As chuvas que assolaram a Zona da Mata mineira, em especial Juiz de Fora e Ubá, dominam o debate público desta semana e fazem com que todos os mineiros nos reconheçamos no sofrimento alheio. É bom que se diga, por mais que os níveis pluviométricos tenham sido atípicos: não se trata apenas de um episódio climático, mas de uma fratura social e política exposta: casas tomadas pela lama, rotinas interrompidas, famílias em desamparo. Até a publicação desta coluna, a tragédia contabilizava 68 mortes, sendo 62 em Juiz de Fora e 6 em Ubá, com buscas ainda em andamento por pessoas desaparecidas.
Tragédias desse tipo também revelam um rebaixamento da atividade política. Surge a tentação de transferir responsabilidades: o município cobra o Estado, o Estado devolve ao município, e a União aparece como um árbitro distante. Esse jogo é moralmente inaceitável quando há famílias sem casa, sem água, sem remédio e sem notícia. Agora é hora de coordenação, de cadeia de comando clara, de cooperação federativa madura e de execução sem vaidades e sem espetacularização. Cada nível de governo deve fazer o que lhe cabe, com urgência, sem disputa de palco e sem economia de esforço. É preciso trocar o reels pela gestão responsável e compartilhada.
É repudiável transformar a dor em instrumento de conveniência. Há uma diferença objetiva entre política e politicagem. Política é mobilizar instituições para proteger vidas, mitigar riscos, reconstruir o que foi destruído. Politicagem é usar a calamidade como moeda para atacar adversários, medir popularidade ou produzir vídeos para as redes. Nenhuma tragédia autoriza oportunismo. É lamentável ver isso acontecendo de maneira tão mesquinha diante desta tragédia que assola nosso estado.
Fundamental também neste momento é a reflexão sobre a (in)capacidade de investimentos do estado de Minas Gerais. O orçamento do governo estadual está severamente apertado, preservando despesas obrigatórias e comprimindo investimentos não obrigatórios. Os dados fiscais mostram um estado no limite da margem de manobra. O Relatório de Gestão Fiscal do último quadrimestre de 2025 apresenta uma disponibilidade líquida negativa em mais de R$ 11,3 bilhões em recursos não vinculados, isto é, recursos que não estão “carimbados” e que sustentam o cotidiano da máquina pública. A pressão sobre o caixa aumenta e a gestão passa a conviver com uma asfixia que corrói serviços e investimentos, sobretudo os preventivos. A situação de Minas Gerais é gravíssima.
O mesmo relatório registra Receita Corrente Líquida de R$ 111,739 bilhões em 2025, referência central na Lei de Responsabilidade Fiscal, e uma despesa total com pessoal em cerca de 48% da Receita Corrente Líquida ajustada. O número está abaixo do limite máximo, mas acima do limite prudencial indicado pelo próprio governo.
No Orçamento de 2026, a receita estimada é em R$ 127,1 bilhões, a despesa é em R$ 132,3 bilhões e o déficit projetado é em R$ 5,2 bilhões – duvido que será apenas esse valor; no mínimo deve ser o dobro. A administração estadual precisa escolher o que cortar ou adiar, e quase sempre o corte recai onde o cidadão mais precisa de permanência e previsibilidade. E precisa ter coragem de falar a verdade com o povo mineiro: nosso estado está quebrado. Qual a saída? Chega de discursos, precisamos enfrentar com coragem essa situação. O Propag (Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados) é um instrumento relevante, mas de curto prazo e não substitui reformas, transparência e escolhas difíceis dentro do próprio orçamento mineiro.
Diante desse quadro preocupante, o debate sobre orçamento para chuvas e Defesa Civil não pode ser reduzido a tecnicalidades, porque se trata de vidas humanas. O Estado precisa, ainda, olhar para a prevenção com horizonte de anos, não de dias ou meses. É preciso pensar estrategicamente, transcender mandatos. Há algo em torno de R$ 23,5 milhões em 2026 para um programa de suporte às ações ligadas às chuvas, com projeções de estagnação nos anos seguintes. Esse valor é incompatível com a escala do risco no segundo estado mais populoso do país e repleto de municípios em situação grave, com encostas vulneráveis e ocupação urbana historicamente desordenada.
Também deve-se debater um tema urgente: diante de um orçamento tão limitado, é aceitável haver benefícios para alguns setores da economia, digo, renúncias fiscais? A Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 tem previsão de cerca de R$ 25,2 bilhões em renúncias, e há referências de projeções na faixa de R$ 24 bilhões. Quais setores recebem, qual contrapartida é cobrada, que avaliação de resultados existe e quanto de investimento público deixa de acontecer por essa escolha política?
Pesquisa divulgada nesta semana indica que 83% dos municípios consideram insuficientes os recursos para executar políticas de saúde, e muitos relatam necessidade de usar dinheiro de outras áreas para sustentar o sistema. A tendência, como sempre, é transferir, por inércia, o peso para as prefeituras. O efeito aparece: na fila, no atendimento tardio, na desigualdade entre quem tem e quem não tem acesso.
O clima extremo é o novo normal, e com um Estado neste grau de fragilidade orçamentária o risco é potencializado. Não é hora de empurrar culpa, nem de fabricar palanque. É momento de refletir sobre os caminhos de Minas neste ano eleitoral, e hora de unir esforços, socorrer as pessoas, reconstruir as cidades e, ao mesmo tempo, abrir o debate que Minas vem adiando: sem caixa, sem transparência orçamentária e sem escolhas públicas sustentáveis, a prevenção não acontecerá e novas tragédias virão.
Mais grave que tudo isso é a falta de projeto. Qual o projeto? Qual a saída para Minas Gerais? Sobram perguntas. Faltam respostas. Sobra inquietação e angústia para todos os mineiros e mineiras. Faltam transparência e assertividade. Sobra o desolamento. Falta esperança.