Enéias Xavier| Dostoiévski no século XXI: a angústia da liberdade e a tutela da robotização

Uma das perspectivas do homem do subsolo é a nossa permanente ânsia por tutela

‘Memórias do Subsolo’, de Fiódor Dostoiévski

Caro leitor,

Iniciei 2026 com uma leitura extremamente arrebatadora: “Memórias do Subsolo” (1864), de Fiódor Dostoiévski. Terminada a travessia, compreendi por que muitos tratam a novela como “uma prefiguração das ideias de Freud acerca do inconsciente” e as razões que levaram filósofos como Nietzsche a exaltá-la tanto. A novela, cujo título nos remete aos nossos labirintos interiores – ou seja, ao nosso inconsciente –, escrita quando a primeira esposa do autor, atacada por tuberculose, estava em seus momentos derradeiros, trata dos nossos conflitos morais, sociais e psicológicos: “Existem nas recordações de todo homem coisas que ele só revela aos seus amigos. Há outras que não revela mesmo aos amigos, mas apenas a si próprio, e assim mesmo em segredo. Mas também há, finalmente, coisas que o homem tem medo de desvendar até a si próprio...”.

Entretanto, como anunciei um ano mais leve – uma daquelas promessas típicas das primeiras celebrações deste breve e já tão intenso ciclo –, propus-me a partilhar nesta coluna ideias mais amenas. Confesso, porém, que talvez tenha falhado. Resta, portanto, aguardar o veredito do leitor.

Uma das perspectivas do homem do subsolo é a nossa permanente ânsia por tutela. A liberdade, ao contrário do que costumamos crer, é um fardo, pois exige decisão, responsabilidade, ou seja, escolhas que nos angustiam. Já quando alguém decide por nós, há alívio: “Experimentai, por exemplo, dar-nos mais independência, desamarrai a qualquer de nós as mãos, alargai o nosso círculo de atividade, enfraquecei a tutela e nós... eu vos asseguro, no mesmo instante pediremos que se estenda novamente sobre nós a tutela”.

Sob essa ótica, a “vida viva”, realmente livre, é quase intolerável, pois nos deixa sozinhos e confusos, sem saber a quem ou a que aderir ou nos ater, “o que amar e o que odiar, o que respeitar e o que desprezar”. Logo, uma vida realmente autêntica, própria, é pesada, daí por que “consideramos tal fato um opróbrio e procuramos ser homens gerais que nunca existiram”. A vida espontânea, imprevisível, contraditória, nos dá medo; preferimos seguir modelos, num processo de robotização, como seres natimortos.

Se o autor russo percebeu essa fragilidade humana ainda no século XIX, imagina o que não veria hoje. Na nossa vida moderna, onde o processo de robotização é muito maior, não sabemos viver sem manuais; tudo é planejado, tutelado, monitorado. Essa ideia aparece no nosso cotidiano de várias formas: no Direito, seguimos a jurisprudência acriticamente, as decisões são transformadas em números e metas; na política, muitos líderes nos conduzem como gados; na leitura, reduzimos as ideias e a complexidade dá lugar à simplificação barata, aos textos curtos, de fácil leitura e assimilação. É nesse sentido que a “vida viva” de que tanto fala o anônimo narrador nos assusta cada vez mais. Preferimos ser controlados a todo momento por sistemas externos que nos dizem o que é certo, lógico, eficiente. Recebemos tudo pronto. Recentemente, o ator Matt Damon, em uma entrevista para o podcast “Joe Rogan Experience”, disse que, ao trabalhar com produções para a Netflix, houve uma preocupação em tornar as narrativas mais claras, óbvias, robotizadas, inclusive sugerindo a repetição do enredo nos diálogos para evitar a distração e facilitar a compreensão dos filmes.

Não se trata, porém, de um fenômeno exclusivo da linguagem cinematográfica. Essa mesma necessidade de robotização excessiva, de objetivação dos sentidos, atinge também a forma com que temos lidado com o nosso corpo, inclusive esse aprendiz que vos fala. Nosso organismo é medido, comparado, corrigido a todo instante. O sono, a respiração, os passos, tudo é esquadrinhado por gráficos rigorosamente padronizados e planejados. No esporte amador, essa engrenagem se expõe de forma visível. Estamos todos padronizados com nossos “paces” (esses nomes em inglês insistem em nos rodear). A corrida, que poderia ser um momento de prazer para desestressar, aliviar a pressão do dia a dia, nos conectar com a natureza e com nosso físico, tornou-se um exercício permanentemente vigiado. O relógio de pulso mede passos, ritmos, cadências. Ao fim de uma simples corrida de fim de semana, a primeira pergunta é “qual o pace?” e não “como nos sentimos?” No fim do ano, recebemos os quilômetros acumulados, os gráficos.

É óbvio que seria injusto condenar sem ressalvas essa presença tecnológica que, em muitas situações, é amparo (previne excessos e pode até salvar vidas). Entretanto, a escravização do monitoramento constante dos relógios muitas vezes faz com que o corpo deixe de ser vivido e passe a ser monitorado como uma máquina. Antes, confiávamos nos sussurros do nosso corpo, pois sabíamos que ele sinalizaria se estávamos cansados, com dores, etc. Agora, trocamos nossos sintomas por medidores luminosos que nos dizem se o que sentimos é válido ou não. O corpo passou a prestar contas, entregando-se à tutela das máquinas.

Além disso, transformamos o momento em metas; há sempre novos e permanentes números a serem batidos. A cada corrida, eis a comparação com a anterior e a lógica da superação contínua, pois já há um novo objetivo para a próxima. Já não corremos para sentir a vida, mas para bater metas, numa disputa com o aplicativo. E depois de superadas, imediatamente surgem novos alvos. Talvez por isso o narrador anônimo da novela diz que o homem ama “o edifício apenas à distância e nunca de perto; talvez ele goste apenas de criá-lo, e não viver nele”.

Há nisso uma lógica que precede o esporte, pois a vida nos educou para uma suposta competição permanente. Crescemos com a ideia de que estamos sempre em disputa com o outro, seja por espaço no trabalho, visibilidade nas relações ou até reconhecimento social. E quando não há o outro, estamos tão acostumados ao enfrentamento que inventamos a disputa conosco. Nessa ânsia de superação, perdemos justamente o que não se mede, ou seja, a experiência do viver, da liberdade. Aliás, a frase “está pago” diz muito, pois o que se paga é dívida ou obrigação.

Claro que isso não se limita à corrida. O futebol amador, que deveria ser um momento de confraternização entre amigos para ocupar uma manhã, logo se converte em tribunal. A cobrança é permanente; joga-se como se houvesse algo em jogo além do próprio jogo... A vitória, inexplicavelmente, importa mais do que o encontro. O mesmo se repete em esportes ainda mais despretensiosos, onde a necessária pausa do dia a dia transforma-se em uma continuidade de obrigações. No fundo, muitas vezes o momento que deveria ser de lazer, transforma-se em sofrimento, já que muitos não praticam mais esporte para sentir prazer, mas para suportar sofrimento. Corre-se cansado, joga-se tenso... Como indagou o narrador anônimo da novela, “não se enganará a razão quanto às vantagens? Talvez o homem não ame apenas a prosperidade? Talvez ele ame, na mesma proporção, o sofrimento? Talvez o sofrimento lhe seja exatamente tão vantajoso como a prosperidade? O homem, às vezes, ama terrivelmente o sofrimento, ama-o até a paixão, isto é um fato”.

É óbvio que Dostoiévski não tratou dessa perspectiva esportiva quando escreveu o livro, mas trouxe a ideia do homem como um animal criador por excelência que, muitas vezes, deseja o prejuízo e não a vantagem, “condenado a tender conscientemente para um objetivo e a ocupar-se da arte da engenharia, isto é, abrir para si mesmo um caminho, eterna e incessantemente, para onde quer que seja”, ainda que o prejudique. Ao fim e ao cabo, não é a tecnologia que nos condena, mas o que fazemos dela, quase que com um discreto gosto de transformar o leve em fardo e o prazer em obrigação. Eis o nosso paradoxo.

Ops1. Caro leitor, veja que abandonei completamente o Direito nesta coluna, pois ansiava, em vão, pelo seu veredito absolutório. Todavia, reconheço que há muitas indagações inquietantes na seara jurídica: quanto das decisões judiciais são condicionadas por métricas, rotinas Institucionais? Estamos automatizados, presos a fórmulas de eficiência? A exigência de produtividade reduziu o espaço da sensibilidade e da singularidade dos casos? Enfim, há nisso infinitos desdobramentos que tornariam o texto ainda mais pesado, mas como aprendi com o nosso escritor, “parece-nos que se pode fazer ponto final aqui mesmo”.

Ops2. “O Agente Secreto vem do Recife que tem um talento nato para a cultura, para a literatura, para o teatro, para a música e, claro, para o cinema. Ele é fruto de outros filmes que eu vi na vida. Ele é fruto de políticas públicas que são uma maneira de investir na identidade do nosso país”. Kleber Mendonça Filho - diretor aclamado por obras que, como “Retratos Fantasmas”, escancaram o lado sombrio da vida- recebeu amplo reconhecimento por seu trabalho – nada menos que quatro indicações ao Oscar. Há muito o que comemorar. E o que ver.

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Doutor e Mestre em Direito Penal pela UFMG e Desembargador no TJMG. Escreve aqui sobre Literatura, Arte e Direito.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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