Fabiana de Lemos | Caso Adriana Araújo: um olhar técnico

A ruptura do aneurisma cerebral pode ser evitada; se há história familiar, o paciente deve investigar e acompanhar com neurologista

A cantora Adriana Araújo morreu de aneurisma cerebral, no dia 2 de março, em BH

Sem dúvida, a perda da sambista mineira Adriana Araújo foi dramática e triste, por ser precoce. Iguais à dela, outras milhares de mortes acontecem, por ano, no Brasil. O cenário mais comum é o de mulheres, entre 20 a 60 anos, fumantes e hipertensas.

A questão é que a morte por aneurisma cerebral pode ser evitada, em alguns casos. Para isso, basta ter bom conhecimento da história familiar, atenção aos sintomas de alerta e acesso adequado à avaliação da saúde.

O grande problema é que, na maioria das vezes, essa doença não apresenta qualquer sintoma, até se tornar um risco iminente de morte – quando se rompe, gerando uma hemorragia grave, denominada subarcnoidea. Por isso, identificar o aneurisma, precocemente, pode ser a única saída.

Qual frequência na população?

Cerca de 2% das pessoas têm aneurisma cerebral, não roto. O rompimento ocorre em 6 a 10 casos por 100.000 habitantes e provoca a morte de 30% a 40% dos pacientes. Estudos demonstram maior risco entre as mulheres, de 30 a 60 anos, fumantes e hipertensas.

E o que é essa doença?

Trata-se de uma dilatação atípica na parede enfraquecida de uma artéria do cérebro. Na região, forma-se uma espécie de “balão” de sangue, que pode crescer e se tornar gradativamente mais frágil, podendo romper-se. Envolve importante fator genético.

Distribuição mais frequente

Existem aneurismas em diversas partes do corpo, como nos vasos do coração, do abdome. No cérebro, ocorre nas seguintes localizações:

  • Artéria comunicante anterior (mais comum: 30% a 35%);
  • Artéria comunicante posterior (20% a 25%) (pode dar sintomas, se acomete o nervo oculomotor);
  • Artéria cerebral média (20%);
  • Artéria basilar (menos comum).

Quais são os sintomas?

Em grande parte dos casos, não há pistas. Já em outros, o paciente pode apresentar alterações. Quando o aneurisma cresce e comprime alguns nervos cranianos, como o oculomotor (mais comum); o óptico; o abducente; o troclear; o trigêmeo (mais raro), há sintomas como:

  • Queda da pálpebra, visão dupla, pupila dilatada, olho desviado para fora e para baixo;
  • Perda de campo visual, visão borrada;
  • Dificuldade de olhar para fora; visão dupla horizontal;
  • Dificuldade de olhar para baixo, visão dupla vertical;
  • Dor facial, formigamento na face; perda de sensibilidade facial.

Sintomas de alerta, antes do rompimento: cefaleia sentinela

Alguns pacientes têm sorte de apresentar a cefaleia sentinela, que é um pequeno vazamento de sangue local. Costuma ocorrer até uma semana antes do episódio grave e, possivelmente, fatal.

É uma dor de cabeça súbita, que se torna máxima em segundos; muito intensa; com início após esforço físico, como atividade física ou relação sexual; diferentemente de possíveis dores habituais. Pode vir acompanhada de náusea, vômito, rigidez no pescoço, sensibilidade à luz.

Pode ser confundida com outros tipos de dores de cabeça, como a enxaqueca, que tem algumas dessas características. Para diferenciá-la, os médicos sugerem ao paciente observar se é a “pior dor que já teve” ou se é “diferente e mais intensa que as anteriores”.

Descobrir antes da ruptura: prevenção

É possível investigar a existência da doença, em situações especiais. Quando o paciente tem dois ou mais familiares, de primeiro grau, com história de aneurisma cerebral, o neurologista deverá solicitar um exame de imagem, como a angio-ressonância do cérebro, ou outros.

Achou um aneurisma, o que fazer?

O especialista irá classificar o risco de rompimento. Usará informações, tais como tamanho, localização, irregularidade da parede do aneurisma, além de verificar fatores de risco individuais – como hipertensão, tabagismo e morte familiar por aneurisma.

A partir dessa avaliação, o médico definirá os próximos passos. Em alguns casos, fará exames rotineiros para acompanhar o crescimento do aneurisma cerebral, em outros, irá propor cirurgia.

Bênçãos aos familiares de Adriana Araújo e de tantos outros pacientes, na mesma situação.

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Fabiana de Lemos é jornalista e médica. Membro da Sociedade Brasileira de Clínica Médica. Trabalhou no Caderno Gerais do Jornal Estado de Minas, de 1997 a 2003. Foi concursada da Prefeitura de Belo Horizonte e atuou como médica no SUS, de 2012 a 2018. Foi professora de Medicina pelo UniBH, até 2023. Atualmente, atende em consultório.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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