O segundo dia de audiências do processo criminal sobre o rompimento da Barragem
Três mulheres foram ouvidas nesta sexta-feira (27) em Belo Horizonte. A atual fase de instrução
Relato de Nayara Porto
Presidente da Avabrum - a Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão, Nayara Porto falou sobre o marido, Everton, que trabalhava no almoxarifado da mina e morreu na tragédia. Segundo ela, a partir de 2018 ele vinha ficando mais nervoso e chegou a dizer que a Vale “não era lugar de se trabalhar”. Ela afirmou que ele estava insatisfeito e queria sair da empresa.
Assim como
‘Buscamos punição condizente com o tamanho do crime’, diz representante de vítimas de Brumadinho Vídeo: familiares de vítimas fazem oração antes da 1ª audiência do desastre de Brumadinho Justiça Federal de Minas inicia audiências relacionadas à tragédia de Brumadinho
Nayara afirmou que a Vale nunca fez contato direto com os atingidos, apenas por meio de psicólogos, e que a Tüv Süd também não procurou as famílias. “A Vale acabou com a minha vida. Sou filha de mãe solteira e desde o início achava que não ia casar. Quando conheci meu marido tudo mudou, foi coisa de Deus. E vi minha história mudando, o dia que casei foi o dia mais feliz da minha vida. Quando a Vale fez o que fez com meu marido parecia que eu ia voltar para o inferno que eu vivia, e eu não queria. A Vale acabou com a minha vida. O dinheiro veio mas levou muita coisa, inclusive meu marido”, disse.
Ela também relatou dificuldades financeiras após a morte do marido.
Depoimento de Juliana Cardoso
Juliana Cardoso perdeu o sogro, Levi, que trabalhava na limpeza da mina. Segundo ela, ele era uma pessoa simples e falava que “tinha comentários” sobre um possível vazamento na barragem.
Juliana afirmou que funcionários terceirizados tinham tratamento diferente dentro da empresa. Assim como outras testemunhas, disse que as sirenes não foram acionadas. Ela contou que ouviu um forte barulho de água, viu as luzes de casa piscarem e pessoas correndo e gritando, até descobrir o que havia acontecido.
Apenas um fragmento da perna do sogro foi encontrado. “O velório foi só o caixão. Lembro que minha sogra abraçou o caixão e pediu pra abrir para ver um pouquinho dele, mas não tinha o que ver”, relatou.
Juliana afirmou que a Vale não procurou a família e que, no caso deles, não houve assistência aos terceirizados. Também descreveu as consequências emocionais dentro de casa.
“Eu escolhi morar em Córrego do Feijão, e isso me foi tirado. Tiraram minha saúde, dos meus filhos, do meu marido. Meu marido trabalhava com mineração e não tem mais condições porque desenvolveu um quadro depressivo, não consegue mais entrar nessa área, tem dois anos que não sai de casa para nada. Meus filhos a mesma coisa, tomam remédio para depressão, um deles perdeu a fala na época do rompimento, e eu também fiquei depressiva, então mudou tudo”.
Relato de Josiana de Souza Resende
Josiana de Souza Resende perdeu a irmã e o cunhado, que deixaram filhos gêmeos de 10 meses à época do rompimento. Técnica de enfermagem do trabalho na própria Vale, ela disse que estava de folga no dia de um treinamento de segurança, em outubro de 2018, e que depois não foi chamada para refazer.
Para Josiana, o treinamento ocorreu após boatos de vazamento que já circulavam entre funcionários em 2018. Ela afirmou que a Vale não procurou a família no início e relatou frustração com a imagem de segurança que tinha da empresa. “Na Vale sempre faziam visita pra você saber onde seu familiar trabalhava, então a gente sempre acreditava que era seguro. Quando aconteceu, passamos por um processo de descredibilização, porque não era bem aquilo”, afirmou. “O impacto [da tragédia] foi muito grande. A vida de quem ficou muda totalmente, não tem aquela pessoa mais, o convívio familiar, não vai criar os filhos. Problemas emocionais, todo esse impacto atingiu a família toda, e a gente se desdobrou, em meio a todo sofrimento, para encontrá-la e proteger os meninos”.
Ela contou que a família acompanhava semanalmente as buscas realizadas pelos bombeiros. “A gente não aceitava o fato de ela ainda estar ali, a gente ia lá, às vezes mais de uma vez por semana, e se pudesse ficava lá o dia todo e acabava com as mãos da gente para encontrá-la”.
Avaliação da acusação e da Avabrum
O advogado Danilo Chammas, que representa a Avabrum, avaliou o início das audiências como “mais um avanço muito importante”. “Sempre são 76 dias de audiência, nós vamos vencendo um por um”, afirmou. Segundo ele, a principal preocupação é que “esse processo caminhe, flua regularmente, sem percalços, sem tumulto por parte das defesas”.
Sobre a postura mais ativa dos advogados de defesa neste segundo dia, declarou: “Eles têm a estratégia deles, o interesse de, obviamente, livrar a responsabilidade dos seus clientes”, disse. E completou. “Todos têm direito à defesa, a contratar advogado, a fazer perguntas. Isso é normal, é parte do processo”.
Vice-presidente da Avabrum e mãe de uma das vítimas, Maria Regina da Silva disse que acompanhar os depoimentos é reviver a dor. “É muito difícil, porque eu sou vice-presidente da Avabrum, mas eu também sou familiar”.
Segundo ela, ouvir os relatos é “como se a gente estivesse revivendo aquele momento que foi o mais difícil das nossas vidas, volta tudo à memória”. Ainda assim, defendeu a continuidade da apuração: “É necessário que se fale, é necessário que se escute para que construa todas as provas para que essas pessoas que tiveram culpa sejam responsabilizadas”.
A fase de instrução segue com os depoimentos na próxima segunda-feira (02).