Em 1961, três padres ligados à Cáritas Brasileira conceberam uma campanha de arrecadação destinada a financiar ações assistenciais. O objetivo era organizar a partilha para que a ajuda não dependesse do improviso nem do impulso do momento. Esse foi o ponto de partida do que viria a ser a “Campanha da Fraternidade”, delineando um método de mobilização quaresmal que se organiza em três dimensões: a partilha, a organização e a finalidade pública. A experiência, realizada na cidade de Natal (RN), expandiu-se no ano seguinte e, a partir de 1964, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) a assume e a promove oficialmente em âmbito nacional.
De lá para cá, são mais de seis décadas em que a Igreja Católica oferece ao país uma oportunidade anual de leitura pública da realidade nacional, com um traço que interessa também a quem não compartilha da mesma fé: a campanha nos obriga a encarar o conflito entre os valores proclamados por uma sociedade que se diz cristã e a vida efetivamente vivida pelo povo, expondo as carências sociais e, ao mesmo tempo, orientando os compromissos da comunidade católica brasileira. Ela recoloca uma pergunta que toda comunidade precisa se fazer: o que a nossa fé, o nosso discurso e a nossa cultura produzem? Esse impulso possui um fundamento bíblico: “a fé, se não tiver obras, é morta em si mesma” (Tiago 2, 17), e os versículos que se seguem demonstram que a fé se torna visível na prática, naquilo que se faz e se sustenta diante do outro.
Em 2026, o tema da Campanha da Fraternidade é “Fraternidade e Moradia”, com o seguinte lema: “Ele veio morar entre nós” (João 1, 14). Morar não é um verbo neutro. Morar significa ter chão, teto, endereço, segurança, condições mínimas para repousar sem medo e acordar sem sobressalto. Ao trazer a “moradia” para o centro da Quaresma, a Igreja desloca o debate para além do conforto: se Deus “mora”, a pergunta é quem, no Brasil real, pode morar com dignidade?
Este tema toca uma ferida contemporânea gravíssima que não se resolve por um único gesto, nem por uma única vontade. A crise da moradia envolve o preço da terra, o custo do aluguel, a precariedade urbana, o risco geológico e climático, o saneamento ausente, a distância entre casa e trabalho, a informalidade que nasce da necessidade e se perpetua pela omissão. A moradia organiza quase toda a nossa vida social. Quem mora mal estuda pior, adoece mais, trabalha mais longe, gasta mais tempo, vive mais exposto.
Alguns dirão que este é um problema insolúvel e que se trata de utopia resolvê-lo. Num tempo que nos condiciona a aceitar a precariedade como “normal”, a utopia cumpre a função de lembrar que o presente não esgota o possível. Ela não dispensa política pública; antes a exige, porque recusa o conforto de uma realidade que insiste em administrar a persistente e ímpia injustiça.
É bom que se diga que não se trata de um problema unicamente nacional. A ONU, por meio do Programa UN-Habitat, vale-se de um parâmetro de acessibilidade que acende o sinal amarelo quando o gasto mensal com moradia ultrapassa 30% da renda do domicílio. Quando vivi em Madri, percebi como esse encarecimento redesenha o mapa social da cidade: migrantes comprometendo parcela muito alta do orçamento, por vezes chegando perto de metade da renda, jovens adiando a saída da casa dos pais, casais trocando bairro por distância, moradores antigos sendo empurrados para fora de áreas valorizadas. Isso tem nome: gentrificação, frequentemente acelerada pela combinação entre pressão turística, aluguel de curta duração e captura do estoque habitacional por lógicas de rentabilidade rápida. O poder público tentava reagir, mas esbarrava no nó estrutural: oferta insuficiente, disputa pelo solo bem localizado, instrumentos regulatórios que exigem fiscalização e execução contínuas e, sobretudo, a dificuldade de antecipar-se a um mercado que se move com rapidez maior do que a política.
O problema é quando a casa é tratada como um simples ativo de mercado, como prêmio ou como consequência exclusiva da meritocracia. Quando ocorre isso, a cidade se torna uma espécie de filtro moral: quem não consegue pagar é empurrado para a periferia, para a encosta, para a beira do córrego, para o improviso, para a instabilidade. É bom lembrar que uma democracia não é apenas um conjunto de regras eleitorais. Não há democracia sem dignidade e direito. Ela exige um mínimo material de existência para que liberdade e igualdade não sejam palavras vazias. Moradia é um direito fundamental, como a educação, a saúde, o trabalho e a alimentação, algo reconhecido pela ONU desde 1948, com a Declaração Universal dos Direitos Humanos.
A potência da Campanha da Fraternidade reside em tocar o nervo desses problemas públicos como missão de transformação da realidade sem cair na armadilha da partidarização. A Campanha não elabora um plano de governo, nem substitui o Estado, tampouco cria solução automática. O que ela faz é estabelecer um critério moral compartilhável e pedir coerência e compromisso cristão. A cada ano, recorda que uma nação que se diz cristã não pode tratar a vulnerabilidade com desdém e admitir a paisagem da injustiça. Isso importa também àqueles que não creem, porque o que está em jogo é o padrão mínimo de civilidade.
Dom Helder Camara, que possuía a rara capacidade de unir a força do Evangelho com a lucidez histórica sem transformar a fé em álibi, insistia que a esperança não deve ser passiva, trata-se de uma tarefa organizada. Numa resposta a um jovem que temia “cair na utopia”, ele afirmou: “Não devemos temer a utopia” e completou, com a precisão de quem conhecia o peso da história: “A utopia compartilhada com milhares é o esteio da História”. Entre o conformismo resignado e a esperança apática, a Campanha da Fraternidade nos convoca à ação valente, cuja inspiração deve vir da própria vida de Jesus.