Ciro Dias Reis | Lideranças globais acreditam que as incertezas vieram para ficar

Mudanças políticas e econômicas interligadas fazem de 2026 o marco inicial de um novo cenário de competição global, onde mecanismos de cooperação e foros de multilateralismo foram esvaziados ou suprimidos

Cenário global

Todo mês de janeiro o World Economic Forum reúne em Davos, na Suíça, personagens de primeira linha dos ambientes político, empresarial e acadêmico para discutir as grandes questões internacionais do momento. Paralelamente, divulga seu Global Risks Perception Survey (GRPS), um balanço dos principais riscos e ameaças globais na opinião de lideranças e tomadores de decisão em diferentes setores e países.

O resultado do relatório deste ano é marcado pela percepção de que as incertezas vão predominar não apenas em 2026 mas também em períodos subsequentes.

Os participantes da pesquisa GRPS avaliaram negativamente as perspectivas globais de curto e longo prazos. 50% deles estão prevendo um cenário turbulento nos próximos dois anos, percentual que vai a 57% no caso de previsão para os próximos 10 anos.

Um pouco menos pessimistas, 40% e 32% definem como instável o panorama global provável nos prazos de dois e dez anos, respectivamente. E apenas 1% acredita em um cenário tranquilo em ambos os intervalos de tempo.

Mudanças políticas e econômicas interligadas fazem de 2026 o marco inicial de um novo cenário de competição global, onde mecanismos de cooperação e foros de multilateralismo foram esvaziados ou suprimidos. Isso tem gerado instabilidade e um ambiente em que colaboração e confiança entre países e governos deu lugar a confrontações e disputas.

O embate geoeconômico é uma das principais preocupações dos entrevistados, sendo que 18% deles apontaram esse risco como fator mais provável para desencadear uma crise global significativa. O segundo maior temor é a possibilidade de novos conflitos armados, variável citada por outros 14% dos entrevistados.

O mundo vem assistindo a rivalidades crescentes, cadeias de abastecimento instáveis desde a pandemia da Covid-19 e conflitos prolongados de impacto e repercussão amplos. Isso contribui para fragilizar governos e estruturas políticas tradicionais.

Ao mesmo tempo, o confronto geoeconômico representado por tarifas, sanções e retaliações ameaça o ambiente de negócios global consolidado ao longo das últimas década, o qual permitiu uma consistente expansão da atividade produtiva mundial.

Outros elementos no radar de preocupações dos especialistas ouvidos pelo GRPS são: uma eventual recessão; o crescimento da inflação; sustentabilidade das dívidas de um grande número de países; possíveis bolhas econômicas representadas por investimentos excessivos em segmentos específicos, tais como inteligência artificial. Mais: fake news e processos variados de desinformação; polarizações sociais e políticas; multiplicação de eventos climáticos extremos.

Portanto, mais do que nunca lideranças globais e tomadores de decisão irão caminhar sobre uma linha fina ao longo dos próximos anos, em um ambiente de riscos potenciais capazes de impactar o ambiente de negócios de diferentes maneiras. Nesse contexto a busca de alternativas inclui a discussão de novos acordos, parcerias e modelos de negócios em nível internacional.

Outro aspecto sensível do cenário global de incertezas e confrontações diz respeito ao rápido crescimento dos gastos militares em diferentes geografias, que está alcançando cifras recordes.

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Ciro é atualmente board member da International Communications Consultancy Organization (ICCO) sediada em Londres; membro do Copenhaguen Institute for Futures Studies, na Dinamarca; membro do Crisis Communications Think Tank da Universidade da Georgia (EUA). Atua ainda como coordenador do PROI Latam Squad, grupo de agências de comunicação presente em sete países da América Latina.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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