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O parlamentar falou com jornalistas após uma sessão reservada com um delegado da Polícia Federal e o depoimento público da defensora Patrícia Oliveira, primeira a formalizar denúncias contra as fraudes.
Investigação sob sigilo e o papel da Polícia Federal
Randolfe lembrou que parte da apuração permanece em sigilo, por determinação do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF). Segundo ele, é fundamental respeitar essa condição para não comprometer a coleta de provas: “Não estamos falando de um processo concluído, mas de um inquérito em curso. Abrir informações agora pode isentar aqueles que roubaram dinheiro dos aposentados e pensionistas”, afirmou. O senador ressaltou que o governo não teme investigações porque foi justamente sob Lula que a Polícia Federal deflagrou a Operação “Sem Descontos”, em abril deste ano, interrompendo parte dos prejuízos.
Fraudes antes de Lula: de 2017 a 2022
Ao comentar o depoimento da defensora pública, Randolfe reforçou a narrativa de que as fraudes não nasceram na atual gestão:
- Denúncias já circulavam desde 2017 e foram formalizadas em 2019;
- O governo Bolsonaro teria perdido a chance de estancar o esquema ao vetar trecho da MP 671, que impedia a transferência de dados de beneficiários;
- Em 2022, uma nova medida provisória revogou regras de transparência sobre cadastros do INSS, abrindo espaço para o crescimento do esquema.
“Se houvesse transparência, se não tivesse ocorrido o veto, esse escândalo não teria atingido essa magnitude”, disse Randolfe.
A disputa dentro da CPMI
O líder governista falou em um momento de recomposição de forças no colegiado. Após perder presidência e relatoria para a oposição, o governo trocou sete integrantes, ampliando a bancada do PT de cinco para sete membros. A mudança busca reduzir riscos de deserção e consolidar o partido como linha de frente da defesa de Lula.
- Nomes tradicionais como Renan Calheiros (MDB-AL) e Omar Aziz (PSD-AM) optaram por deixar a CPMI, transferindo ao PT a responsabilidade de enfrentar o embate político;
- Do lado da oposição, houve reforço da chamada “tropa de choque”, com a entrada de Silas Câmara (Republicanos-AM) e Paulinho da Força (Solidariedade-SP).
Segundo Randolfe, esse novo equilíbrio mostra que a base “aprendeu com as omissões e traições das primeiras sessões” e agora está mais preparada para evitar derrotas regimentais.
Críticas à estratégia da oposição
Randolfe rebateu a pressão da oposição para convocar membros de diretorias de associações envolvidas nas fraudes: “Há uma forçação de barra. O que precisa é chamar presidentes das entidades, não diretores. Se for para convocar diretores, que se convoquem todos de todas as associações. Não dá para escolher alvos políticos”, disse. Ele acusou adversários de transformar a CPMI em palanque eleitoral: “Eles querem achar um fio de cabelo para nos responsabilizar. Nós queremos mostrar a cabeleira inteira, inclusive dos carecas, do esquema que eles montaram.”
Apelos por uma investigação ampla
O senador cobrou do relator, deputado Alfredo Gaspar (União-AL), que não restrinja a apuração a nomes selecionados:
- Convocar representantes de todas as dez entidades envolvidas, incluindo a ASBAC e a AMBEC;
- Rastrear festas e eventos promovidos por dirigentes das associações;
- Apurar doações de campanha feitas por integrantes do esquema a políticos, inclusive, segundo ele, a adversários de Lula em 2022.
“Me disseram que um presidente de associação envolvida contribuiu para a campanha do ex-presidente Jair Bolsonaro. Isso precisa ser investigado”, afirmou.
Contexto da investigação
A CPMI apura um rombo estimado em R$ 6,3 bilhões em descontos indevidos em aposentadorias e pensões.
- O esquema envolvia associações que cobravam taxas de beneficiários sem autorização;
- A Ambec (Associação de Benefícios Mútuos dos Empregados da Caixa Econômica Federal) sozinha arrecadou R$ 231 milhões entre 2022 e 2024;
- A Operação “Sem Descontos” da PF revelou ainda suspeitas de uso de “laranjas” ligados ao setor de saúde e de financiamento de facções criminosas a partir desses recursos.
Segundo Randolfe, essa última frente, sobre o elo com organizações criminosas, mostra o alcance das investigações sob o governo Lula: “Hoje mesmo a Polícia Federal atingiu próceres de fintechs situadas na Faria Lima que financiavam o PCC. Isso só é possível porque neste governo há independência das instituições.”
O que vem pela frente
A agenda da CPMI prevê:
- Convocação de ex-ministros da Previdência dos governos Dilma Rousseff, Michel Temer, Jair Bolsonaro e Lula;
- Depoimento de dez ex-presidentes do INSS;
- Chamadas de diretores de benefícios, que atravessaram gestões distintas, para explicar por que não interromperam fraudes que já estavam em curso;
- Comparecimento do atual ministro da Previdência, Wolney Queiroz, em data ainda a ser definida.
Disputa de narrativas
Na avaliação de Randolfe, a oposição tenta colar a imagem do escândalo ao governo Lula, mas, segundo ele, “não conseguirá”.
“Investigações só existem porque este governo as iniciou. Foi neste governo que se restituiu mais de 80% dos aposentados lesados até agora. A diferença entre nós e eles é clara: enquanto eles fazem palanque, nós fazemos investigação”, disse ele.