Ouvindo...

Times

O que está por trás dos tuítes de Elon Musk contra Alexandre de Moraes?

Bilionário dono da rede social X disparou contra ministro do STF após vazamento de e-mails de executivos da plataforma

Dono de empresas de tecnologia como a SpaceX e a Tesla e, desde outubro 2022 à frente do X (antigamente chamado de Twitter), o bilionário Elon Musk disparou nos últimos dias contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes.

Neste sábado (6) e domingo (7), o empresário subiu o tom das críticas, reclamou de decisões judiciais do magistrado contra usuários da plataforma e ameaça de multas. Ainda disse que o X perde receitas no Brasil, o que pode levá-lo a fechar o escritório da empresa no país, chamou Moraes de “censor” e, por fim, pediu que ele renunciasse o cargo ou que sofresse um processo de impeachment.

Até a publicação desta reportagem, Moraes, cujo perfil na rede social é o @alexandre, mencionado diversas vezes por Musk, não se manifestou. A reportagem também pediu posicionamento ao seu gabinete e à assessoria de imprensa do STF, mas não obteve resposta.

Twitter Files Brasil

No dia 3 de abril, o jornalista norte-americano Michael Shellenberger publicou prints do que seriam e-mails de Rafael Batista, consultor jurídico do Twitter (antes de ser adquirido por Musk) a outros funcionários da empresa. Ele reportou à sua equipe, em 2021 e 2022 sobre decisões de Moraes que atingiam a plataforma. A publicação, que vem sendo chamada de “Twitter Files Brazil”, mostra que Batista teria reclamado de exigências de desmonetização de contas de bolsonaristas após ataques a ministros do STF e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), presidida por Moraes.

Batista também reportou que a Corte Eleitoral pediu que plataformas — como Twitter, mas também o YouTube, Instagram e o Facebook — alterassem algortimos para que conteúdos que desacreditassem o sistema eleitoral brasileiro tivessem alcance reduzido e que alguns conteúdos específicos tivessem sua origem identificada.

O consultor do Twitter também informou a plataforma que a empresa não mantinha a guarda de dados dos usuários, exceto o endereço e o telefone de contato.

Leia também

As publicações de Shellenberger motivaram o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) a levar o assunto ao Congresso Nacional. Segundo o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, um requerimento será apresentado na Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados.

A publicação do “Twitter Files Brasil” também fez com que Elon Musk disparasse contra o ministro da Suprema Corte brasileira, Alexandre de Moraes. Neste sábado (6), o bilionário dono da rede social X questionou o “por quê de tanta censura no Brasil” e ameaçou reativar contas de perfis que foram banidas justamento por decisão do ministro.

Ele também disse que as decisões judiciais impactam nas receitas da empresa e ameaçou fechar o escritório do X no Brasil.

“Estamos removendo todas as restrições (dos perfis). Este juiz aplicou multas massivas, ameaçou prender nossos funcionários e cortar o acesso a X no Brasil”, publicou Musk. “Como resultado, provavelmente perderemos toda a receita no Brasil e teremos que fechar nosso escritório lá. Mas princípios importam mais do que lucro”, acrescentou.

Decisões de Alexandre de Moraes envolvendo a suspensão ou bloqueio de contas de usuários do X remontam a 2020. Em 24 de julho daquele ano, o ex-deputado federal Roberto Jefferson, um dos mais virulentos críticos a sua conduta como ministro do STF, teve a conta suspensa. O ex-parlamentar é investigado no âmbito do inquérito das fake news, aberto pelo então presidente do Supremo, Dias Toffoli e que foi colocado sob relatoria de Moraes em 2019. O inquérito segue em aberto.

Outras decisões semelhantes também atingiram outros políticos de extrema-direita, como Daniel Silveira, Carla Zambelli e Nikolas Ferreira. No caso dos dois últimos, Moraes também determinou, mais tarde, que os perfis fosem reativados. O empresário Luciano Hang, também investigado, assim como o influenciador Monark e o blogueiro Allan dos Santos tiveram os perfis suspensos e podem voltar à ativa após ameaça de Elon Musk de descumprir as decisões judiciais de Elon Musk.

O que diz Elon Musk?

Além de ameaçar descumprir decisões do STF e do TSE e de fechar o escritório do X no Brasil, Elon Musk também chamou Moraes de “censor” e que ele estaria violando a Constituição brasileira.

“Este juiz traiu descarada e repetidamente a constituição e o povo brasileiros. Ele deveria renunciar ou sofrer impeachment”, afirmou Musk. “Vergonha, Alexandre, vergonha”, disse marcando o perfil do ministro.

Ao comentar uma publicação de outro usuário, que postou uma foto de Moraes de toga — a tradicional vestimenta dos ministros da Suprema Corte — o bilionário o comparou ao vilão da série cinematográfica “Star Wars”, Darth Vader.

Regulamentação das redes sociais

Os comentários de Elon Musk sobre Alexandre de Moraes deram vida nova ao projeto de lei das Fake News, que foi retirado de pauta de uma sessão plenária da Câmara dos Deputados no ano passado e nunca mais voltou à pauta do Congresso. A proposta prevê responsabilizar as plataformas digitais pela publicação de discurso de ódio de seus usuários.

O relator da proposta, deputado Orlando Silva (PCdoB-SP)) rebateu uma fala do empresário Elon Musk e diz que pedirá ao presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL) para colocar o projeto novamente na pauta. “Chegamos ao limite! Agora Elon Musk sinaliza desrespeitar o Poder Judiciário. Vou sugerir ao presidente Arthur Lira pautar o PL 2630 e desenvolvermos o regime de responsabilidades dessas plataformas digitais. É uma resposta em defesa do Brasil”, afirmou o deputado.


Participe dos canais da Itatiaia:

Editor de política. Foi repórter no jornal O Tempo e no Portal R7 e atuou no Governo de Minas. Formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), tem MBA em Jornalismo de Dados pelo IDP.
Leia mais