propag.

O projeto de lei complementar que propunha a criação do Propag foi aprovado no Congresso Nacional em dezembro de 2024, sancionado parcialmente pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em janeiro do ano seguinte e regulamentado em abril.

O programa prevê a criação de condições para que os estados endividados com a União consigam parcelar o pagamento do débito em até 30 anos. Neste contexto, o Propag estabelece mecanismos para a redução dos juros cobrados sobre as parcelas, hoje calculados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — que estabelece a inflação — mais 4% do estoque da dívida ao ano.

O ingresso no Propag deve ser decidido pelos estados até o fim deste ano e pode ser feito em diferentes modelagens, todas elas com a possibilidade da redução dos juros reais com a eliminação dos quatro pontos percentuais cobrados além da inflação.

O modelo escolhido pelo governo mineiro e em discussão com um pacote com mais de uma dezena de projetos enviados à Assembleia prevê a redução de dois pontos percentuais a partir do abatimento de ao menos 20% do estoque da dívida. Hoje, Minas deve cerca de R$ 175 bilhões à União e, portanto, precisaria pagar R$ 35 bilhões para atingir seu objetivo.

Esse pagamento pode ser feito a partir da federalização de ativos estatais para amortizar a dívida com seu repasse ao governo federal ou via privatização dos bens com uso do recurso para o abatimento do débito. Neste contexto estão os polêmicos debates de venda de imóveis do estado e da Copasa e da federalização da Codemig, há meses monopolizando a discussão no Legislativo mineiro.

Outro ponto percentual pode ser abatido com o compromisso de que a economia obtida com essa redução de juros seja reinvestida no estado. O uso do valor que não será pago em forma de dívida deve, portanto, ser aplicado em ações de segurança pública, ensino profissionalizante, infraestrutura e outras áreas nevrálgicas da estrutura do estado.

Por fim, mais um ponto percentual pode ser suprimido com a contribuição com o Fundo de Equalização Federativa. Instituído pelo próprio Propag, essa medida foi tomada como uma forma de negociar a aprovação do texto no Congresso junto a parlamentares de estados que não estão em dívida com a União e que viam no programa de refinanciamento uma iniciativa de favorecimento das unidades federativas em débito. Os valores destinados ao fundo serão redistribuídos entre os estados do país.

Terras raras

Alckmin tratou sobre a dívida de Minas Gerais ao comentar a inclusão da Codemig como forma de pagamento de parte da dívida do estado com a União. A estatal foi listada como ativo na negociação com apenas 5% de suas ações oferecidas ao governo federal. Esse percentual pode aumentar se Brasília sinalizar interesse em contar com uma parte maior das ações da companhia.

A Codemig extrai nióbio em Araxá, no Triângulo Mineiro, e tem potencial para trabalhar em jazidas de minerais conhecidos como terras raras, grupo de elementos essenciais para a indústria da tecnologia. Perguntado se o governo federal tem interesse em pedir uma participação maior na empresa mineira como estratégia de posicionamento internacional neste mercado, Alckmin não respondeu especificamente sobre a companhia, mas exaltou o potencial minerário de Minas Gerais.

“Minas Gerais tem um potencial impressionante, aliás, o nome do estado já diz sobre sua potência no seu subsolo com nióbio, lítio. Agora, lá em Araçuaí, no Norte de Minas, lá no Vale do Jequitinhonha, você tem uma produção de, de lítio, de carbonato de lítio, fundamental para as baterias. Então eu estou vendo com bastante otimismo”, afirmou o vice-presidente. .

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Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

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