Inelegível pelos próximos sete anos, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mantém influência sobre parte do eleitorado brasileiro, sobretudo no ano eleitoral de 2024. A conclusão é do professor do Departamento de Sociologia da UFMG e pesquisador político, Jorge Alexandre Neves.
Para o especialista, Bolsonaro conseguiu inaugurar, nos últimos anos, um movimento significativo à direita do espectro político, algo que o Brasil não via há muito tempo. E que, mesmo com a derrota nas eleições gerais de 2022, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) derrotou o candidato à reeleição, e com a inelegibilidade declarada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Bolsonaro se mantém relevante no cenário político eleitoral.
“Esse movimento não está morto. Em função disso e da capacidade de apelo popular que o movimento tem, isso se mantém forte. Ele se mantém com influência, apesar de ter perdido os direitos políticos, e o movimento de extrema-direita inaugurado por ele no Brasil se mantém relevante”, analisa o pesquisador.
Ainda de acordo com Alexandre Neves, desde a derrota nas eleições Bolsonaro mantém um comportamento “vacilante”, avançando e recuando em temas como as críticas ao sistema eleitoral, mas consegue se manter ativo na cena política. Prova disso foi sua participação na cerimônia de posse do presidente da Argentina, Javier Milei, no início do mês.
“Ele foi convidado e tratado como uma figura relevante, embora sem cargo e inelegível. Ele foi barrado ao tentar participar da foto com os chefes de Estado, que aí seria improcedente fazê-lo, mas foi tratado como figura política relevante”, diz o professor Jorge Alexandre Neves.
Nessa visita, Bolsonaro se reuniu com Milei na antevéspera da posse.
Eleições 2024
Para este ano, marcado pelas eleições municipais em todo o país, o professor avalia que, embora Bolsonaro mantenha sua influência sobre parte do eleitorado, há problemas em sua relação com o próprio partido, o PL.
“O fato de ele não ter conseguido criar um partido político para ele é algo que o enfraquece. Há conflitos muito significativos dele com o presidente do seu partido, o Valdemar [Costa Neto]. Eles têm divergências, o que o enfraquece um pouco na influência das eleições de 2024", analisa.
O professor cita, por exemplo, a disputa em São Paulo, maior capital do Brasil e que ainda não há martelo batido no campo da direita. Valdemar já defendeu publicamente o apoio à candidatura à reeleição do atual prefeito, Ricardo Nunes (MDB), mas a ala bolsonarista do partido quer que o ex-ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, seja o candidato da legenda.
“O atual prefeito fica em uma posição dúbia: ele quer o apoio dos bolsonaristas, mas não quer pagar o preço do desgaste de estar associado ao bolsonarismo”, completa.
Ainda sobre o pleito, o pesquisador Jorge Alexandre Neves avalia que as questões nacionais, marcada por uma polarização entre Lula e Bolsonaro, pode influenciar as eleições em algumas cidades. No entanto, em sua avaliação, as questões locais é que tem mais força na definição para os prefeitos.
“Acredito que essa nacionalização pode ocorrer, mas será limitada. Ao fim e ao cabo, as questões locais e administrativas vão se sobrepor”, encerra.