Engenheira relata falta de segurança na barragem em julgamento da tragédia de Brumadinho

Especialista reiterou que estudos contratados pela Vale detectaram que a barragem da Mina do Córrego do Feijão não atendiam aos critérios de segurança

TRF-6 receberá julgamentos da tragédia de Brumadinho até maio de 2027

O início da fase de audiências com testemunhas técnicas no julgamento do processo criminal pela tragédia de Brumadinho se deu nesta sexta-feira (13) com a oitiva da engenheira civil Maria Regina Moretti no Tribunal Regional Federal da 6ª Região (TRF-6), em Belo Horizonte. Por quase oito horas, ela respondeu aos questionamentos do Ministério Público Federal (MPF) e de advogados que atuam no por videoconferência e na condição de testemunha.

Moretti era consultora da Potamos, empresa que formou um consórcio junto a alemã Tüv Süd para analisar o risco de 23 barragens da Vale. O contrato incluía a análise da barragem da Mina do Córrego do Feijão, cujo rompimento em janeiro de 2019 matou 272 pessoas em Brumadinho, Região Central de Minas Gerais.

No depoimento, Moretti reiterou informações que ela já havia relatado em oportunidades como a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Assembleia Legislativa (ALMG) que apurou detalhes da tragédia.

A engenheira destacou que os estudos de probabilidade de ruína elaborados por sua equipe mostraram que a situação da barragem B1 da Vale em Brumadinho não atendia a critérios internacionais de segurança em relação ao risco de liquefação, forma de rompimento mais destruidor e o ocorrido em Brumadinho.

Moretti apontou que o índice ideal de segurança era de 1.3 e seus estudos chegaram ao número insuficiente de 1.06. Outra análise posterior chegou ao índice de 1.09, igualmente incapaz de atestar a segurança da estrutura.

Os estudos sobre a probabilidade de ruína faziam parte de uma análise mais ampla que buscava estabelecer um cálculo de risco monetizado. A ideia era mensurar os danos financeiros com o eventual colapso de estruturas. Moretti afirma que apenas fez parte dos estudos determinísticos de risco de rompimento da barragem.

A Potamos foi afastada dos trabalhos junto a Vale após não aceitar atestar, em 2017, a segurança da barragem, segundo Moretti. A própria engenheira disse que não voltou ao complexo da mineradora em Brumadinho após seus estudos atestarem o risco de rompimento da estrutura.

Como a audiência se estendeu por toda a tarde e entrou na noite de sexta-feira, o testemunho de Moretti foi suspenso por volta das 21h e será retomado na manhã do dia 23 de março.

A fase de instrução, quando são coletados depoimentos, dados e provas sobre o caso, foi iniciada no TRF-6 em fevereiro e tem 76 audiências previstas até maio de 2027.

Vale e Tüv Süd e 15 funcionários das empresas à época da tragédia são réus no processo por homicídio qualificado e crimes ambientais.

O ex-presidente da Vale, Fábio Schvartsman, chegou a ser denunciado originalmente, mas teve a ação penal trancada pelo TRF-6. O MPF recorre contra a decisão no Superior Tribunal de Justiça (STJ).

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Repórter de política da Itatiaia, é jornalista formado pela UFMG com graduação também em Relações Públicas. Foi repórter de cidades no Hoje em Dia. No jornal Estado de Minas, trabalhou na editoria de Política com contribuições para a coluna do caderno e para o suplemento de literatura.

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