Clarissa Nepomuceno | Sobre representação e protagonismo: o que Virginia Fonseca, Tatiana Sampaio e Bertha Luz têm em comum?

Todas são mulheres que lutaram pra crescer e deixar o seu legado

O que três mulheres brasileiras relevantes têm em comum?

Nas últimas semanas, o Brasil celebrou Tatiana Sampaio, professora de histologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que lidera as pesquisas sobre a polilaminina – substância que tem mostrado resultados promissores na recuperação de movimentos de pacientes tetraplégicos. Ao mesmo tempo em que idolatrávamos e nos orgulhávamos da cientista brasileira, as redes sociais retaliaram Virginia Fonseca, influenciadora digital e empresária, dona da We Pink, após uma publicação que a classificou como a “mulher mais midiaticamente relevante do Brasil”.

E, hoje, 24 de fevereiro, celebramos 94 anos da conquista feminina do direito ao voto no Brasil. Bertha Luz, ativista feminina, bióloga, educadora, diplomata e política brasileira, ficou conhecida como a maior líder na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras. Há quase um século, Bertha foi líder e resistência aos congressistas da época, que acreditavam que o pleito feminino era uma tentativa anárquica, pois acreditava-se que permitir que as mulheres participassem da luta política retirar-lhes-ia a delicadeza de afetos, desorganizando a família.

E o que elas três têm em comum? Todas são mulheres que lutaram pra crescer e deixar o seu legado.

Essas mulheres têm um ponto de convergência: todas elas enfrentaram resistência, persistiram, acumularam méritos e produziram conquistas reais. A contribuição de cada uma delas, ainda que em campos distintos e sob formas diferentes de julgamento público, não revela uma contradição entre elas, mas a dificuldade social de lidar com protagonismos femininos. No plural.

Virginia Fonseca é constantemente questionada por transformar visibilidade em poder econômico, como se o sucesso feminino no mercado precisasse, a todo momento, se justificar moralmente. Tatiana Sampaio, apesar de sua relevância científica e impacto social, atua em um ambiente historicamente hostil à presença feminina, onde mulheres ainda precisam provar excelência reiteradas vezes para serem legitimadas. Bertha Lutz enfrentou resistência explícita e institucionalizada, em um tempo em que o simples reconhecimento das mulheres como sujeitos políticos era visto como ameaça à ordem social.

Os contextos mudam, mas a lógica se repete: mulheres que ocupam espaço enfrentam desconfiança, desqualificação e tentativas de contenção. Ainda assim, cada uma, à sua maneira, ampliou fronteiras: no campo científico, econômico, midiático ou político.

Reconhecer os méritos de uma mulher não deveria relativizar conquistas, tampouco anular o mérito de outra. Ainda assim, é exatamente isso o que acontece com frequência da nossa sociedade. Quando uma mulher é celebrada, outra é colocada no banco dos réus, como se o espaço simbólico fosse limitado, como se só houvesse lugar para um único tipo “legítimo” de sucesso feminino.

A nossa sociedade precisa compreender que o protagonismo feminino é plural, e que a equidade de gênero só se concretiza quando somos capazes de reconhecer valor em trajetórias diversas, sem hierarquizá-las ou colocá-las em disputa. Celebrar uma mulher não diminui outra; ao contrário, reforça a ideia de que há muitos caminhos legítimos para o exercício do poder, da inteligência e da influência feminina.Parte superior do formulário

Virginia Fonseca, Tatiana Sampaio e Bertha luz tem campos de atuação distintos – empreendedorismo e comunicação digital; ciência e pesquisa acadêmica; política e direitos civis. Compará-las a partir de uma ótica de exclusão revela mais sobre o machismo estrutural internalizado do que sobre qualquer suposta hierarquia de valor entre elas.

Quando uma cientista é exaltada em oposição a uma influenciadora, não estamos fortalecendo a ciência, e sim, reforçando uma velha armadilha: a rivalidade feminina. As mulheres não precisam disputar legitimidade entre si. Criar rankings morais fragiliza a ideia de equidade de gênero.

O que precisamos é de sermos celebradas e fortalecidas, para que possamos ser diferentes sem sermos desqualificadas. Essas três mulheres são figuras que trazem continuidade para os avanços dos direitos femininos no nosso país.

O avanço de uma mulher não rouba o lugar da outra – amplia o horizonte de todas. Talvez o grande desafio nos nossos tempos seja aplaudir sem ressentimento, reconhecer sem diminuir e compreender que o protagonismo feminino não é um jogo de soma zero, nem exceção. É multiplicidade.

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Clarissa Nepomuceno é advogada e sócia do escritório Nepomuceno Soares Advogados. Palestrante e professora universitária, defende que a independência financeira e a construção da carreira são fundamentais na ruptura dos ciclos de violência e para o alcance do ODS 5 – Equidade de Gênero.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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