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Museu do Holocausto rebate fala de Nikolas Ferreira sobre nazismo: ‘Incapaz de relacionar eventos históricos’

Fala de deputado aconteceu em podcast, no final de 2022, mas voltou a repercutir nesta semana após André Janones denunciar ao MP

O Museu do Holocausto de Curitiba rebateu, em uma série de postagens nas redes socais na noite de segunda-feira (31), uma fala do deputado Nikolas Ferreira (PL) que citou piadas com o nazismo e com uma pessoa com síndrome de down para defender a liberdade de expressão.

A fala de Nikolas foi durante um podcast gravado no final de 2022, mas voltou a repercutir nesta semana quando o deputado André Janones (Avante) afirmou que iria denunciar no Ministério Público o outro deputado mineiro por “relativizar o holocausto e o nazismo”.

Na postagem, o Museu do Holocausto de Curitiba classifica a fala de Nikolas como cínica e deplorável. (Veja as postagens na íntegra logo abaixo)

“Em 2023, o Museu do Holocausto ainda precisa vir a público apontar equívocos e a gravidade de falas como a desse jovem deputado. Seu discurso vai além da discussão clássica sobre a liberdade de expressão - que, pela enésima vez, destacamos que não é plena e irrestrita”, diz o texto postado pelo Museu do Holocausto de Curitiba.

Fala em Podcast

Durante o podcast, Nikolas afirmou que parte da comunidade judaica defende até mesmo a liberdade de expressão de quem deseja negar a existência do holocausto - genocídio de mais de 6 milhões de judeus durante o regime nazista de Adolf Hitler.

“Tem gente que relata que existem judeus que não são contrários a uma tese que colocou como se o Holocausto fosse mentiroso. Aí, você pensa: pô, o Holocausto aconteceu. Vamos ficar falando que o Holocausto não aconteceu e ficar influenciando as pessoas? A própria comunidade judaica deu a autoridade do cara falar isso. Segundo eles, a liberdade de expressão é plena em uma sociedade que se autorregula não censurando as coisas, mas deixando que as coisas aconteçam e que pessoas consigam analisar que aquilo ali é absurdo”, disse Nikolas.

A reportagem da Itatiaia procurou o deputado Nikolas Ferreira para comentar as publicações do Museu do Holocausto, mas ele não retornou as ligações e sua assessoria não retornou.

Veja a postagem do Museu do Holocausto de Curitiba na íntegra:

“Em 2023, o Museu do Holocausto ainda precisa vir a público apontar equívocos e a gravidade de falas como a desse jovem deputado. Seu discurso vai além da discussão clássica sobre a liberdade de expressão - que, pela enésima vez, destacamos que não é plena e irrestrita.

Não vamos nos ater aos limites da liberdade de expressão, tema que já foi amplamente discutido aqui em outras ocasiões - inclusive em outro caso de repercussão midiática, ocorrido no ano passado.

A liberdade individual não é absoluta, e sim relativa. No caso específico do nazismo, o direito à vida se sobrepõe ao discurso deturpado e distorcido do que seria “liberdade de expressão”. O preconceito não é amparado pela liberdade de expressão.

Vale destacar que, dentre outros fatores, o que permitiu a ascensão do regime nazista foi justamente a conivência dos meios político e jurídico alemães com um partido que, desde sua fundação, deixava evidente suas ideias racistas.

No entanto, duas outras questões perturbadoras foram expressas na entrevista - ainda mais graves do que o caso Monark, em 2022. A primeira é a menção a um texto de Noam Chomsky, publicado como introdução a um livro do conhecido negacionista do Holocausto Robert Faurisson.

Em 1979, Chomsky assinou uma petição defendendo Faurisson em favor da “liberdade de expressão”. Após ser criticado, porém seguro de sua posição, escreveu este artigo que se tornou o prefácio do livro negacionista - o qual Chomsky reconheceu sequer ter lido.

Nesse livro, Faurisson negava, mais uma vez, a existência das câmaras de gás e afirmava que todos os depoimentos de nazistas e colaboradores, assim como “O Diário de Anne Frank”, haviam sido forjados.

O texto de Chomsky (“Some Elementary Comments on the Rights of Freedom of Expression”) foi amplamente usado para defender a “liberdade de expressão” de negacionistas do Holocausto. Além de repulsivo em si, o argumento busca se sustentar em alegações antissemitas e neonazistas.

Os argumentos de Chomsky foram prontamente rechaçados por pesquisadores e sobreviventes do Holocausto, dentre eles, Pierre Vidal-Naquet. Tal como Chomsky, Vidal-Naquet era um intelectual, judeu e de esquerda - além de sobrevivente do genocídio cometido pelos nazistas.

Assim escreveu Vidal-Naquet em seu livro “Os assassinos da memória”. : “considerando-se intocável, inacessível a crítica, inconsciente do que foi o nazismo na Europa (...), Chomsky acusa todos aqueles que se permitem ter uma opinião diferente da sua de liberticidas”.

Não sabemos as intenções do deputado ao usar um negacionista do Holocausto como exemplo de sua tese. Seria irresponsável ignorarmos o potencial de propagação dos pensamentos de Faurisson como legítimas e aceitáveis no debate de ideias.

A segunda questão incômoda é a forma como ele se refere à “comunidade judaica”. Se num primeiro momento ele fala que até judeus defendem o direito de negacionistas divulgarem suas ideias, depois utiliza esse termo para defender sua noção de liberdade de expressão.

Essa é uma alegação mentirosa por pretender associar um grupo heterogêneo em torno de uma posição única (rechaçada por entidades representativas dos judeus brasileiros, caso da @coniboficial , como se viu no caso Monark).

Além disso, o deputado usa uma “comunidade judaica” imaginada em sua cabeça e nas subculturas virtuais que ele frequenta como álibi para propagar ideias intolerantes e disfarçadas de “liberdade”. Ele cinicamente a utiliza para legitimar o argumento de “liberdade irrestrita”.

Incapaz de relacionar eventos históricos, o deputado utiliza autores negacionistas para justificar suas teses de “liberdade de expressão”. Ele as esconde atrás de um argumento conservador e busca legitimá-las por meio da “comunidade judaica”. Tudo isso é abjeto e deplorável”

Editor de Política. Formado em Comunicação Social pela PUC Minas e em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Já escreveu para os jornais Estado de Minas, O Tempo e Folha de S. Paulo.
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