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Gasolina cai apenas R$ 0,02 em um mês e governo suspeita de cartel no setor

Apesar do corte de R$ 0,17 por litro anunciado pela Petrobras no início de junho, o preço médio da gasolina comum no Brasil chegou a sofrer um aumento em Minas Gerais e no DF

Norte-americana teria conseguido obter, sem custos, mais de 7.400 galões de gasolina, avaliados em aproximadamente U$ 27.860, entre 2022 e 2023

Apesar do corte de R$ 0,17 por litro anunciado pela Petrobras no início de junho, o preço médio da gasolina comum no Brasil caiu apenas R$ 0,02 no período de um mês. Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) mostram que o litro passou de R$ 6,25 para R$ 6,23 entre os dias 1º de junho e 5 de julho de 2025 - uma redução tímida e muito aquém do esperado pelo governo federal.

A frustração chegou aos bastidores do Palácio do Planalto, onde o corte promovido pela Petrobras era visto como uma medida para aliviar o bolso do consumidor, conter pressões inflacionárias e, de quera, melhorar a imagem do governo. A estatal havia reduzido o valor do litro nas refinarias para R$ 2,85 no dia 3 de junho, mas os números mostram que o desconto evaporou no caminho até os postos.

Em vez de cair, os preços subiram em algumas regiões. Em Belo Horizonte, o litro da gasolina comum saltou de R$ 5,97 para R$ 6,36, uma alta de R$ 0,39. Em Minas Gerais como um todo, o aumento foi de R$ 6,06 para R$ 6,17. O mesmo aconteceu no Distrito Federal, segundo levantamento do Ministério de Minas e Energia (MME).

Governo aciona órgãos de fiscalização

Diante da disparidade, o governo reagiu. A Advocacia-Geral da União (AGU) acionou o Cade, a Polícia Federal, a Senacon e a Procuradoria Nacional da União de Patrimônio Público, pedindo investigações sobre práticas anticoncorrenciais nos setores de distribuição e revenda de combustíveis.

Além disso, o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, cobrou ação imediata dos órgãos de controle e fiscalização. Ele afirmou que não há justificativa razoável para o aumento nos preços e descartou as explicações apresentadas por representantes do setor, como alta no etanol anidro ou manutenção em dutos de abastecimento.

“Não aceitaremos distorções injustificadas que penalizam o povo brasileiro. Temos trabalhado para garantir uma redução real para os consumidores, e é inaceitável que essas práticas continuem a ocorrer”, declarou Silveira. O MME também acionou formalmente a Agência Nacional do Petróleo (ANP), o Procon-MG e o Procon-DF, para que adotem medidas e verifiquem a cadeia de formação de preços.

Repasses assimétricos

Estudos apresentados pelo Ministério de Minas e Energia apontam que distribuidoras e revendas costumam repassar integralmente os reajustes quando o preço sobe nas refinarias - e, muitas vezes, com aumentos superiores aos autorizados pela Petrobras. No entanto, quando os preços caem, o repasse ao consumidor é parcial ou simplesmente não acontece.

Esse comportamento, segundo o governo, pode configurar infração à ordem econômica e prática lesiva ao consumidor, favorecendo margens de lucro maiores para os intermediários da cadeia.

Entenda a formação do preço da gasolina

A Petrobras é responsável por apenas um terço do valor final da gasolina. O restante é composto por tributos federais e estaduais, custos com etanol anidro (misturado à gasolina) e margens de lucro de distribuidores e revendedores.

Como é formado o preço da gasolina no Brasil?

Preço médio nacional: R$ 6,23 por litro

ComponenteValor (R$)Participação (%)
🏭 Parcela PetrobrasR$ 2,0833,4%
💰 Imposto Estadual (ICMS)R$ 1,4723,6%
🏪 Distribuição e RevendaR$ 1,1718,8%
🌱 Etanol Anidro (mistura)R$ 0,8113,0%
🧾 Impostos FederaisR$ 0,7011,2%
🔒 Total ao consumidor:R$ 6,23100%

Com os dados em mãos e investigações em curso, o governo agora tenta pressionar o setor para garantir que os cortes feitos pela Petrobras cheguem, de fato, ao bolso do consumidor. Mas, por enquanto, a bomba continua pesada.

Outro lado

Em nota, o Minaspetro - sindicato que representa os postos de combustível em Minas Gerais - informou que os comerciantes são isentos do atual preço do combustível, atribuindo ao Estado o peso dos tributos sobre a gasolina. Confira na íntegra:

‘A cadeia produtora de combustíveis é complexa e composta de diversos elos, dentre eles distribuição, produção de etanol e frete, além do Estado brasileiro, que arrecada R$ 2,17 por litro da gasolina. Culpar a ponta final, os postos, é isentar os demais atores de responsabilidade sobre a formação final dos preços e enganar a população sobre quem realmente se beneficia com o alto valor da bomba’

Supervisor da Rádio Itatiaia em Brasília, atua na cobertura política dos Três Poderes. Mineiro formado pela PUC Minas, já teve passagens como repórter e apresentador por Rádio BandNews FM, Jornal Metro e O Tempo. Vencedor dos prêmios CDL de Jornalismo em 2021 e Amagis 2022 na categoria rádio