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'É como se todo dia fosse 25 de janeiro': moradores relatam rotina em Brumadinho, cinco anos após tragédia

Adoecimento da população, chegada de forasteiros e aumento dos preços são consequência do rompimento da barragem, que completa cinco anos nesta quinta (25)

Barragem da Vale se rompeu em Brumadinho em 25 de janeiro de 2019

Barragem da Vale se rompeu em Brumadinho em 25 de janeiro de 2019

Itatiaia

Aumento de preços, novos moradores na cidade, mudanças na rotina e a dor de quem foi atingido direta ou indiretamente. Se às 12h28 do dia 25 de janeiro de 2019, a vida mudou para muita gente, os efeitos do rompimento da barragem da Vale no Córrego do Feijão, em Brumadinho, deixam marcas até hoje. A tragédia completa cinco anos nesta quinta-feira (25).

"É como se todo dia fosse 25 de janeiro, né? Estamos aí lutando, pedindo Justiça, todo dia 25 a gente vai lá orar e pedir a Deus para mandar Justiça. Mas está puxado”, confessa Malvina Nunes, de 66 anos, que perdeu o filho Peterson no desastre da Vale. Outras 269 pessoas, incluindo duas mulheres grávidas, também morreram naquele dia.

“Brumadinho mudou demais, as coisas estão caras, muitas gente de fora aqui dentro da cidade. A gente não conhece mais quem mora aqui”, completa.

“Mudou tudo. Eu não posso dizer que não tenha nada que não tenha mudado, sabe? A rotina de vida da população é outra. Não tem como uma barragem romper nessa proporção que foi aqui e a gente dizer que não aconteceu nada e que a cidade está como era antes”, recorda a moradora Kenya Paiva Lamounier, que perdeu o marido na tragédia.

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“Hoje em dia há uma exploração muito grande dos preços. Tudo aqui é muito mais caro, é uma procura muito grande por tudo na cidade. Aumentou a demanda e, inclusive, temos um receio com a questão da segurança pública. Também aumentou o adoecimento da população. Grande parte da população aqui tem ou conhece alguém que morreu vitimado nesse crime da Vale”, conta.

Autora de livros que contam a história de grandes tragédias do Brasil, a jornalista mineira Daniela Arbex reflete sobre o impacto de tragédias dessa magnitude.

“Essas pessoas foram arrancadas do seu lugar de origem com a raiz e tudo e quando alguém é arrancado do seu lugar de origem com a raiz e tudo você passa a ser de lugar nenhum. Essa é a herança mais brutal do rompimento da barragem de Brumadinho, condena-se as pessoas a ser de lugar nenhum, condena-se essas pessoas a escreverem histórias, filhos que estão escrevendo histórias sem terem construído memórias desses pais
Agora, elas são crianças, não entendem o impacto disso na vida deles, mas quando eles chegarem à idade adulta, vão perceber que eles cresceram sem direito a construir qualquer tipo de lembrança”, resume.

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Mineiro de Urucânia, na Zona da Mata. Jornalista pela Universidade Federal de Ouro Preto, onde segue como aluno no curso mestrado em Comunicação. Na Itatiaia desde 2016, faz reportagens diversas, com destaque para Política e Cidades. Comanda o PodTudo, programa de debate aos domingos à noite na Itatiaia.
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