Escorregões na comunicação pública geram desgaste de imagem

Escorregada da vez foi a decisão do Governo de aumentar o imposto de importação sobre 15 itens de informática e telecomunicações

Escorregada da vez foi a decisão do Governo de aumentar o imposto de importação sobre 15 itens de informática e telecomunicações

Nos oito anos em que chefiou o Ministério da Fazenda, nos dois mandatos do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, entre 1995 e 2002, o economista Pedro Malan foi acompanhado com um quase enfado por parte dos jornalistas encarregados da cobertura do governo federal.

A razão: com o Plano Real já consolidado e regras bem estabelecidas no ambiente macroeconômico os seus discursos, entrevistas e apresentações públicas eram marcados pela ênfase na lógica das decisões já tomadas e nos benefícios dela decorrentes. Além disso, naquelas ocasiões sempre ficava clara a sinalização para a opinião pública e os agentes econômicos de que não se deveria esperar daquele governo anúncios mirabolantes ou ideias surpreendentemente disruptivas na área econômica.

Em outras palavras, a mensagem era de garantia de previsibilidade e que esta seria sempre um pilar fundamental para a manutenção da confiança na gestão federal.

Sem entrar em juízos de valores sobre uma ou outra administração, faço esses comentários por conta de um evidente contraste daquela abordagem em relação a ações recentes do governo federal. A gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva voltou a trafegar por sinuosos e traiçoeiros caminhos e atalhos no campo da comunicação, causando surpresas e desconfortos sem que esteja plenamente preparado para enfrentar reações e resistências.

A escorregada da vez foi a decisão de aumentar o imposto de importação sobre 15 itens de informática e telecomunicações, incluindo smartphones, notebooks, placas-mãe, roteadores, mouses, memórias e CPUs.

Entidades do setor de tecnologia e máquinas protestaram: tarifa maior impactaria investimentos, pressionaria cadeias produtivas e poderia gerar inflação, argumentaram. Diante das repercussões negativas e de olho nas oscilações na popularidade do governo em pleno ano eleitoral, cancelou-se a decisão.

O governo deixou assim de ganhar estimados R$ 14 bilhões de arrecadação adicional que viriam com a nova taxação. E ainda manteve as alíquotas para os 15 itens mais sensíveis e zerou por 120 dias, a tarifa de importação de 105 bens de capital, informática e telecomunicações.

Assim, Brasília gerou muito ruído para ganhar apenas desgaste.

Mas o caso não foi exceção.

Em janeiro do ano passado, o governo pretendia anunciar o início da fiscalização das operações por Pix acima de R$ 5 mil entre pessoas físicas, da mesma maneira como há tempos fiscaliza depósitos em conta corrente visando identificar operações suspeitas ou ilícitas. Boatos e fake news multiplicaram a mentirosa versão de que o governo estaria iniciando a taxação das operações desse mecanismo financeiro, adotado com sucesso por 170 milhões de brasileiros.

Brasília teve enorme dor de cabeça para desmentir a desinformação e, sem uma boa lição de casa na modelagem do anúncio da medida original, preferiu deixar o dito pelo não dito.

E o que prevaleceu, para boa parcela da população brasileira, foi que a percepção equivocada de que o governo teria recuado de uma suposta taxação como resultado da reação da opinião pública, quando na verdade voltara atrás em uma iniciativa de fiscalização do Pix.

Em maio de 2025 novo desafio na pasta do ministro Fernando Haddad: administrar a repercussão negativa do explosivo tema do aumento do IOF, decisão que surpreendeu até mesmo integrantes do governo e que passou a ser imediatamente bombardeada a partir de várias direções.

E, de novo, o que se viu foi um processo desengonçado para assunto tão relevante e complexo. A estratégia do governo era aumentar o IOF para tentar atingir as metas fiscais do ano passado e de 2026, e depois de discussões que acabaram envolvendo o próprio STF a alta do imposto foi confirmada em julho. Neste caso, o governo ganhou a parada, mas também angariou reações negativas do empresariado e de muitos eleitores.

São três casos recentes que demonstram os riscos de posicionamentos oficiais permeados por fragilidades e falhas na comunicação que levaram a recuos ou embates desconfortáveis, os quais, numa corrida presidencial, serão lembrados pela oposição e usados como munição.

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Ciro é atualmente board member da International Communications Consultancy Organization (ICCO) sediada em Londres; membro do Copenhaguen Institute for Futures Studies, na Dinamarca; membro do Crisis Communications Think Tank da Universidade da Georgia (EUA). Atua ainda como coordenador do PROI Latam Squad, grupo de agências de comunicação presente em sete países da América Latina.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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