Enéias Xavier | Leitura: antídoto para tempos bicudos

Neste ano que mal começou, mas já se anuncia fértil em novidades e preocupações, o que desejo a você e a mim é muita leitura

‘The Bookworm’ - Carl Spitzweg (1808–1885)

“Hoje não é o primeiro dia do ano para os maias, os judeus, os árabes, os chineses e muitos outros habitantes deste mundo. A data foi inventada por Roma, a Roma imperial, e abençoada pela Roma vaticana; é, portanto, um exagero afirmar que a humanidade inteira celebra esse cruzar da fronteira dos anos.”

O escritor uruguaio Eduardo Galeano, no livro “Os Filhos dos Dias”, constrói uma espécie de calendário da história humana, em 366 narrativas – uma para cada dia do ano. A obra se inicia com a advertência acima, seguida do reconhecimento do tempo como algo amigável conosco, “seus passageiros fugazes”, pois “nos dá permissão para crer que hoje pode ser o primeiro dos dias, e para desejar que seja alegre como as cores de uma quitanda”.

A constatação do escritor soa como novidade para muitos de nós, ocidentais, acostumados às comemorações da passagem do ano no dia 31 de dezembro, quando recebemos, simbolicamente, um presente do acaso: viver mais um ano. Tal perspectiva foi descrita por Carlos Drummond de Andrade em uma publicação de 1945. O poeta mineiro, ao retratar o nosso desejo de “viver sempre e esgotar a borra dos séculos” – ainda que sabedores da fugacidade do tempo e da morte sempre iminente –, destaca as nossas comemorações pela passagem do ano, quase sempre de copo na mão à espera do amanhecer, acompanhados de dança e gritos, embora cientes de que nada disso “resolve” o cerne da questão. O poema de Drummond trata, na essência, da ilusão do recomeço e da aceitação trágica de estar vivo, “apesar de tudo”, já que a vida é “gorda, mortal, sub-reptícia”.

Ambos os textos, ao abordarem a passagem do ano, mostram a diversidade de perspectivas sobre o tempo, conforme a cultura de cada autor. Drummond, a partir de uma matriz europeia, demonstra um viés mais trágico. Já Galeano, enraizado nas tradições latinas dos povos originários, volta-se à diversidade e à celebração. Os dois partem de lugares distintos, evidenciando que somos feitos do que lemos e vivemos. Os textos descortinam a memória não como algo individual, mas como um acúmulo de vivências a partir de leituras, de mundos que nos atravessam e permanecem. É dessa tessitura, feita do que se viveu e se leu, que nasce a reflexão que partilho com o leitor nesta coluna que inaugura o calendário. Isso porque toda virada de ano traz consigo uma lista íntima de desejos, alguns confessáveis e outros nem tanto. A lista de desejos confessáveis é facilmente compartilhável. No meu caso, desejo que possamos viver 2026 permeados por leituras capazes de multiplicar a experiência humana, fazendo aquilo que só os livros são aptos: em uma única vida, viver várias, numa espécie de imortalidade para trás.

Em 1991, Umberto Eco publicou um texto para o jornal “La Nación” intitulado “Por que os livros prolongam a vida”. Ele começa lembrando o mal-estar que as novas tecnologias de registro da memória sempre produziram ao longo da história da humanidade, como na passagem do Fedro platônico, “no qual o faraó pergunta com preocupação ao deus Thoth, inventor da escrita, se esse diabólico dispositivo não fará com que o homem deixe de lembrar e, portanto, de pensar”. A mesma preocupação tiveram os homens que viram pela primeira vez a roda: — “Deviam ter pensado que não nos lembraríamos mais de caminhar”. Entretanto, a história demonstra que todas essas apreensões, como as que cercaram a roda, a escrita, o computador e a imprensa, mostraram-se excessivas. Ao longo do tempo, nada substituiu a escrita e a leitura; ao contrário, cada tecnologia conviveu com elas, sobretudo quando o entusiasmo pelas “novidades” se esgotou. O mesmo acontece hoje, quando há um certo alarme de que as redes sociais, com suas informações rasas, rápidas, fragmentadas, superficiais e, não raro, mentirosas, ocuparão o espaço da leitura. O argumento talvez superestime o poder do imediato, tal qual ocorreu em outros momentos históricos. Portanto, enquanto houver quem prefira compreender a apenas consumir, haverá espaço para a leitura, a qual verdadeiramente nos permite ampliar a capacidade de viver e prolonga a nossa vida.

É isso que Umberto Eco nos faz perceber. Ele nos lembra que, ainda antes da escrita, na época das cavernas, os velhos, talvez já não servindo para a caça, seriam descartáveis. Com a linguagem, contudo, converteram-se em livros vivos, responsáveis pela memória da espécie: “sentavam-se nas cavernas, ao redor do fogo, e contavam o que havia acontecido”. Assim, “um jovem de vinte anos era como se tivesse vivido cinco mil”, pois os fatos anteriores à sua existência constituíam a sua memória. Hoje em dia, os nossos “velhos” são os livros, a extensão da memória da espécie. Eles nos permitem viver não apenas a nossa vida, mas muitíssimas outras. Graças a eles, podemos viver “cinco mil anos”, pois trazem a experiência dos mitos, as histórias, os sofrimentos e a sabedoria, funcionando como “um seguro de vida, uma pequena antecipação da imortalidade”. É esse conhecimento também que nos permite discriminar, comparar os acontecimentos ao longo da história, julgar e até lutar para que novas injustiças não se repitam, e que o “novo”, muitas vezes, possa ser percebido apenas como o “velho” mascarado.

Tudo bem que a leitura exige paciência, esforço e lentidão, o que pressupõe parar, escutar e suportar a complexidade da vida, algo que o mundo moderno, da pressa e do consumismo, reluta em aceitar. Porém, é justamente esse exercício que nos permite, por exemplo, reconhecer que certas tragédias não são exceção, mas ciclos que, por vezes, se repetem.

Um exemplo contundente dessa percepção nos é dado por Bertolt Brecht. Em 1933, com a ascensão de Adolf Hitler e a instauração do nazismo na Alemanha, o então jovem escritor (1898-1956) viu-se obrigado a abandonar o país, asilando-se em várias cidades da Europa. Foi nesse período que produziu o poema “O Velho vem chegando”, uma denúncia profética da iminência da escravização dos povos sob o pretexto da libertação:

“Eu estava sobre uma colina e vi o Velho se aproximando, mas ele vinha como se fosse o Novo. /Ele se arrastava em novas muletas, que ninguém antes havia visto, e exalava novos odores de putrefação, que ninguém antes havia cheirado. (...) E em torno estavam aqueles que instilavam horror e gritavam: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! E quem escutava, ouvia apenas os seus gritos, mas quem olhava, via pessoas que não gritavam. / E o cortejo movia-se na noite, mas o que viram como a luz da aurora era a luz de fogos no céu. E o grito: Aí vem o Novo, tudo é novo, saúdem o Novo, sejam novos como nós! seria ainda audível, não tivesse o trovão das armas sobrepujado tudo.”

Neste ano que mal começou, mas já se anuncia fértil em novidades e preocupações, o que desejo a você e a mim é muita leitura. É ela que nos desacelera quando tudo exige pressa e nos torna menos vulneráveis ao vírus da desinformação, não contra as tragédias que se repetem, mas contra a ingenuidade com que às vezes as aceitamos ou até as incentivamos a se perpetuarem.

Bom 2026, caro leitor, com muita leitura para nos amparar nos momentos mais difíceis, sem jamais perder a esperança, mesmo quando tudo pareça caminhar no sentido oposto. Eduardo Galeano, na obra que inaugura esta coluna, lembra-nos dessa esperança necessária: sempre haverá quem dance e quem brinque, por mais difícil que esteja.

Ops. E, como um complemento a essa reflexão sobre a capacidade da arte de nutrir o pensamento, vale lembrar que a música de qualidade também cumpre um papel vizinho ao da leitura, atuando na formação do sensível e da reflexão, e não apenas no entretenimento imediato. Compartilho um trecho da importante canção “Sangue Latino”, lançada em 1973, em plena ditadura militar, pela banda Secos e Molhados:

“Jurei mentiras e sigo sozinho / Assumo os pecados / Os ventos do norte não movem moinhos / E o que me resta é só um gemido...”.

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Doutor e Mestre em Direito Penal pela UFMG e Desembargador no TJMG. Escreve aqui sobre Literatura, Arte e Direito.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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