Alisson Moraes | Carnaval: para além do moralismo e da catarse coletiva

A festa não é uma tese sobre moralidade; trata-se de um fato social total, no sentido de envolver economia, cultura, corpo, cidade, memória e política

Carnaval na Praça Sete, no Centro de Belo Horizonte

O Carnaval espelha a alma coletiva. Nos últimos anos, porém, a maior festa brasileira tem se tornado alvo de um embate moral: de um lado, vozes que a resumem a “excesso” e “perversão”; de outro, milhões que a vivem como manifestação cultural e celebração da vida. A verdade é que, como toda manifestação humana, o Carnaval carrega contradições, mas reduzi-lo a rótulos é menosprezar a própria identidade do país.

A cena tem se repetido todo fevereiro: uma disputa simbólica entre parte de setores religiosos e parte de foliões, como se a fé e a rua fossem territórios inimigos. Não são. A polarização fabrica caricaturas. De um lado, “a festa como decadência”; de outro, “a crítica como careta”. No meio está a vida real, que é mais complexa, mais plural e, em geral, bem mais sensata do que essas rotulações.

O Carnaval não é uma tese sobre moralidade. Trata-se de um fato social total, no sentido de envolver economia, cultura, corpo, cidade, memória e política. Ele movimenta trabalho, turismo, logística, costura, artes, técnicos de som, músicos, ambulantes, produtores, catadores. É uma manifestação cultural complexa, que articula simbolismo e sobrevivência material.

Há, evidentemente, excessos, abusos, desrespeito, violência e assédio. Mas isso não é exclusividade do Carnaval; trata-se de problemas presentes na sociedade como um todo. O moralismo simplista não contribui para enfrentá-los. O ponto central é outro: moralismo não é ética. A ética exige responsabilidade, cuidado, limites e proteção, especialmente para quem mais sofre quando o Estado falha. O viés moralista, ao contrário, apenas condena e se satisfaz com a punição abstrata, sem construir políticas públicas e sem enfrentar o que de fato precisa ser enfrentado.

O antropólogo Roberto DaMatta, em Carnavais, malandros e heróis, interpreta o Carnaval como um rito de inversão que atravessa a sociedade brasileira: por alguns dias, as hierarquias do cotidiano se suspendem, o uniforme cede espaço à fantasia, o riso desafia a ordem, os códigos se embaralham. Não se trata de um “vale-tudo”, tampouco de uma simples catarse coletiva. É um mundo provisoriamente reconfigurado, que revela aquilo que a rotina costuma esconder.

No Carnaval, a cidade permite que a rua fale. E, ao permitir isso, a própria cidade escuta: desejos, tensões, desigualdades, formas de pertencimento. Talvez por isso o Carnaval incomode tanto. Ele expõe o quanto somos obcecados por controle, por fronteiras rígidas, por uma vida “reta” que, muitas vezes, só serve para manter as coisas como estão, sempre a favor dos mesmos e do status quo.

Quem afirma que Carnaval e espiritualidade são incompatíveis quase sempre confunde fé com vigilância e intolerância. Religião, em sua melhor versão, é vivência em comunidade, acolhimento, compaixão, disciplina interior. Vigilância e intolerância são outra coisa: a tentação de medir o valor do outro pelo seu comportamento público, de vigiar corpos e costumes arbitrariamente, como se isso resolvesse a injustiça estrutural do país.

Em Belo Horizonte, esse debate ganha contornos ainda mais interessantes. Nos últimos dez anos, a cidade descobriu uma forma de ocupar o espaço público sem pedir desculpas por existir. BH construiu um Carnaval que é pura identidade urbana. Não é apenas festa. É uma pedagogia da rua: aprende-se a dividir a calçada, a respeitar e até celebrar as diferenças, a conviver e, sobretudo, a reconhecer que a cidade não pertence apenas ao automóvel, ao relógio da produtividade ou aos proprietários. A cidade é do povo, como escreveu Castro Alves: “A praça é do povo / Como o céu é do condor”.

Outro aspecto essencial é a trilha sonora do Carnaval. Samba, marchinha, pagode, axé, frevo, MPB, maracatu, pop, funk. É o país inteiro discutindo a si mesmo em ritmo e melodia, com autenticidade e diversidade.

Quem me lê pode imaginar: o autor é carnavalesco. Não sou. Minha abordagem aqui é a de um cidadão, de um brasileiro atento à vida pública. Costumo ir a poucos blocos, como o Bloco da Esquina. E ali está uma força simbólica importante: o Clube da Esquina encontra a rua, a MPB dialoga com o samba e o axé, e Belo Horizonte reafirma que cultura é continuidade, entrelaçamento e reinvenção, tradição e experimento.

O Carnaval é, em última instância, o retrato da sociedade, com suas mazelas, sua força poética, sua beleza e suas contradições. É a expressão da cidade e, urbe em urbe, de todo um país. Cidades que precisam educar para o respeito, proteger mulheres e crianças, organizar limpeza e transporte, garantir segurança sem truculência, reconhecer trabalho e cultura. Cidades democráticas. E democracia, definitivamente, não é unanimidade moral; é convivência com regras justas e com dignidade.

O Carnaval é uma metáfora rara: por alguns dias, o Brasil se olha no espelho sem maquiagem moralista, com suas contradições e sua beleza. A festa não deve ser uma guerra cultural. Ela pode ser, ao contrário, um ensaio de civilidade. É bonito ver o povo junto, diverso, ocupando a rua com respeito e alegria, lembrando que o país é maior do que qualquer patrulha, de qualquer lado.

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Alisson Diego Batista Moraes é advogado, professor e filósofo. Mestre em Ciências Sociais, com especializações em Gestão Empresarial e Direito Constitucional, possui 20 anos de experiência em gestão pública. Foi prefeito e secretário municipal. É escritor, consultor em planejamento e políticas públicas. Site: www.alissondiego.com.br

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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