Em meio à privatização, Copasa leiloa mais veículos em 4 meses que em 5 anos anteriores

Empresa afirma que processo faz parte da transição de uma frota própria para veículos alugados e que leilões ocorreram porque mais automóveis foram recebidos no fim do ano passado

Sede da Copasa no bairro Santo Antônio, região Centro-Sul de BH

Em meio às longas e atribuladas discussões sobre a privatização da Copasa na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) no segundo semestre do ano passado, a companhia de saneamento intensificou sua agenda de leilão de veículos. Quatro pregões foram abertos entre setembro e dezembro com a previsão para a alienação de 535 itens. O número é superior ao dos processos realizados nos cinco anos anteriores — entre novembro de 2019 e setembro de 2025, foram vendidos 509 automóveis.

Levantamento feito pela Itatiaia a partir dos dados disponibilizados na seção de licitações do site da Copasa mostra ainda que os pregões anteriores listavam menos veículos disponíveis para a alienação. A renovação da frota ocorre no momento em que o estado se prepara para entregar a companhia para a iniciativa privada, conforme aprovado pela Assembleia no último 17 de dezembro.

Em 22 de setembro de 2025 foi publicado o primeiro edital de leilão de veículos desde novembro de 2023. O documento previa a venda de 75 itens com lance inicial médio de R$ 6,5 mil. Mais três pregões foram abertos nos três meses seguintes com a previsão de entrega de 460 automóveis, totalizando 535 só enquanto os deputados estaduais debatiam se autorizariam ou não a venda da estatal no âmbito do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag).

Em nota enviada à reportagem (leia a nota na íntegra no fim da matéria), a Copasa disse que está em processo de renovação da frota própria da empresa por meio de locação de veículos.

A mudança, segundo a Copasa, começou em 2015 e se intensificou no último trimestre de 2025 em virtude do recebimento de um maior volume de veículos pelas locadoras, e pela desmobilização programada e gradual da frota própria utilizada nas diversas operações da Companhia.

Como foram os últimos leilões de veículos da Copasa

A publicação dos editais dos últimos quatro leilões se deu entre setembro e dezembro de 2025 e envolvem carros, motocicletas, triciclos e caminhões. O primeiro, como já citado, listou 75 veículos com lance inicial médio de R$6.558,83. O segundo pregão, publicado em 24 de outubro, tinha 155 veículos elencados, com lance inicial médio de R$ 10.365,79.

Em novembro e dezembro, a lista seguiu inflada, com 152 e 153 veículos incluídos no leilão em cada um dos editais. Os automóveis têm, em média, nove anos desde sua fabricação, mas as listagens contam com alguns veículos em circulação há quase 50 anos.

Nos nove leilões anteriores, realizados desde novembro de 2019, a maior quantidade de itens alienados em um só edital foi de 80 veículos. Veja a tabela completa com as informações dos últimos leilões abaixo:

Data do leilão
nº de veículos
Média de valor
Valor mais alto
Valor mais baixo
Média de idade
Mais novo
Mais velho
05/12/2025
153
R$ 14.513,07
R$ 108.500,00
R$ 5.700,00
2017
2019
1998
14/11/2025
152
R$ 22.869,74
R$ 141.300,00
R$ 3.100,00
2019
2019
1977
24/10/2025
155
R$ 10.365,79
R$ 51.700,00
R$ 4.400,00
2013
2019
1981
22/09/2025
75
R$ 6.558,83
R$ 7.373,00
R$ 6.135,00
2017
2019
2013
17/11/2023
13
R$ 5.346,15
R$ 12.000,00
R$ 1.000,00
2003
2007
1997
26/05/2023
21
R$ 7.180,95
R$ 31.000,00
R$ 900,00
2006
2014
1978
19/05/2022
53
R$ 4.611,32
R$ 28.600,00
R$ 800,00
2009
2014
1987
10/03/2022
80
R$ 5.003,75
R$ 40.100,00
R$ 700,00
2005
2014
1978
17/12/2021
76
R$ 3.998,68
R$ 31.400,00
R$ 900,00
2004
2013
1980
19/03/2020
58
R$ 850,00
R$ 1.400,00
R$ 600,00
2003
2007
2001
11/02/2020
60
R$ 1.250,00
R$ 14.500,00
R$ 600,00
2005
2014
2001
12/12/2019
80
R$ 2.767,50
R$ 23.100,00
R$ 200,00
2003
2007
1978
21/11/2019
68
R$ 2.069,12
R$ 16.600,00
R$ 600,00
2008
2014
2001

O que diz a Copasa

Leia a nota da Copasa na íntegra:

A Copasa iniciou, em 2015, o processo de renovação da frota de veículos próprios por veículos locados, considerando a viabilidade econômica e técnica apontada em estudos realizados pela Companhia.

O projeto priorizou inicialmente os veículos da frota leve e, somente em 2024, foram iniciadas ações voltadas à frota de motocicletas, triciclos e caminhões com carrocerias e implementos. No caso das motocicletas e triciclos, por questões de saúde e segurança dos empregados, a Copasa considerou pertinente a substituição por veículos leves locados. Em relação aos caminhões, o processo de renovação teve início em 2024 e deverá ser concluído até meados de 2026, quando a Companhia contará com uma frota composta por mais de 99% de veículos locados.

A renovação da frota ocorreu de forma gradativa e crescente, implicando, consequentemente, a realização de processos de alienação dos ativos por meio de leilões. Inicialmente, esses eventos foram realizados com um quantitativo menor de veículos, ampliando-se no último trimestre do ano em razão do recebimento de um maior volume de veículos pelas locadoras, bem como da desmobilização programada e gradual da frota própria utilizada nas diversas operações da Companhia.

Para 2026, estão previstos novos processos de alienação de veículos, com o objetivo de obter recursos provenientes da venda dos ativos, os quais compuseram os estudos que asseguraram a viabilidade econômica do projeto de renovação da frota.

O projeto vem sendo executado com êxito, proporcionando a disponibilização de veículos mais modernos, econômicos e seguros.

A privatização da Copasa

A privatização da Copasa, bem como da Gasmig e da Cemig, já integrava a pauta do governo Zema desde o primeiro mandato, mas ganhou novo fôlego com a criação do Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Com o projeto permitindo a privatização e federalização de ativos como forma de pagar a dívida com a União, vários projetos da pauta privatista do Executivo andaram na Assembleia após anos parados, incluindo os imóveis do estado.

Antes de que o Projeto de Lei (PL) 4.380/2025 começasse a tramitar na Assembleia ao tratar especificamente sobre a venda da companhia de saneamento, a Casa viveu uma atribulada discussão da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 24/2023. Também de autoria de Zema, o texto derrubou a exigência de um referendo popular para autorizar a privatização da Copasa.

O Propag prevê que estados refinanciem em 30 anos a dívida com a União e estabelece mecanismos para reduzir os juros cobrados sobre as parcelas. O projeto do Executivo Estadual é ingressar no programa abatendo 20% do estoque devido. Para obter o valor necessário na amortização da dívida, o Executivo enviou projetos para federalizar ou privatizar estatais à Assembleia.

Os juros eram indexados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) mais 4% ao ano. Se o estado conseguir amortizar 20% do estoque da dívida, dois pontos percentuais da cobrança adicional são abatidos.

Outro ponto percentual pode ser abatido com o compromisso de que a economia obtida com essa redução de juros seja reinvestida no estado. O uso do valor que não será pago em forma de dívida deve, portanto, ser aplicado em ações de segurança pública, ensino profissionalizante, infraestrutura e outras áreas nevrálgicas da estrutura do estado.

A venda da Copasa foi defendida como forma de obter recursos para fazer tais investimentos no primeiro ano de adesão ao Propag.

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Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

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