Enéias Xavier | A última dança

A você, caro leitor, que me acompanhou nesta jornada, resta-me o agradecimento sincero. Em tempos de dispersão e imagens autoexplicativas, ser lido é um privilégio

Em tempos de dispersão e imagens autoexplicativas, ser lido é um privilégio

Pablo Neruda, Prêmio Nobel de Literatura de 1971, recém-saído do exílio, ao conhecer os rios gelados da Rússia, escreveu em “Confesso que Vivi” que o ofício do escritor tem muito em comum com o dos pescadores árticos:

“O escritor tem que buscar o rio e, se o encontra gelado, precisa perfurar o gelo. Deve esbanjar paciência, suportar a temperatura e críticas adversas, desafiar o ridículo, buscar a corrente profunda, lançar o anzol justo e, depois de tanto trabalho, tirar um peixinho mínimo. Porém deve voltar a pescar, contra o frio, contra o gelo, contra a água, contra o crítico, até recolher cada vez uma pescaria maior.”

Durante mais de dois anos, este rio esteve aqui, quinzenalmente. A professora Else Martins foi quem primeiro me encorajou a lançar o anzol, quando ainda tudo parecia gelo duro, de difícil, senão quase impossível, perfuração. Ela, acreditando no pescador, deu-me linha, por meio de incentivo, ponderações e críticas, dando-me ritmo para sustentar esta jornada. Assim fui navegando. Ora com correntes mansas, ora caudalosas. A disciplina simples, silenciosa, de escrever para você, caro leitor, foi, por si só, um gesto contra o gelo. Insistir em perfurá-lo, sem saber o que encontrar, foi um feliz desafio.

Houve dias em que não encontrei sequer um peixe, uma palavra ou uma ideia; tudo era escasso. Ainda assim, era preciso persistir. Na calmaria da escrita, um peixinho mínimo já era sinal de conquista. Em outras ocasiões, era o oposto: o excesso era o desafio. Palavras sobravam, ideias se misturavam e o trabalho consistia mais em podar o excesso de palavras e ideias. E assim, entre vazios, excessos e dúvidas, segui o curso do rio. Agora, sinto que cheguei à foz e é hora de guardar o anzol, não sem antes publicar a última dança. Sim, dança, pois expor ideias é, de alguma forma, mostrar-se às escâncaras, ao livre escrutínio, tal qual um dançarino, o que exige, além de ritmo, certa dose de ousadia, de “sem-vergonhice”. Mas toda dança é também um movimento de mostrar-se e preservar-se. Talvez por isso a pintura de René Magritte, um de meus pintores favoritos, me acompanha neste encerramento.

O artista surrealista belga afirmava que tudo o que vemos esconde outra coisa. Em um de seus quadros mais conhecidos, “O Filho do Homem” (1964), há um sujeito, talvez autorretratado, de terno escuro e chapéu, em pé diante de um muro baixo, com o mar e um céu nublado ao fundo. O rosto está quase inteiramente encoberto por uma maçã verde que paira diante de sua face. Seus olhos, contudo, são visíveis espreitando por cima da borda da maçã e, consequentemente, conseguimos entrever seus traços. Trata-se, assim, de uma visão parcial do homem, o que, segundo o próprio artista, acontece constantemente no nosso cotidiano:

“Tudo o que vemos esconde outra coisa; sempre queremos ver o que está oculto pelo que vemos. Há um interesse naquilo que está oculto e que o visível não nos mostra. Esse interesse pode assumir a forma de um sentimento bastante intenso, uma espécie de conflito, por assim dizer, entre o invisível que está oculto e o visível que está presente.”

Repare o leitor que Magritte pinta um homem comum, misterioso como todos nós e, em certa medida, inacessível por inteiro até para si mesmo. O próprio título da obra reforça esse enigma e nos faz questionar: quem somos sob a superfície?

É possível compreender esta pintura como um autorretrato de toda a condição humana, na qual muitas vezes desejamos nos revelar, mas jamais o fazemos por inteiro, nem mesmo a nós próprios. A maçã, assim como o gelo, impede a revelação plena do rosto, mas deixa entrever o olhar; ou seja, com esforço, podemos afastar aquilo que nos encobre e expor fragmentos de nossa face mais autêntica. Na escrita destes dois anos, procurei algo semelhante: revelar e desvelar ideias, pensamentos e até inquietações mais íntimas, esforçando-me por afastar a maçã, isto é, aquilo que escondemos por trás dos nossos papéis, convenções sociais e expectativas alheias, a fim de expor uma face mais verdadeira. Isso, com a dificuldade adicional do mundo jurídico, onde não raras vezes as convenções recobrem realidades complexas sob uma fachada comum.

E é ainda na obra de Magritte que a fruta que encobre o rosto remete ao Gênesis, ao fruto da árvore do conhecimento, ao nosso desejo incessante de saber. Foram pequenos saberes, colhidos nos livros lidos ao longo da vida, que procurei partilhar nestas páginas. Sempre ciente, contudo, de que o mar representado no quadro aponta para o infinito, ou seja, para a nossa limitação diante do conhecimento e, por que não, do mistério que insiste em nos rodear desde que nascemos.

Claro que todo processo de escrita é condicionado pela janela de nossa própria vida, onde observamos o mundo exterior a distância. Essa intuição também é revelada em outra obra de Magritte, “A Condição Humana” (1933). Nela, numa sala, há uma janela aberta para a paisagem e, diante dela, um cavalete com uma tela, que reproduz exatamente o cenário que deveria ser visto pela sacada. Numa olhadela rápida, não vemos diferença entre pintura (mundo interior) e realidade (mundo exterior). Entretanto, ao olhar criteriosamente, percebemos os contrastes, numa inquietante sutileza que nos revela que jamais vemos o mundo diretamente. Nossa percepção é sempre frágil, mediada por nossas histórias, preconceitos e experiências. Consciente de que produzia apenas minha própria visão do mundo e não o real, fiz desta coluna a minha própria tela, com todas as fragilidades que lhe são inerentes. Numa singela confissão, talvez essa tenha sido a forma que encontrei para pelo menos tocar a realidade, ainda que parcialmente, retratando um pouco da imagem que construí dela.

A você, caro leitor, que me acompanhou nesta jornada, resta-me o agradecimento sincero. Em tempos de dispersão e imagens autoexplicativas, ser lido é um privilégio. Se na obra de Magritte há um cortinado vermelho que sugere o palco, nesta caminhada, você esteve dentro da cena, partilhando comigo dúvidas, inquietações e as inevitáveis inconsistências e incoerências que nos tornam humanos.

Na minha primeira coluna, recorri às advertências de Machado de Assis - ele não poderia faltar nesta última. Hoje, ao baixar lentamente o pano desta última dança, volto ao Bruxo: venha de onde vier o reproche, espero que dele nasça também alguma absolvição. Como ele foi minha bengala durante todo o percurso, sirvo-me dele novamente: “A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.” E com ele baixo o pano.

Em tempo: agradeço à Radio Itatiaia pela cessão do espaço, em especial ao jornalista João Vitor Xavier. “Tudo no mundo começou com um sim”, disse Clarice Lispector em “A Hora da Estrela”.

Links para acessar os dois quadros de Rene Magritte: renemagritte.org/the-son-of-man.jsp; renemagritte.org/the-human-condition.jsp

Ops. O “Ops” foi o meio encontrado para acolher ideias soltas, que muitas vezes não se relacionavam diretamente ao texto. A ele agradeço por me permitir certas ironias que, sob o manto da brincadeira, escondiam alguma “cutucada”, algum chamado. Confesso que, para este aprendiz, foi o mais divertido da produção. Hoje, nele, deixo meu último recado:

Ops (final). No capítulo 126 de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, quando Damasceno lamenta que poucos tenham comparecido ao enterro da filha, Cotrim consola-o dizendo que vieram apenas os que verdadeiramente se interessavam. Os outros, se presentes, falariam apenas de trivialidades. Damasceno ouviu calado, abanou a cabeça e suspirou:

— Mas viessem!

Provavelmente estes escritos ganharão corpo de livro. Se assim acontecer, voltarei a este espaço para convidá-los. E, com esperança, repetirei o desejo sincero de Damasceno:

Ainda que por trivialidade, venham...

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Doutor e Mestre em Direito Penal pela UFMG e Desembargador no TJMG. Escreve aqui sobre Literatura, Arte e Direito.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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