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Eleições 2024: disputa nas capitais do Sudeste promete polarização entre lulistas e bolsonaristas

Confira o raio-X das disputas em Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Vitória

As eleições municipais de 2024 prometem reacender a polarização política da corrida presidencial de 2022, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) venceu o então candidato à reeleição Jair Bolsonaro (PL) por uma margem pequena de votos.

Embora nem sempre os candidatos mais destacados nas capitais do Sudeste integrem as fileiras de PT e PL, os confrontos entre direita e esquerda tendem a ser recorrentes. O cientista político Thiago Silame afirma que o cenário de polarização, devido à sua cristalização na sociedade, construiu identidades políticas e que isso deve impulsionar a permanência dessa característica na disputa ao pleito em 2024.

“O processo de se identificar a um campo político é algo que ultrapassa o momento eleitoral, marca padrões de consumo, relacionamentos e espaços sociais, configurando aquilo que chamamos de polarização afetiva. Lula e Bolsonaro serão os dois principais cabos eleitorais. Além disso, temos que observar se os padrões espaciais de votação se manterão com uma certa predominância do Bolsonarismo no Sul e Sudeste e a influência do PT, do Lulismo no Nordeste”, comenta.

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O PT - apesar de ter conquistado a cadeira na Presidência - vê o pleito de 2024 com muita cautela por ser o partido que sofreu as maiores perdas nas eleições municipais anteriores, em 2020. O partido não conseguiu eleger prefeito em nenhuma das capitais brasileiras algo que não acontecia desde a redemocratização e encerrou o ano com 183 prefeituras, o pior desempenho do partido desde 2000. O PT perdeu a liderança de 71 prefeituras, se compararmos os resultados de 2020 com a eleição anterior, em 2016.

Para tentar contornar esse cenário, petistas devem apostar em uma estratégia eleitoral pautada no retorno de Lula ao poder e sua maior presença nos cenários municipais do país, principalmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste. Silame comenta, ainda, que as estratégias devem ser avaliadas caso a caso, mas reconhece que o PT tem capacidade de se reerguer em 2024 devido à construção de uma estrutura partidária capilarizada em muitos municípios.

Já o PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, estabeleceu uma meta ambiciosa: conquistar 1.500 das 5.565 prefeituras de todo o país. No pleito de 2020, o PL elegeu 349 chefes de Executivo municipal, 52 a mais que em 2016, quando foram conquistadas 297 prefeituras. No entanto, é importante destacar que, apesar da relevância no número de cadeiras conquistadas no Brasil no último pleito, no G96 grupo que reúne as capitais do país e municípios com mais de 200 mil eleitores o PL conquistou o comando apenas de duas cidades do grupo.

A estratégia do PL deverá se apoiar no uso da imagem do Bolsonaro como vitrine do partido. Se, de um lado, colar na popularidade do ex-presidente pode ajudar a alavancar candidaturas em alguns municípios, por outro, pode afetar alianças com candidatos que queiram uma certa distância dele. Além disso, a figura da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro também será uma estratégia utilizada pelo partido para cativar o eleitorado feminino conservador no país.

Silame comenta que, a direita tem como tendência a pulverização em mais partidos e que as pautas de valores e costumes assim como segurança pública devem ser os pilares das campanhas dos candidatos de direita.

Veja como deve ser a disputa nas capitais do sudeste

Belo Horizonte

Na capital de Minas Gerais, já são cerca de 10 pré-candidatos que já se apresentaram como potenciais nomes para a disputa, o que a tornaria mais pulverizada. Apesar disso, a disputa PL x PT deve ser forte, uma vez que as duas legendas disputarão ao pleito. Por um lado, o deputado estadual Bruno Engler (PL) é aposta do partido e conta com o apoio de Bolsonaro para concorrer pela segunda vez à Prefeitura de Belo Horizonte. Em 2020, o deputado estadual ficou em segundo lugar, perdendo a cadeira para Alexandre Kalil (PSD), que renunciou ao cargo dois anos depois para concorrer ao governo do Estado. O senador Carlos Viana (Podemos), que também foi candidato ao Governo de Minas em 2022, também é um dos cotados para o pleito.

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No caso do PT, a aposta gira em torno do nome do deputado federal Rogério Correia (PT), cuja pré-candidatura foi lançada em dezembro. Há, ainda, outros nomes ligados ao campo da esquerda lançados, como a deputada federal Duda Salabert e a deputada estadual Bella Gonçalves (PSol). O atual prefeito Fuad Noman (PSD), que declarou apoio a Lula nas eleições passadas, deve ser candidato à reeleição, embora o partido não tenha batido o martelo sobre o assunto.

São Paulo

O Partido Liberal decidiu apoiar o atual prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), à reeleição. Segundo o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto, o vice da chapa será indicado por Bolsonaro. A decisão tira de cena o deputado federal Ricardo Salles (PL-SP), ministro do Meio Ambiente no governo anterior e que tinha apoiado da ala bolsonarista do partido. O PT, assim como o PL, não terá um candidato da legenda nas eleições municipais em São Paulo, algo inédito desde a criação do partido. No entanto, o partido deverá indicar o vice na chapa encabeçada pelo deputado federal Guilherme Boulos (PSol). A ex-prefeita de São Paulo Marta Suplicy deve se filiar novamente ao PT, mas pode ter que disputar a vaga com o ex-marido, Eduardo Suplicy, que hoje ocupa uma cadeira na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Rio de Janeiro

A influência de Lula e Bolsonaro também estará presente na disputa da capital fluminense. No caso do PT, é provável que a sigla apoie a reeleição de Eduardo Paes (PSD), em retribuição ao apoio do pessedista à candidatura de Lula nas eleições de 2022. Outros nomes da esquerda também se mobilizam: as deputadas estaduais Martha Rocha (PDT) e Dani Balbi (PCdoB), além de Tarcísio Motta, um dos fundadores do PSol fluminense.

Ao olhar do PL, a pré-candidatura do deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) é avaliada. O senador Carlos Portinho e o deputado Luiz Lima também seriam possíveis indicados da legenda. É importante destacar que o apoio de Bolsonaro pode ser decisivo para um resultado positivo para a sigla, uma vez que, o ex-presidente saiu vitorioso nas últimas eleições gerais com 52,6% dos votos no segundo turno contra Lula. O deputado federal Otoni de Paula (MDB) e o vereador Pedro Duarte (Novo) são os pré-candidatos que vão representar o campo conservador.

Vitória

A capital capixaba é outra, a exemplo de Belo Horizonte, que pode ter o enfrentamento direto entre PL e PT. Os bolsonaristas devem apostar no nome do deputado estadual Capitão Assumção (PL) que, em 2022, foi alvo de uma operação realizada pela Polícia Federal após ser declarado suspeito de mobilizar protestos em frente a quartéis após a derrota de Jair Bolsonaro. O PT planeja lançar na disputa o deputado estadual João Coser (PT), lançado como pré-candidato em outubro. Ele já foi prefeito de Vitória entre 2005 e 2012 e terá como principal desafio mobilizar a esquerda em prol da sua candidatura. A deputada estadual Camila Valadão é pré-candidata do Psol também será representante da esquerda ao pleito. PT e PL ainda terão o desafio de disputar com o atual prefeito de Vitória, Lorenzo Pazolini (Republicanos).

Repórter de Política Nacional e Internacional na rádio Itatiaia. Formada em Jornalismo pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pós-graduanda em Comunicação Governamental na PUC Minas. Sólida experiência no Legislativo e Executivo mineiro. Premiada na 7ª Olimpíada Nacional de História do Brasil da Universidade de Campinas.
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