Clarissa Nepomuceno | ‘All Her Fault': carreira e maternidade, culpa feminina e sobrecarga emocional

Mulheres conquistaram o mercado de trabalho, mas os homens ainda não ingressaram plenamente no universo do cuidado que deve ser dividido como ‘ajuda’

Personagens da série ‘All Her Fault’

A minissérie “All Her Fault” (É tudo culpa dela) consolidou-se como um dos maiores fenômenos do streaming no início de 2026, ao narrar o sequestro de uma criança, Milo Irvine. À primeira vista, trata-se de um thriller psicológico clássico, marcado por segredos familiares, suspeitas cruzadas e versões conflitantes, mostrando que nada é exatamente o que parece. Num segundo olhar, mais atento e político, a série revela um retrato incômodo e perturbador sobre como a culpa feminina é construída, ampliada e socialmente exigida.

A trama se inicia a partir de uma situação cotidiana: Marissa Irvine (Sarah Snook), profissional bem-sucedida, recebe uma mensagem de Jenny (Dakota Fanning), mãe de um colega de seu filho, pedindo para buscá-lo na escola para passarem a tarde juntos. Uma decisão prática, que poderia acontecer com qualquer adulto responsável. No entanto, com o desaparecimento da criança, rapidamente a narrativa se desloca para uma pergunta silenciosa e cruel: “Onde ela falhou?”.

Não se investiga primeiro o contexto, o sistema de proteção, as falhas coletivas ou institucionais. A busca inicial é por um erro moral individual – como tantas vezes acontece na vida real, eis que mulheres são constantemente colocadas no papel de gestoras emocionais do mundo. São elas que devem prever riscos, antecipar consequências, sustentar afetos e evitar rupturas. Quando algo foge ao controle, a falha deixa de ser circunstancial e passa a ser interpretada como defeito de caráter.

Em “All Her Fault”, isso se desenha com uma precisão desconfortável: Marissa e Jenny enfrentam não apenas o mistério externo do desaparecimento, mas também um tribunal invisível composto por vizinhos, instituições, relações próximas. E, sobretudo, pelo julgamento interno, construído ao longo de uma vida de expectativas sociais. Ambas carregam a culpa típica de mulheres que ousam conciliar carreiras e maternidade, como se essa escolha, por si só, fosse uma negligência.

Nesse contexto, a narrativa deixa de ser apenas sobre o que aconteceu, e passa a ser sobre como o quanto se exige das mulheres antes mesmo se saber a verdade, especialmente quando não se dedicam exclusivamente à maternidade. Em paralelo, a série expõe os dilemas de Jenny em seu casamento. Sem babá, ela precisa conciliar os cuidados do pequeno Jacob com um momento decisivo em sua trajetória profissional, marcado por uma promoção há muito esperada.

Em um diálogo emblemático, Jenny confronta o marido sobre o desconforto dele em dividir os cuidados da criança para que ela possa avançar na carreira. Ele afirma sentir falta de “tempo para si”, de preservar a sua individualidade. Jenny, então, verbaliza algo conhecimento por tantas mulheres: ela também sente falta de si mesma, mas, ao contrário dele, seu tempo livre nunca é inteiramente seu. Ele é fragmentado entre trabalho, casa, maternidade e compromissos familiares.

Assim, a série constata o óbvio – e o faz com uma honestidade incômoda: as mulheres conquistaram o direito de estar no mercado de trabalho e de desenvolverem as suas carreiras, mas os homens, como grupo social, ainda não ingressaram plenamente no universo do cuidado, denominando a responsabilidade, que deve ser dividida, como “ajuda”. O resultado é uma equação desigual: dupla jornada, sobrecarga emocional e culpa permanente.

Esse debate dialoga diretamente com um tema amplamente discutido no Reino Unido, especialmente a partir instituição recente das políticas de igualdade de gênero e da educação em direitos das mulheres. Desde cedo, o sistema educacional britânico inclui conteúdos sobre igualdade, corresponsabilidade parental e direitos reprodutivos e laborais, reforçando que a maternidade não pode ser um fator de punição social ou profissional. Ainda assim, a prática cotidiana revela que a cultura da culpa materna persiste - inclusive em países com legislações avançadas.

É nesse contexto que ganha relevância o conceito de “Career and Family, que concedeu o prêmio Nobel à Claudia Goldin, amplamente debatido no ambiente acadêmico e corporativo europeu. A ideia central é simples, mas transformadora: carreira e família não devem ser vividas como esferas em conflito, especialmente para as mulheres. O problema não está na escolha feminina de trabalhar, mas na ausência de estruturas, institucionais, culturais e afetivas, que redistribuam o cuidado.

A solução, portanto, não passa por exigir que as mulheres “administrem melhor o tempo” ou “façam escolhas mais conscientes”, discurso frequentemente utilizado para individualizar um problema estrutural. O caminho está em: educação em igualdade desde a infância, políticas públicas eficazes, ambientes de trabalho que não penalizem a maternidade, nem romantizem a exaustão; e, sobretudo, na desconstrução da culpa feminina como narrativa automática.

Talvez o sucesso de “All Her Fault” se deva a isso: ao revelar que o verdadeiro suspense não está apenas no desaparecimento de uma criança, mas no peso desproporcional que recai sobre as mulheres quando algo sai do script social esperado, a trama traz um dos debates mais desafiadores do nosso tempo.

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Clarissa Nepomuceno é advogada e sócia do escritório Nepomuceno Soares Advogados. Palestrante e professora universitária, defende que a independência financeira e a construção da carreira são fundamentais na ruptura dos ciclos de violência e para o alcance do ODS 5 – Equidade de Gênero.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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