O argentino Júlio Cortázar publicou, em 1946, o conto “Casa Tomada”. O episódio narrado é a vida de dois irmãos solteiros que vivem numa enorme casa herdada dos antepassados, que guardava as recordações dos ancestrais e toda a infância dos irmãos. Ambos vivem de forma tranquila, sem grandes preocupações, já que tudo se resumia aos afazeres domésticos: levantavam-se às 7h, cuidavam da limpeza da casa, preparavam pontualmente o almoço ao meio-dia — tudo isso num espaço amplo e silencioso. A irmã, Irene, além de suas atividades matinais, passava o restante do dia tricotando no sofá de seu quarto. A calmaria era tamanha que os irmãos, já na casa dos quarenta anos, viviam uma rotina simples e silenciosa, com a sensação de que morreriam ali, um dia, alheios e distantes de tudo o que era externo.
Certo dia, porém, enquanto se preparavam para mais um dia de tradicional monotonia, um dos irmãos, ao se dirigir à cozinha, ouviu “alguma coisa na sala de jantar ou na biblioteca”. Era um som impreciso e surdo, “como o tombar de uma cadeira sobre o tapete ou um abafado murmúrio de conversação”. Assustado, o personagem-narrador fechou a porta violentamente, passando um “grande ferrolho para maior segurança”. Em seguida, dirigiu-se à irmã para anunciar a novidade: tivera de fechar a porta do corredor, pois haviam tomado “a parte dos fundos”. A irmã deixou cair o tricô e olhou-o com seus graves olhos cansados:
— Você tem certeza?
Disse que sim.
— Então – disse, recolhendo as agulhas – teremos que viver neste lado.”
Assim, passaram a viver apenas em parte da casa. Nos primeiros dias, a situação foi penosa, pois haviam deixado muitas coisas que amavam na área invadida. Com frequência, procuravam em vão objetos em alguma gaveta das cômodas e se olhavam com tristeza: “Não está aqui”. Com o tempo, entretanto, perceberam certa vantagem e até alegria na redução do espaço da casa. A limpeza simplificou-se, e consequentemente passaram a se levantar mais tarde, às 9h30, estando às 11h já de braços cruzados. Alegraram-se por terem o entardecer livre, já que sequer precisavam cozinhar, pois “bastavam a mesa no quarto de Irene e as travessas de comida fria”. Irene, assim, passou a ter mais tempo para tricotar.
Exceto por essas mudanças, tudo continuava silencioso na casa até que, numa noite, o irmão, ao ir à cozinha buscar um copo com água, ouviu um ruído que o fez parar abruptamente. Ele e a irmã sequer se olharam, correndo imediatamente até o saguão, sem olhar para trás: “— Tomaram esta parte – disse Irene. O tricô descia de suas mãos, e os fios iam até a porta e se perdiam por debaixo dela. Ao ver que os novelos tinham ficado do outro lado, ela largou o tricô sem ao menos olhá-lo. — Você teve tempo de trazer alguma coisa? – perguntei-lhe inutilmente. — Não, nada.”
Assim, ficaram apenas com o que tinham no corpo – na verdade, um relógio de pulso que marcava 23h. E, assim, saíram à rua, não sem antes, com tristeza, fechar bem a porta de entrada da casa e jogar a chave no bueiro para evitar que alguém resolvesse furtar a propriedade, “a essa hora e com a casa tomada”.
O conto, originalmente publicado em 1946 - um notável exemplo do realismo fantástico – apresenta a casa como espaço de referência e delimitação do mundo para os dois irmãos. O exterior, para eles, é algo praticamente desconhecido, o que faz com que ruídos externos representem um enorme estranhamento. À primeira vista, a narrativa é singela, mas revela inúmeras camadas simbólicas, inclusive a política. Cortázar, crítico ferrenho de regimes ditatoriais, utiliza a ideia de “casas tomadas” para aludir às perseguições que implicam no abandono de lares e à usurpação de propriedades pelos regimes autoritários. Contudo, uma interpretação existencial também é possível, compreendendo a casa como o tempo que nos é gradualmente retirado. O mais inquietante, no texto, é a passividade com que os irmãos aceitam a perda dos espaços; não há indignação, sequer a tentativa de identificar o invasor. Tudo é aceito sem oposição: a cada ruído, fecha-se uma porta e tudo segue normalmente.
A casa pode ser uma potente metáfora do tempo: no início da nossa existência, possuímos a casa inteira. Na infância, temos a sensação de que sempre haverá uma tarde disponível para brincar, imaginar e criar. Na juventude, abrimos portas para muitos sonhos: desde os primeiros amores e as diversas profissões até as amizades intensas. Sempre com a certeza de que haverá tempo para tudo. Na fase adulta, porém, os cômodos vão sendo tomados pouco a pouco. Os sonhos mais ousados são guardados em algum quarto distante, e as preocupações entram na ordem do dia, ocupando praticamente a casa inteira. A diversão é sempre adiada; tudo depende de uma agenda completamente ocupada. De repente, quando nos damos conta, já não habitamos a casa e sequer sabemos quem são os invasores. São as contas a pagar, a carreira, o medo do futuro, a ansiedade dos tempos modernos, a angústia pelo sucesso. E cada vez mais nos adaptamos a espaços menores, sem qualquer resistência. O singelo e antigo hábito de prosear à noite com a família já não existe, sequer os jantares em família. Tudo é muito cronometrado. Cada um se alimenta em horários distintos, de forma muito rápida, com imagens à frente, nas telas.
No Direito, esse fenômeno também é muito presente. No início da profissão, estudamos a Constituição Federal com olhos de encantamento, enxergando os direitos fundamentais como marcos a serem seguidos e buscados. Com o tempo, porém, os processos perdem os nomes, dando lugar apenas aos números. Os dramas humanos tornam-se “feitos”, e as pessoas, apenas “partes”. Novamente, sem percebermos, vamos deixando os ideais do outro lado da porta: o tempo para o estudo, a luta por um mundo melhor, a indignação diante das desigualdades sociais que nos rodeiam. Toda essa mudança se dá de forma lenta, tal qual os ruídos do conto, e quando nos damos conta, restam-nos a rotina e os protocolos. Resistir à tentação de jogar as chaves no bueiro é o nosso desafio, sobretudo no Direito, onde a casa é mais facilmente tomada pelo brilho da autoridade.
Ops! É chegado o Carnaval, a verdadeira festa popular, um momento que nos faz lembrar que a casa não é feita para ser trancada, mas para ser vivida. Nesta festa tão coletiva, entre um bloco e outro, há muito espaço para o riso, a música, o improviso, o encontro inesperado – pequenos gestos que a vida corrida nos tolhe. Talvez por isso, tantas letras de samba celebrem a data como o dia em que a alegria ocupa as ruas. E caso o leitor não se interesse pela folia, Olavo Bilac tem um recado, escrito em 1887, mas ainda vigente: “Quem não puder ir à festa ardente e louca/ A alma triste atirar despreocupada,/ Chore! Mas que o soluço, ao vir à boca/ Torne-se uma risada”.