Clarissa Nepomuceno | Quem você deixa desfilar depois do Carnaval?

Que esses últimos dias de Carnaval passem e que as lembranças sejam felizes. Mas que a coragem de se escolher fique

Marina Sena reuniu milhares de foliões no entorno do Mineirão, na Pampulha, em BH

O Carnaval é o único momento do ano em que a sociedade concorda, ainda que por poucos dias, que o excesso é permitido. Pode brilhar. Pode dançar. Pode rir alto. Pode ocupar a rua. Pode desejar. Pode se divertir. Sem pressa. Sem culpa.

A fantasia muda. O comportamento, nem sempre.

As mulheres, socialmente responsáveis pelo cuidado, geralmente sentem culpa em se divertir. Em ter um hobby. Prova disso é que uma pesquisa [1] da Australian National University, que colabora com estudos focados na desigualdade de gênero, concluiu que o pouco tempo de lazer das mulheres é mais interrompido e combinado com outras tarefas. Isso revela que não temos tempo. E que não fomos criadas para procurar a felicidade – principalmente dentro da gente.

Nós, brasileiras, nos acostumamos a entregar a felicidade no outro: num casamento feliz, nos filhos, no desempenho no trabalho, em agradar para que os outros se sintam bem para que possamos nos sentirmos úteis. Estamos sempre disponíveis, resolvendo, sustentando, entregando. E, nisso, nos esquecemos dos nossos desejos individuais, de buscarmos aquilo que nos faz feliz por nós mesmas.

Aprendemos cedo demais que faz algo por si exige justificativa. E, nisso, negociamos o descanso. Autorizamos o prazer em doses controladas. Nos permitimos brincar, desde que não incomodemos. Dançamos, mas com incômodo.

No Carnaval – essa festa que tem por característica a inversão das regras – talvez a melhor subversão não seja o excesso, nem a fantasia. E sim, a escolha.

Escolher não explicar, não ser pilar, nem base, nem suporte. Escolher ser inteira, vontade, presença.

A nossa cultura ensinou que o valor da mulher está na manutenção: da família, da relação, do clima emocional, da harmonia, do lar. E, quando tudo gira em torno de manter, pouco tempo sobra para viver. Por isso, para muitas mulheres, fazer algo por si não é lazer, é culpa.

E o Carnaval expõe essa contradição. Se tudo hoje é permitido, por que você ainda se censura?

O avanço – na vida ou na carreira - muitas vezes depende de assumir riscos e defender a própria posição – traços que as mulheres são desestimuladas a mostrar, como expõe Sheryl Sandberg [2]. E, para lidarmos com o caminho de longo prazo, precisamos abandonar os nossos ideais elevados e fazer escolhas deliberadas e estabelecer limites, entendendo que podemos (e devemos) tirar um tempo para nós mesmas.

Por isso, talvez o verdadeiro convite não seja sair de purpurina, mas sair do automático. É se reconhecer. Reconhecer que você não precisa esperar o próximo feriado, o próximo ciclo, o próximo “quando der”. E reconhecer que não precisamos ser inteiras para os outros e fragmentadas para nós mesmas.

Talvez o convite da semana seja para tirar essa fantasia do corpo. Que a herança do Carnaval seja nos permitir fazermos algo por nós mesmas.

Porque depois que a quarta-feira chega, o mundo volta a exigir silêncio, controle e responsabilidade. E a pergunta que fica não é sobre o bloco que você foi, mas sobre quanto de você mesma ainda consegue levar para o resto do ano. E para o dia a dia.

Desejo que esses últimos dias de Carnaval passem e que as lembranças sejam felizes. Mas que a coragem de se escolher fique.

Bom Carnaval!

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[1] DINH, Huoung; STRAZDINS, Lyndall e WELSH, Jennifer. “Hour-Glass Ceilings: Work-Hour Thresholds, Gendered Health Inequities”, Social Science & Medicine. 2017. Disponível em < https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28129546/#:~:text=Affiliations,on%20and%20off%20the%20job.>.

[2] SANDBERG, Sheryl. Faça acontecer: mulheres, trabalho e a vontade de liderar. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

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Clarissa Nepomuceno é advogada e sócia do escritório Nepomuceno Soares Advogados. Palestrante e professora universitária, defende que a independência financeira e a construção da carreira são fundamentais na ruptura dos ciclos de violência e para o alcance do ODS 5 – Equidade de Gênero.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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