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Acordo de Mariana: com lucro acumulado de R$ 289 bilhões, Vale quer pagar R$ 4 bilhões por ano

Pela proposta apresentada, a mineradora quer destinar 12% do lucro médio anual desde a tragédia da barragem de Fundão, que matou 19 pessoas e contaminou a bacia do Rio Doce

Se depender da proposta da Vale para o acordo de Mariana, a mineradora destinará pouco mais de 10% do seu lucro médio anual ao pagamento de indenização por todos os danos causados pelo rompimento da barragem de Fundão, em novembro de 2015.

Desde aquele ano, a Vale — maior mineradora do país — acumulou R$ 289,5 bilhões em lucros líquidos, uma média de R$ 32,16 bilhões por ano. Pela proposta apresentada ao governo federal e aos estados de Minas Gerais e Espírito Santo, a Vale se comprometeu com o pagamento de R$ 103 bilhões — destes, apenas R$ 82 bilhões entrariam nos cofres dos entes públicos, e divididos em 20 anos.

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Pelo cálculo, a mineradora desembolsaria R$ 4,1 bilhões ao ano, o equivalente a 12,7% do seu lucro médio considerando o período de 2015 (ano da tragédia em Mariana) a 2023 (último balanço oficial publicado pela companhia.

Nesse intervalo, a Vale contabilizou prejuízos em apenas dois anos: em 2015, a perda foi de R$ 44,2 bilhões e, em 2019, de R$ 6,6 bilhões. Este último foi marcado pelo rompimento da barragem de Córrego do Feijão, ocorrido em 25 de janeiro daquele ano, quando 270 pessoas morreram em decorrência do desastre, a maioria funcionários diretos ou terceirizados.

Desde 2015, a Vale registrou o maior lucro líquido em 2021, quando ao cifra anunciada ao mercado chegou a R$ 121,2 bilhões. No ano seguinte obteve o segundo melhor resultado: R$ 95,9 bilhões. No ano passado, a mineradora fechou o caixa com lucro de quase R$ 40 bilhões — o quarto melhor resultado da série.

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Confira o lucro líquido da Vale por ano (desde 2015):

  • 2023: R$ 39,94 bilhões
  • 2022: R$ 95,9 bilhões
  • 2021: R$ 121,2 bilhões
  • 2020: R$ 26,7 bilhões
  • 2019: - R$ 6,6 bilhões (ano do rompimento da barragem de Brumadinho)
  • 2018: R$ 25,65 bilhões
  • 2017: R$ 17,6 bilhões
  • 2016: R$ 13.3 bilhões
  • 2015: - R$ 44.2 bilhões (ano do rompimento da barragem de Mariana)
  • Total: R$ 289.49

Entenda a proposta da Vale e o que está em jogo

Na última semana, a Vale divulgou em comunicado destinado aos investidores, uma nova contraproposta para custear a reparação pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana.

“Como parte das negociações do acordo, Samarco Mineração S.A. (“Samarco”), Vale e BHP Billiton Brasil Ltda. (“BHP”), apresentaram uma nova proposta de acordo ao TRF6 (“Nova Proposta”) em 11 de junho, em resposta ao feedback das autoridades públicas”, diz o comunicado assinado pelo vice-presidente Executivo de Finanças e Relações com Investidores da Vale, Gustavo Duarte Pimenta.

Ao todo, a proposta é de R$ 140 bilhões, dos quais a mineradora já descontaria R$ 37 bilhões, que ela diz ter investido em indenizações e ações de reparação ao desastre.

Dos R$ 103 bilhões restantes, R$ 21 bilhões são as chamadas “obrigações de fazer” — custos que a própria Vale, a BHP Billiton e a Samarco arcariam na recuperação dos danos, como a retirada de rejeitos de toda a Bacia do Rio Doce. O valor é considerado baixo por quem acompanha as negociações de perto.

Os outros R$ 82 bilhões seriam divididos para a União e os governos de Minas Gerais e Espírito Santo.

Por um lado, a proposta global da Vale, de R$ 103 bilhões, se aproxima do que os entes públicos pediram: R$ 109 bilhões. Mas há duas diferenças fundamentais: o prazo de pagamento e as “obrigações de fazer”.

Os governos, acompanhados do Ministério Público e da Defensoria Pública querem que os R$ 109 bilhões sejam divididos aos três entes em pagamentos diluídos pelos próximos 12 anos — o que daria pouco mais de R$ 9 bilhões ao ano, o dobro do que a Vale pretende pagar.

A proposta dos entes públicos ainda exclui do acordo as “obrigações de fazer” da Vale. Ou seja, todos os custos referentes a indenizações individuais ou à recuperação do meio ambiente, gravemente afetado pelo rompimento da barragem seriam custeados pela Vale, mas não teriam um “teto” máximo de pagamento, como desejam os executivos da mineradora.


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Editor de política. Foi repórter no jornal O Tempo e no Portal R7 e atuou no Governo de Minas. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem MBA em Jornalismo de Dados pelo IDP.
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