Revistas.
Elas podem ser definidas como símbolo de conteúdos editados a partir de uma engenharia única, diferente daquela exigida pelo sentido de urgência dos jornais diários ou dos noticiários ansiosos do rádio e da televisão. E um contraste ainda maior em relação ao tempo real do tráfego pela internet.
Operando com prazos mais elásticos, as revistas têm podido lapidar seus textos a partir de narrativas mais envolventes, capazes de informar com o apoio de elementos visuais que valorizam o binômio forma/conteúdo por meio de fotografias marcantes, gráficos comparativos e quadros didáticos.
Desde o início deste século 21, um ambiente digital cada vez mais amplo e amigável passou a produzir enorme quantidade de notícias, comentários e opiniões de diferentes níveis de relevância e qualidade. De um lado, essa avalanche alcança desde as informações seriamente apuradas e editadas até, em outro extremo, os palpites infundados, as agressões injustificáveis e as danosas fake news.
Jornais tiveram que se adaptar a esse novo cenário, mas no caso das revistas (semanais, quinzenais ou, risco maior ainda, mensais) o desafio foi ainda mais significativo. Afinal, a versão digital de uma revista pode representar vetor ainda mais decisivo de canibalização de sua versão original em comparação com as publicações diárias.
Esse contexto fez com que a instituição revista e o ritmo inerente a sua própria essência tivessem que se adaptar de forma radical, quase numa luta de vida ou morte. Algumas publicações conseguiram transpor obstáculos e manter seu DNA com um pé no impresso e outro no digital, enquanto outras simplesmente migraram totalmente para o ambiente web. Outras ainda simplesmente não encontraram um novo caminho e saíram de circulação, seja devido a melhores soluções encontradas por antigos competidores ou a novos players nascidos e talhados para o figurino das telas de computadores, tablets e celulares.
Nos Estados Unidos, ilustram bem essa mudança Time e Newsweek, duas publicações semanais rivais de importância internacional que embora continuem existindo perderam muito da relevância usufruída nas últimas décadas do século 20. Ao mesmo tempo, vindas ao mundo já no século 21 e desde sempre robustas no cenário digital, ganharam protagonismo e leitores nomes como Wired (cobertura que mescla temas de tecnologia, política, tendências e cultura);
Business Insider (foco em negócios, finanças e temas corporativos); Político (nome autoexplicativo). O mesmo resultado foi obtido por plataformas de conteúdo como Substack e Medium, que abrem espaço para jornalistas freelancers, autores independentes, analistas e blogueiros.
Os exemplos acima são apenas alguns entre muitos outros de novos entrantes que mudaram a regra do jogo em um oceano editorial onde as revistas, em outros tempos, navegavam tranquilamente por rotas conhecidas e seguras.
A regra de exaurir a antiga influência das revistas avançou mundo afora. Mas como toda regra tem exceção, um nome continuou intocado e brilhou especialmente em 2025: The New Yorker, que comemorou seu centenário com conteúdos especiais em diferentes edições durante o ano e ganhou um excelente documentário na Netflix, onde são mostrados detalhes da jornada iniciada em 1925.
Apesar de amplamente consolidada também na sua versão digital, a tradicional edição impressa semanal continua exibindo jornalismo de primeira qualidade aliado ao sucesso comercial. Todas as suas capas expressam o mesmo nível de inteligência de cada uma de suas páginas, que abrigam grandes reportagens, notas curtas com menções às últimas trends & vibes de uma Nova York sempre dinâmica, além dos melhores cartoons da imprensa mundial.
A receita do sucesso: comportamento, política, cinema, literatura, crítica cultural e humor. Tudo isso junto e misturado, de forma balanceada e criativa, servido em porções pertinentes num processo editorial que se assemelha ao trabalho meticuloso de um chef de cuisine ousado e experiente aplaudido a cada refeição.
Ao longo de um século The New Yorker refletiu a densidade cosmopolita por meio de conteúdos meticulosamente apurados e editados.
Prova de que se tornou, mais do que referência em jornalismo contemporâneo de olhar globalizado, um verdadeiro ícone são as menções expressas de seu nome em séries consagradas mundialmente tais como Mad Men, Friends, Sex and the City, Seinfeld, How I Met Your Mother e Sucession.
Neste um século de existência The New Yorker teve apenas cinco editores-chefes, sendo o atual David Remnick, que ocupa a posição desde 1998 e mantém a régua nas alturas.
Eustace Tilley é o nome de um personagem que apareceu na primeira edição em 1925 e acabaria ajudando a cultivar a própria identidade da revista. Trata-se do desenho de um dândi de monóculo que volta a cada edição de aniversário, além de fazer discretas aparições eventuais em edições digitais.
A publicação acumulou textos e coberturas históricas. Foi lá que Truman Capote veiculou, em quatro capítulos, seu famoso “A Sangue Frio”, romance que depois se
transformaria em livro e filme de sucesso mundial. Mais surpreendente ainda foi a decisão da revista de dedicar uma edição inteira à reportagem de fôlego intitulada “Hiroshima”. Escrita em 1946 por John Hersey, seu conteúdo surpreendeu o público americano quando apresentado aos detalhes dos horrores decorrentes das duas bombas atômicas despejadas pelos Estados Unidos sobre o Japão ao final da Segunda Guerra mundial. E foi a serviço da revista que a historiadora e filósofa Hannah Arendt escreveu sobre o julgamento do criminoso nazista Adolf Eichmann, capturado em 1960 depois de anos escondido na Argentina e levado para Israel, onde foi julgado e sentenciado à morte.
The New Yorker foi fundada pelo lendário editor Harold Ross e sua esposa jornalista Jane Grant, depois de o casal conseguir 25 mil dólares (uma pequena fortuna, na época) de um rico investidor. Diz a lenda que logo após o lançamento Ross perdeu 20 mil dólares num jogo de pôquer. Apesar do início incerto e depois de anos costurando rigor jornalístico com boa dose de sofisticação intelectual e um charme imbatível, estava pavimentado o caminho para a merecida consagração.
Por seu protagonismo e trajetória única, The New Yorker bem que merecia ser conhecida pelo título de uma de suas seções semanais: “The Talk of the Town”. Ou, em uma tradução livre: o assunto da cidade.