“O preço que se paga às vezes é alto demais.” Quem nasceu nos anos 80 e 90 se lembra muito bem desses versos da canção “O Preço”, de Humberto Gessinger. A música nasceu no álbum Humberto Gessinger Trio, de 1996, e voltou a circular com mais força no Acústico MTV dos Engenheiros do Hawaii em 2004. Esse álbum, aliás, era dos que mais embalava aquela juventude que chegava ávida no novo milênio. A música tem letra, ritmo e história – reflete sobre escolhas, solidão e arrependimento. Anos depois, esses versos me inspiram a fazer uma pergunta menos romântica e poética: qual é o preço que pagamos para viver nas redes sociais e depender, o tempo todo, das Big Techs? Será alto demais?
A narrativa mais comum e confortável do nosso tempo diz que a tecnologia “evolui” constantemente e, por isso, melhora a vida a cada dia que passa. Possuímos uma espécie de fé laica no progresso tecnológico. Também acreditamos ingenuamente que hoje temos mais liberdade só porque emitimos nossa opinião pelas redes e acessamos opiniões “isentas” (sobre isso, escreverei um outro artigo). Só que há um detalhe incômodo, que a gente prefere ignorar: toda tecnologia é também uma arquitetura de poder. Quando essa arquitetura aprende a observar os nossos hábitos, as nossas predileções e até a nossa intimidade, o que parecia conveniência começa a se confundir com controle. Não é mais o velho panóptico da prisão, com grades visíveis. É o panóptico de bolso, com tela brilhante, notificações gentis e termos de uso intermináveis e quase ilegíveis.
Imagine esta cena comum, que provavelmente já lhe aconteceu. Você está na rua, à noite, com apenas 5% de bateria. Pensa: “Vou chamar o carro agora, antes que o telefone desligue”. De repente, o preço aparece maior do que o esperado, mesmo com clima normal e a cidade em ritmo normal. Isso tem nome e assusta: precificação por vigilância, ou seja, estão a usar dados do consumidor para individualizar os preços até o limite da nossa tolerância. Não se trata de nenhum tema conspiratório. Na Califórnia, o legislativo estadual está debatendo uma proposta para impedir que as empresas usem informações do aparelho, como bateria, modelo e geolocalização, para inflar preços com apoio de inteligência artificial.
Precificação dinâmica é ajustar preço pelo mercado. Precificação por vigilância é ajustar preço por você. Pelo seu comportamento, pelo seu histórico, pelos seus hábitos, pelo seu contexto, pela sua pressa. O “quanto custa” deixa de ser uma informação pública e se transforma em uma negociação secreta tendo o algoritmo de um lado e a nossa vulnerabilidade de outro. Repare como a lógica muda: não basta prever o que você vai fazer; é preciso aprender quando você está mais propenso a aceitar sem muito pensar. O sistema observa, testa e aprende: se você aceita rápido, ele registra que “dá para subir”; se você hesita, ele recalibra. A inteligência artificial entra como acelerador dessa engrenagem porque ela não apenas calcula, mas aprende padrões e explora fragilidades em escala.
O pesquisador bielorrusso Evgeny Morozov lembra que o verniz futurista costuma esconder algo mais prosaico: uma disputa por poder, por domínio de infraestrutura e por vantagem competitiva. No ecossistema das Big Techs, Google, Meta, X, Amazon, Apple, Microsoft, Samsung e outras plataformas que orbitam esse centro, os dados se convertem em ativos estratégicos fundamentais para manter vantagem e sufocar quaisquer alternativas. Não é “a tecnologia” que manda, não são as máquinas, são humanos com o velho desejo de acumular e oprimir. É um modelo de acumulação que usa a tecnologia para ampliar margens, reduzir transparência e transformar o consumidor em mero território a ser explorado.
O verdadeiro modelo de negócio não é a assinatura que você paga, nem o frete que você aceita, nem o “plano premium” que promete menos incômodo e tampouco os anúncios a que você assiste. O modelo é a monetização da sua intimidade. Você paga com rastros: onde está, que horas está, quanto tempo hesita, que caminhos repete, o que abandona no carrinho, o que busca quando está cansado. Mesmo quando paga em reais, continua pagando em comportamento. E o mais perturbador é isto: o sistema não vende apenas um produto. Ele vende você para si mesmo, como previsão, como probabilidade, como alvo. A liberdade não some num gesto dramático; ela vai sendo tarifada em pequenas concessões.
Em nosso país, esse debate é muito sério porque nós vivemos no celular. Segundo o IBGE, em 2024 havia 167,5 milhões de pessoas de 10 anos ou mais com telefone celular para uso pessoal, o que corresponde a 90% dessa faixa da população. O celular, portanto, não é só um dispositivo, mas infraestrutura de trabalho, transporte, banco, escola, saúde e até afeto. Cerca de 60% dos brasileiros acessam a internet exclusivamente pelo smartphone e, nas classes D e E, esse percentual chega a 86%.
Diante desse cenário perturbador, a pergunta é a mais prática possível: o que fazer para não sermos tão dependentes ou estarmos tão expostos? A saída não pode ser demonizar a tecnologia, nem cair no moralismo do eremita do século XXI: “desinstale tudo e viva no mato”. A resposta é a criação de políticas públicas eficientes, regulação clara e transparência. O consumidor precisa saber quando está diante de preços personalizados e por quais critérios. Precisa saber que dados entram na conta e com que finalidade. As Big Techs não podem ter esse poder quase divino sob as vidas e os desejos das pessoas. O Estado precisa tratar a opacidade algorítmica como um grave risco social, não como um mero segredo industrial intocável. E a sociedade precisa se conscientizar e não aceitar jamais que o preço seja um fator de punição pela fragilidade do consumidor. A precificação por vigilância é, no fundo, uma pedagogia silenciosa de submissão.
No fim, estamos diante de um grande dilema ético. Se o valor sobe quando você está com pressa, cansado ou sem alternativas, quem está dirigindo a sua vida naquele instante: você ou essa arquitetura de poder que aprendeu seus atalhos, seus hábitos e devassou a sua privacidade? Há uma última pergunta entalada na garganta, impossível de responder sem desconforto: o quanto de mim eu estou entregando agora para as redes sociais e as grandes plataformas de tecnologia sem perceber ou sem questionar? A resposta pode estar na mesma canção do Gessinger: “Pensei que era liberdade, mas eram as grades da prisão”.