Ciro Dias Reis | O negócio do futebol exige permanente melhoria na gestão

Flamengo bateu seu próprio recorde na temporada de 2025, com faturamento equivalente a 380 milhões de dólares

Flamengo faturou R$ 1,8 bilhão em 2025

O Real Madrid foi o primeiro clube do mundo a faturar 1 bilhão de dólares em uma única temporada (2023/2024).

Por sua vez, o Flamengo bateu seu próprio recorde na temporada de 2025, com faturamento equivalente a 380 milhões de dólares (R$ 1,8 bilhão) favorecido pelas premiações das conquistas do campeonato brasileiro e da Libertadores da América.

A Champions League, sozinha, produz um impacto econômico que se aproxima de 5 bilhões de dólares (R$ 26,2 bilhões) a cada edição, enquanto a Copa do Mundo de 2026 a ser realizada nos Estados Unidos, Canadá e México este ano pode gerar recursos em torno de 40 bilhões de dólares (R$ 210 bilhões) para os três países (valor resultante dos ingressos, transmissões ao vivo, serviços de transporte, hospedagem, alimentação e lazer dos fãs do esporte nas 16 cidades sede).

São números que mostram o lado business do esporte mais praticado no planeta, que tem levado a uma constante sofisticação dos processos de gestão de clubes e entidades que os representam.

Assim como as ações cotadas em bolsa conferem às empresas determinado status e nível de reconhecimento, uma análise detalhada das condições dos clubes de futebol apontam para seu valor de mercado estimado.

Os recentes sucessos do Flamengo fazem com que ele lideres o ranking dos brasileiros, estando avaliado em R$ 5,096 bilhões, segundo a consultoria especializada Sports Value. Ele é seguido pelo Palmeiras, com R$ 4,395 bilhões; Corinthians (R$ 3,971 bilhões); Clube Atlético Mineiro (R$ 3,373 bilhões) e São Paulo (R$ 3,244 bilhões) fechando os top 5.

Da sexta à 15ª. posição aparecem, pela ordem: Botafogo, Cruzeiro, Internacional; Athletico (PR); Fluminense; Grêmio; Bahia; Red Bull Bragantino; Vasco da Gama; Santos.

Mas como essa avalição é feita? Os critérios são vários e vão da liquidez (dinheiro e aplicações financeiras) ao imobilizado (estádio, centro de treinamentos e outros ativos), passando pelo tamanho da torcida, potencial do mercado consumidor do clube (títulos associativos e produtos com a marca do clube). Sem esquecer, evidentemente, dos valores relativos aos próprios jogadores e do potencial esportivo (investimentos em uma estrutura profissionalizada e nos jovens talentos de bom potencial de venda a outras agremiações). Por último, mas não menos importante, contam também as receitas garantidas, como as proporcionadas pelos direitos de transmissão dos jogos.

Assim como o déficit público e os compromissos financeiros oficiais trazem preocupações nos círculos econômicos e políticos de qualquer país, as perdas e o endividamento crescente dos clubes brasileiros acendem um sinal de alerta no ecossistema da bola, expondo as fragilidades das agremiações que colocam em risco suas jornadas e campanhas à frente.

O controle concreto do endividamento líquido dos clubes é um procedimento básico para garantir sua saúde financeira, mas a maioria deles não atinge esse objetivo. Com receitas abaixo do necessário para financiar sua operação, frequentemente acabam dependendo da venda de talentos para fazer caixa e honrar compromissos. Mesmo assim, em muitos casos, numa flagrante contradição, fazem contratações duvidosas e se comprometem a pagar salários desproporcionais.

Destinado a colocar um pouco de ordem nessa casa, o chamado Fair Play Financeiro (Sistema de Sustentabilidade Financeira) apresentado pela CBF no ano passado terá uma primeira fase educacional, por assim dizer, privilegiando esforços no sentido de apoiar os clubes a rever e otimizar processos de gestão. Com isso espera-se chegar a um equilíbrio operacional até 2028 dos times das séries A e B. Na sequência, será iniciada a implementação propriamente dita, de forma gradual.

Em 2029 o Fair Play Financeiro finalmente entrará em campo para valer.

Pontos principais do sistema são: fiscalização e monitoramento das finanças dos clubes por parte da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol, além de monitoramento das dívidas de curto prazo. É uma espécie de VAR capaz de definir o que deve e o que não deve valer.

Com o objetivo declarado de impedir que os clubes gastem mais do que arrecadam, o Fair Play Financeiro permitirá punições progressivas aos infratores quando estiver efetivamente em vigor. Essas punições começaram nas simples advertências, mas poderão evoluir para o veto a novas contratações (transfer ban) e chegar até a perda de pontos e o rebaixamento de série.

Em outras palavras, o cartão amarelo de orientação e advertência do período inicial vai exigir uma grande adaptação da maioria dos clubes brasileiros, em geral vivendo longas temporadas de sufoco financeiro. E adaptar-se será inevitável para aqueles que pretendem evitar o cartão vermelho.

No ano passado a Uefa, entidade que comanda o futebol europeu, puniu com pesadas multas alguns times conhecidos pelo alto desempenho em campo mas que viraram notícia por infringirem as regras do Fair Play financeiro do continente. Barcelona, Chelsea e Lyon fizeram acordo para pagar o equivalente a R$ 270 milhões por gestão inadequada nas temporadas de 2023 e 2024.

Em todos os casos, além de pagar multa os clubes se comprometeram a comprovar melhoria no desempenho financeiro. Caso não cumpram o compromisso o risco é ainda maior: eles podem ver proibidas as inscrições de jogadores em torneios da entidade.

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Ciro é atualmente board member da International Communications Consultancy Organization (ICCO) sediada em Londres; membro do Copenhaguen Institute for Futures Studies, na Dinamarca; membro do Crisis Communications Think Tank da Universidade da Georgia (EUA). Atua ainda como coordenador do PROI Latam Squad, grupo de agências de comunicação presente em sete países da América Latina.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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