Eduardo Costa | É tempo de Quaresma

Período do ano litúrgico que antecede a Páscoa cristã é celebrado pelas igrejas Católica, Ortodoxa, Anglicana e Luterana, por exemplo

A Quaresma antecende a Páscoa

Como as coisas mudam! Eu menino, em Inácia de Carvalho, sabia que os quarenta dias pós-Carnaval deviam ser vividos de forma mais contida. Sem gritaria, sem música alta... Brigar com os irmãos nem pensar! Minha mãe levava a tradição católica muito a sério. Na Quinta-feira Santa, à noite, todos devíamos acompanhá-la na vigília. Ficava na igreja até meia-noite.

No dia seguinte, silêncio em casa, jejum até a hora do almoço quando teríamos bacalhau, quiabo e abóbora moranga. Era um dia especial, também, porque o único do ano em
que meu pai não trabalhava.

Na Sexta-feira da Paixão os fazendeiros doavam o leite para empregados e vizinhos. E o carreteiro podia levantar um pouco mais tarde e almoçar com os filhos na hora certa.

As coisas mudaram, já não há tanto rigor, mas, a Quaresma chegou.

É o período do ano litúrgico que antecede a Páscoa cristã, sendo celebrado por algumas igrejas como a Católica, a Ortodoxa, a Anglicana, a Luterana e algumas denominações Presbiterianas e Reformadas.

A expressão Quaresma é originária do latim, quadragesima dies. De acordo com a tradição, é um período de medo e o ápice se dá na Sexta-Feira Santa, o dia da crucificação. Alguns interditos - que já foram seguidos com mais rigor.

Ninguém devia dançar, namorar ou até rir, pois seria tripudiar do sofrimento de Jesus. Não podia cortar cabelo, pregar algo (porque remete aos pregos da cruz) e até tomar banho. A visão do próprio corpo nu poderia fazer a pessoa pecar em pensamento.

Não varrer a casa, não lavar os cabelos, não abrir a porta e nem se divertir: A vela ideal era o Círio - grande e grossa, que se acende todos os anos pela primeira vez, no Sábado da Vigília pascal.

O círio pascal representa a luz de Cristo, pois o próprio Jesus disse: “Eu sou a luz do mundo”. Nossas mães ensinavam que a roupa deveria também ser especial, segundo ensinamentos cristãos, não é um estilo fixo, mas sim refletir modéstia, decência e um coração transformado por Cristo, priorizando a beleza interior e santidade sobre excessos externos, usando roupas que honrem o corpo como templo do Espírito Santo e não causem tropeço ou atraiam atenção indevida.

A modéstia e o bom senso devem guiar as escolhas, focando em demonstrar Cristo, não a si mesmo, com roupas que não sejam curtas, justas ou sensuais, mas que transmitam pureza e reverência.

Três pilares

• Oração: é o diálogo com Deus, buscando uma comunhão mais íntima e colocando-se
aberto à Sua vontade, usando o tempo para reflexão e escuta da Palavra.

• Jejum: é a prática de autodisciplina e sacrifício corporal (abstinência de algo, como
comida ou hábitos), mostrando que a alma é superior aos desejos do corpo e que Deus
é o verdadeiro alimento, não os prazeres do mundo.

• Caridade (esmola): são os gestos concretos de amor ao próximo, doando tempo,
dinheiro ou recursos, colocando a fé em ação e rompendo com o egoísmo para servir
aos outro.

Mesmo depois de casado, recebia ligação da minha mãe na Quarta-feira de Cinzas, ainda pela manhã, lembrando a importância de não comer carne vermelha e aves naquele e nas sextas-feiras da Quaresma, especialmente na Sexta-feira Santa.

Essa prática de jejum e penitência é um gesto simbólico de renúncia, sendo o peixe uma alternativa permitida. Não é pecado comer carne, mas sim um sacrifício. Aliás, na visão dos católicos, do jeito que aprendi com minha mãe, Quaresma não é um tempo de castigos e proibições, mas, ideal para demonstrar o verdadeiro amor através de um processo de maturidade humana e espiritual.

Movidos pelo desejo de santidade, fazemos uma lista de propósitos para alcançarmos essa meta e o tempo da Quaresma é propício para nossa conversão.

A lista inclui:

1. Telefonar mais para os seus pais/amigos e dedicar tempo a eles;
2. Dar carona para alguém/desviar a sua rota;
3. Olhar menos para o celular quando estiver com as pessoas;
4. Não comprar roupas sem necessidade;
5. Separar o lixo para reciclar;
6. Falar menos, ouvir mais;
7. Tomar café sem açúcar;
8. Fazer uma oração pelos outros todas as manhãs e todas as noites (criar uma
lista de intercessão);
9. Comer menos carne (ao menos que você tenha problemas de saúde que
exijam o consumo);
10. Dirigir com mais responsabilidade e educação (não xingar);
11. Atravessar a rua sempre na faixa de pedestres;
12. Não murmurar por nada;
13. Evangelizar uma pessoa por dia;
14. Visitar um doente por semana no hospital;
15. Visitar uma pessoa sem esperança todos os finais de semana (propor uma
programação diferente);
16. Pedir perdão a alguém que ferimos há muito tempo;
17. Falar cada dia com uma pessoa com quem não costumamos conversar;
18. Não ouvir música no carro (no ônibus, na moto, na bicicleta…);
19. Despojar de alguma coisa importante pra você em vista dos pobres;
20. Não comer bombons (chicletes, pastilhas, balas em geral…);
21. Dar esmola;
22. Visitar a sogra, a família do marido ou do namorado e ouvi-los com atenção
(é sério!);
23. Economizar água;
24. Retirar o consumo de álcool;
25. Ver um bom filme com os filhos ou com os pais;
26. Retirar sobremesas;
27. Elogiar o cônjuge todos os dias;
28. Fazer uma revisão de vida todas as noites, anotar as próprias faltas e pedir
perdão por elas;
29. Lavar a louça todos os dias;
30. Dar uma geral naquele armário esquecido (você sabe qual é…);
31. Não jogar (Xbox, baralho…);
32. Não assistir ou assistir menos TV;
33. Não assistir séries;
34. Ir à missa diariamente;
35. Rezar o terço diariamente;
36. Fazer confissão semanal;
37. Levar alguém para a confissão;
38. Ler o livro de um santo;
39. Convidar um amigo afastado da Igreja para uma missa ou para um grupo de oração e vivê-lo com ele;
40. Fazer o seu trabalho e um pouco mais (dentro dos seus limites).

Finalmente, o pedido do papa Leão XIV para que cada um de nós, nesta Quaresma, não esqueçamos de"Escutar e jejuar, porque a Quaresma como tempo de conversão”.

O pontífice convida os fiéis a um “jejum que também passe pela língua, para que diminuam as palavras ofensivas e aumente o espaço dado à voz do outro”.

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Antes de trabalhar no rádio, Eduardo Costa foi ascensorista e office-boy de hotel, contínuo, escriturário, caixa-executivo e procurador de banco. Formado em Jornalismo pelo UNI-BH, é pós-graduado em Valores Humanos pela Fundação Getúlio Vargas, possui o MBA Executivo na Ohio University, e é mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Agora ele também está na grande rede!

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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