Ciro Dias Reis | Consumo de energia dispara e investimentos superam US$ 3 trilhões

Brasil, assim como os países escandinavos, está no topo do seleto grupo de países onde prevalecem as fontes limpas em suas respectivas matrizes energéticas

Brasil, assim como os países escandinavos, está no topo do seleto grupo de países onde prevalecem as fontes limpas em suas respectivas matrizes energéticas

Apesar de obstáculos recentes, as fontes de baixo carbono continuam avançando e já representam mais 40% da energia produzida no mundo todo, devendo chegar a 43% até 2030. A participação atual é garantida principalmente pelas hidrelétricas (15%), alternativas solar e eólica (juntas, outros 15%), ficando os restantes 10% por conta das usinas nucleares.

O Brasil, assim como os países escandinavos, está no topo do seleto grupo de países onde prevalecem as fontes limpas em suas respectivas matrizes energéticas. No caso brasileiro, graças as suas hidrelétricas, mesmo caso da Noruega. No caso da Dinamarca o principal vetor é a energia eólica, enquanto na Suécia predomina uma combinação de hidrelétricas, parques eólicos e biomassa.

São exemplos de como é preciso, cada vez mais, buscar caminhos que façam sentido não apenas no aspecto ambiental mas também do ponto de vista econômico, de acordo com contextos específicos.

Os Estados Unidos avançaram bastante nesta década para implantar novos projetos de energia limpa mas, sabidamente, o país assiste a um desmonte de esforços naquela direção. O presidente Donald Trump tem atuado diretamente para bloquear novos parques eólicos offshore ao mesmo tempo em que incentiva a produção de petróleo com ações concretas e slogans como “Drill, baby, drill”, que defendem a perfuração de poços para ampliação da produção de combustíveis fósseis.

“Por que estamos acabando com os parques eólicos que estão sendo construídos na costa dos Estados Unidos?”, perguntou o entrevistador David Rubenstein da Bloomberg Television ao ex-vice presidente americano Al Gore esta semana em Davos, na Suiça. Resposta: “Porque Trump é louco”. E lembrou que as fontes solar e eólica são as mais baratas para gerar eletricidade.

Donald Trump sofreu alguns reveses em sua campanha contra a implantação de novos parques eólicos, é verdade. Juízes permitiram que os estados de Nova York, Rhode Island e Virgínia retomassem a construção daquelas instalações, mas ainda existe a possibilidade de o presidente americano virar o jogo uma vez que aquelas decisões são provisórias. Ele alega que tais projetos representam riscos à segurança nacional, embora não explique as razões dessa abordagem.

O fato é que em um cenário global polarizado mesmo a questão energética ganhou um viés político, embora isso não faça muito sentido.

A Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que a demanda global crescerá dramaticamente nos próximos anos em função da inteligência artificial (que requer data centers cada vez mais poderosos e devoradores de energia), do avanço dos carros elétricos e multiplicação dos equipamentos de ar condicionado.

Altos investimentos estão acompanhando essa escalada: em 2025 os recursos destinados ao setor energético de forma geral, em todo o mundo, se situaram no patamar de 3,3 trilhões de dólares. Desse total, 2,2 trilhões foram canalizados coletivamente a energias renováveis, energia nuclear, redes de distribuição, armazenamento, combustíveis de baixas emissões, eficiência energética e eletrificação. Investimentos em fontes fósseis (petróleo, gás natural e carvão) bateram 1,1 trilhão de dólares.

A combinação de várias fontes geradoras mostra-se o caminho mais sensato nessa jornada planetária de crescimento da geração e da distribuição de energia. Nos próximos anos, além das alternativas renováveis, caberá ao gás natural e a novos modelos de usinas nucleares de menor porte um papel importante no esforço de ampliação do fornecimento de energia.

Petróleo e o gás continuarão sendo amplamente utilizados por muitos anos, mas as energias renováveis continuarão crescendo apesar de desafios como os atualmente enfrentados nos Estados Unidos.

País com a maior população do mundo (mais de 1,4 bilhão de habitantes) a Índia compatibiliza o crescimento econômico que a colocou entre as cinco maiores economias do planeta com o aumento expressivo da geração de energia. Nesse esforço, os sistemas ide geração solar de alta qualidade têm sido uma contribuição essencial.

Mas novas tecnologias têm indicado caminhos interessantes, como o potencial da energia geotérmica de próxima geração. Até mesmo a utilização de algas marinhas está avançando a partir de primeiros experimentos: elas são consideradas alternativa promissora de fonte de energia renovável, convertendo de forma eficiente a luz solar em óleos ricos em energia e biomassa através da fotossíntese, produzindo biocombustíveis (biodiesel, bioetanol).

Mas é a energia nuclear que se destaca no curto-médio prazo como destaque especial. Temida e condenada fortemente depois que acidentes sucessivos (por diferentes motivos) ocorreram em usinas de diferentes países a partir dos anos 1980 ela está dando a volta por cima. Em novo formato e gerando mais eletricidade do que nunca. Atualmente, mais de 70 gigawatts de capacidade nuclear nova estão a caminho, e isso é resultado principalmente da demanda dos data centers. A favor da opção nuclear está o fato de que ela proporciona fornecimento contínuo com nível baixíssimo de emissões.

A China foi responsável por mais da metade do crescimento da demanda global por petróleo, gás e eletricidade desde 2010 até 2024. Mas esse quadro começou a mudar à medida que diversas economias emergentes ampliam seu consumo de forma constante. É o caso de Índia e países do Sudeste Asiático como Vietnã, além nações do Oriente Médio que se modernizam (como Arábia Saudita), e nações da América Latina e da África.

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Ciro é atualmente board member da International Communications Consultancy Organization (ICCO) sediada em Londres; membro do Copenhaguen Institute for Futures Studies, na Dinamarca; membro do Crisis Communications Think Tank da Universidade da Georgia (EUA). Atua ainda como coordenador do PROI Latam Squad, grupo de agências de comunicação presente em sete países da América Latina.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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