A gente não está vivendo apenas uma fase “corrida”. A verdade é que a gente normalizou uma cultura que romantiza a exaustão como se fosse mérito.
Depois de uma pausa no recesso de final de ano, voltei com uma inquietação difícil de ignorar: quantas mulheres estão chamando de alta performance aquilo que, na verdade, é só sobrevivência em modo acelerado?
Porque a busca pelo “dar conta de tudo”, quando acontece sem estratégia, sem limites e sem sustentação emocional, cobra caro. E cobra silenciosamente.
A conta quase nunca chega como um colapso cinematográfico. Ela vem mais disfarçada: em irritação constante, insônia, ansiedade, apatia, cansaço que não passa. E uma sensação de que o dia termina, mas você não desligou por dentro.
Byung-Chul Han, no livro “Sociedade do Cansaço”, descreve uma mudança importante: saímos de uma sociedade de disciplina, baseada em vigilância contínua e proibições (“você não pode”), para uma sociedade de desempenho, baseada em estímulos (“você consegue”, “você pode”, “seja melhor”).
Parece positivo, né?
O que era escolha vira medo de ficar para trás. E o que era crescimento vira ciclo interminável de exigência. Quando o “você pode” vira obrigação (“você deve”, “você está ficando para trás”), a liberdade vira pressão. E a pressão constante vira esgotamento.
E isso não acontece apenas no mercado de trabalho. Para mulheres, a lógica da performance invadiu tudo: o corpo, a maternidade, os relacionamentos, a aparência, a casa, as finanças, o autocuidado. E o mais assustador é que, na maioria das vezes, essa cobrança vem de dentro.
A grande virada de chave é entender a armadilha para poder se desviar dela: não se trata de falta de força, mas de falta de limites. Não é falta de disciplina, é excesso de demanda. O problema não é “estar aguentando”, mas aguentar tudo tempo demais, por excesso de peso interno.
Talvez um dos maiores atos de protagonismo nos dias de hoje é reaprender a diferenciar produtividade de vida.
Alta performance não é viver sob esgotamento. É estabelecer limites para sustentar resultado sem se perder no processo, pois nenhuma conquista vale a versão de si que desaparece no caminho.
O mundo precisa de mulheres inteiras. E a reflexão não é trazer a ilusão perigosa da virada de ano pela promessa de que “agora vai”. Talvez a virada necessária seja fazer diferente.
A virada do ano pode ser um convite para não criar uma lista de metas que vão virar outra fonte de cobranças, mas para fazer uma revisão honesta: “o que está pesado demais para continuar do mesmo jeito?”.
É preciso entender que leveza não é ausência de responsabilidade. E que está tudo bem não dar tudo de si 100% todos os dias. A vida real não é perfeita, nem linear, nem sempre produtiva - e tudo bem. O que não pode ser normal é viver em alerta constante, como se você precisasse se provar o tempo todo.
Leveza é responsabilidade com inteligência emocional. É trocar a lógica do desempenho e das metas pela lógica da sustentação.
Existem três movimentos simples e muito poderosos: 1) redefinir o que é produtividade, pois se sentir destruída ao final do dia não é alta performance, mas exaustão maquiada de desempenho; 2) tirar a mulher do modo “central de comando”, pois não somos um sistema operacional ambulante: podemos delegar, negociar, simplificar e pedir apoio. Isso é maturidade; e, por fim, 3) criar limites que protegem energia, pois a vida muda quando se tem mais critério.
Para 2026, o meu desejo é que você não seja a mulher que dá conta de tudo, mas a mulher que não se abandona e que sustenta não uma versão ideal, mas a melhor versão possível de si.
E que fique claro: escolher leveza não significa abandonar metas, perder ambição ou diminuir o passo. Significa só uma coisa: parar de confundir sucesso com esgotamento.
Metas continuam importantes. Sonhos também. Crescimento também. Mas uma vida bem-sucedida não pode exigir, como pagamento, a sua saúde mental.
A virada do ano pode ser um recomeço diferente: não a promessa de fazer mais, e sim a coragem de fazer melhor. Com mais consciência. Com mais verdade.
Desejo que você vá na direção das suas metas e sonhos com consistência, sem carregar o mundo nas costas, em uma rotina que caiba dentro da sua humanidade.
Esses são os meus votos. Feliz Ano Novo! Feliz Eu Novo!