Há alguns dias, ao ser perguntado em entrevista ao The New York Times quais limites poderiam conter o seu poder, o presidente estadunidense Donald Trump respondeu que só há “uma coisa” capaz de frear seus impulsos: a própria moralidade, a própria mente. Em seguida, minimizou a necessidade do direito internacional, como se o mundo fosse um tabuleiro e as regras, um detalhe.
O problema não está na frase como bravata de ocasião, mas no que ela revela: não são as instituições que contêm o líder; é o líder que se concede o papel de conter a si mesmo. Nesse enquadramento, a democracia se transforma em mero cenário do teatro político do personalismo. O Estado de Direito perde força e vira sugestão. E, por sua vez, a Constituição se torna um utensílio: útil quando serve e descartável quando atrapalha o líder máximo da nação.
Em democracias minimamente maduras, o princípio deve ser o inverso. Ninguém entrega o destino coletivo à “mentalidade” do governante ou à sua “bondade”, como se virtude fosse política pública. A premissa precisa ser mais simples e direta: o poder seduz, corrompe e tende à arbitrariedade. Por isso, exige freios impessoais, previsíveis e públicos. Esse é o sentido mais sério do liberalismo político: uma engenharia institucional criada para conter arbitrariedades, domesticar personalismos e reduzir o estrago quando a vaidade resolve governar.
Ao afirmar que o seu limite é a própria moral, Trump não está apenas descrevendo sua personalidade problematicamente narcísica, mas oferecendo, na prática, uma teoria de governo. Uma teoria em que o “eu” substitui a norma e a consciência individual ocupa o lugar das instituições de Estado. No fundo, ele pede ao mundo que confie no seu íntimo. Num Estado de Direito, contudo, o pacto precisa ser outro: não se exige fé no temperamento do governante; exige-se obediência à lei e às instituições.
Trata-se do mais claro culto à personalidade: a fabricação do líder como instância última de legitimidade, acima e além dos procedimentos. Não se trata apenas de marketing político, como querem sugerir alguns analistas. Trata-se de reorganizar a vida pública em torno de uma figura que passa a ser medida de todas as coisas, como se fosse a régua da nação e o termômetro da realidade.
O culto à personalidade não exige, de partida, tanques na rua. Ele costuma começar por um caminho mais discreto: como cultura emocional. O debate público vira palanque para torcidas apaixonadas e distanciadas de qualquer senso crítico; a discordância é percebida como traição e o pluralismo é dinamitado. A política, que deveria ser um método coletivo para administrar conflitos e trabalhar pela emancipação humana, é rebaixada ao drama moral de um protagonista, com aplausos irracionais e linchamentos simbólicos.
Freud (1856-1939) ajuda a iluminar o mecanismo íntimo dessa adesão. Em Psicologia das Massas e Análise do Eu (1921), descreve como grupos sociais se organizam por vínculos de identificação e como o líder pode ocupar a posição de ideal, replicando, no registro psíquico, a relação primária com a figura paterna. A massa deseja um “pai” que simplifique o mundo e autorize a obediência, poupando o sujeito do esforço, e do risco, de pensar sozinho.
Por isso, é curioso quando líderes com traços autoritários se apresentam como antídoto contra “o comunismo” ou contra “o totalitarismo alheio”, como se o problema estivesse apenas no rótulo ideológico do adversário. A história mostra que o culto à personalidade é transversal: muda a bandeira, mas conserva o núcleo psíquico e político. A personalização do poder não tem uma cor única; tem um método recorrente.
Stalin (1878-1953) é um exemplo clássico desse método, justamente porque o culto não foi um efeito colateral, mas engrenagem de governo: a imagem do líder como intérprete infalível do destino coletivo, com um aparato simbólico dedicado a converter política em veneração. Quando a autoridade se torna infalível, o “erro” deixa de ser corrigível e passa a ser punível.
Na contemporaneidade, o presidente de El Salvador, Nayib Bukele, é outro caso instrutivo por mostrar como a erosão institucional pode se apresentar como eficiência e popularidade. A “solução” costuma vir embalada como urgência cívica: flexibilizam-se as regras, reinterpreta-se a Constituição, enfraquecem-se os controles, e o que era exceção se transforma em modus operandi de governo. O resultado é previsível: o poder vai se alongando, enquanto a crítica é tratada como obstáculo e a oposição passa a existir sob suspeita permanente.
Aqui está o ponto decisivo: não importa a cor do discurso. Há líderes que se vendem como revolucionários, outros como restauradores da ordem; uns falam em povo, outros em pátria. A técnica, porém, frequentemente converge. Nicolás Maduro, Daniel Ortega, Netanyahu e Viktor Orbán, cada um em seu contexto, ilustram como se pode dinamitar a institucionalidade por dentro: subverte-se o papel das instituições, captura-se o sistema de freios, asfixia-se a imprensa, criminalizam-se organizações da sociedade civil, perseguem-se adversários, e a mera ideia de alternância de poder se converte em ameaça à pátria e ao povo. No fim, o poder não precisa mais convencer ninguém; basta constranger e ameaçar quem ousa discordar.
Ao acionar a própria moralidade como o seu “único limite”, Trump faz mais do que teatralizar poder. Ele rebaixa o papel do Congresso, do Judiciário, da imprensa e da própria opinião pública a figurantes e alça a democracia a enfeite em torno de sua vontade soberana. Só que a democracia não foi desenhada para depender da virtude do governante. Ela existe, precisamente, para sobreviver quando a virtude falha, quando o temperamento oscila e quando o poder tenta se expandir para além do aceitável.
Uma boa notícia, nesse quadro, é que a Constituição dos Estados Unidos contém um limite formal claro: ninguém pode ser eleito presidente mais do que duas vezes. O desenho foi pensado para impedir a eternização do poder, mesmo quando a popularidade tenta se transformar em destino e o carisma tenta virar regra.
A má notícia, no entanto, é que o limite temporal não resolve o essencial: ainda faltam três anos neste mandato. E três anos, em política, podem ser uma eternidade quando o governante opera com a convicção de que a regra é flexível, a exceção é normal e a própria consciência está acima da Constituição.
Há, ainda, uma consequência adicional do culto à personalidade que costuma passar despercebida: ele internacionaliza a vaidade. O mundo é um palco, a diplomacia um espelho, e as decisões que deveriam responder a critérios públicos passam a ser contaminadas por uma fome privada de reconhecimento. É nesse registro que entra o episódio do Nobel. Segundo reportagens, Trump teria vinculado, em mensagens ao primeiro-ministro da Noruega, a questão do Nobel da Paz à sua postura em temas geopolíticos sensíveis, em tom de frustração por não ter sido premiado, sinalizando uma postura mais belicista e ameaçadora, inclusive em relação à Groenlândia. A paz, para o presidente da maior potência do mundo, é um item de currículo, uma moeda para seu hiperinflado ego. A que ponto chegamos!
A pergunta decisiva, portanto, não é “gostar” ou “não gostar” de Trump. A pergunta deve ser outra: o que acontece quando uma democracia encontra um líder autocrático que se entende como a medida do mundo? O culto à personalidade é um plebiscito permanente do “eu”. E plebiscitos permanentes, em geral, esmagam minorias, enfraquecem freios e substituem direitos por humores.
O que um ano de Trump nos mostra com a mais aterradora clareza é que instituições não se ajoelham apenas pela força do governante; elas se ajoelham quando a sociedade passa a desejar o joelho no chão. Contra o culto à personalidade, o antídoto não é esperar um líder melhor, nem torcer por um temperamento mais benigno. É exigir regra, limite e responsabilização, todos os dias, sobretudo quando a plateia prefere aplauso. Mas é sempre bom lembrar: a política só se transforma em teatro e culto ao líder quando o cidadão aceita, passivamente, o seu papel de mero espectador.