O setor de Alimentos e Bebidas (A&B, ou F&B na versão original em inglês) opera a partir de múltiplos tentáculos e movimenta em todo o mundo recursos da ordem de 5,9 trilhões dólares por ano, cerca de duas vezes e meia o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil.
Segundo a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (Abia) o faturamento da indústria de alimentos e bebidas no país supera R$ 1 trilhão por ano, sendo Minas Gerais sozinho responsável por cerca de 10% daquele total (algo como 12% do PIB do estado).
Por definição, A&B pressupõe um amplo leque de atividades que inclui produção, distribuição e venda, abastecendo diferentes nichos do mercado: bares, restaurantes, serviços de buffet, catering, supermercados e outras categorias do varejo.
O sucesso de players nesse universo econômico depende de uma sintonia fina em relação a um consumidor sempre beneficiado pela permanente multiplicação de opções, e cujo veredicto costuma ser definitivo para determinar a longevidade de um produto ou serviço, ou mesmo de um estabelecimento. É o consumidor que dita se aquele será um modismo de fôlego curto ou, ao contrário, uma iniciativa capaz de conquistar definitivamente corações, mentes e paladares.
Como paulistano da gema e adepto das longas horas à mesa, pensei em todas essas variáveis após voltar, dias atrás, de minha terceira viagem a Minas Gerais em menos de um ano. Naquelas três ocasiões pude experimentar diversas alternativas, deixando um pouco de lado itens tradicionais da cozinha regional tais como tutu de feijão, frango com quiabo e torresmo.
Em resumo, no prato e no copo pude mergulhar em sabores inovadores e estimulantes em cada uma das viagens.
Em Belo Horizonte, entre tantos locais atrativos do Mercado Novo destaco a Cozinha Tupis (delicioso tempurá de milho acompanhado de tulipinha de frango e paçoca). Devidamente colocados na minha lista de lugares para voltar na cidade estão também os restaurantes Gata Gorda com suas convidativas tapas; Ninita e seu carpaccio de polvo das galáxias; Trintaeum, com sua releitura de extremo bom gosto de tradicionais opções da culinária mineira.
Neste último, por sinal, surpreende a carta de vinhos composta exclusivamente por rótulos do próprio estado. Ótima a qualidade do Maria Maria (vinícola do mesmo nome) de uva Syrah, produzido no município de Boa Esperança, à beira da represa de Furnas.
Prato e copo também foram generosos comigo em Ouro Preto. O bacalhau do restaurante Chão de Minas e a variedade de sabores da cerveja Ouropretense entraram facilmente na minha lista de recomendações. Especial destaque para outro elegante vinho Syrah disponível na cidade: Gemas de Outro Preto, da Vinícola Alma Gerais, produzido em Bom Sucesso, região centro-sul do estado.
Variedade de cervejas de qualidade também encontrei durante minha estadia em Gonçalves. Minha passagem pelo produtor local Três Orelhas me levou (assim como no caso da Ouropretense) a montar kit de produtos para viagem com o objetivo de poder prolongar o sabor de Minas Gerais em São Paulo nos dias subsequentes.
No Brasil temos uma infinidade de opções para todos os paladares mas ainda não conseguimos destravar, de forma ampla e planejada, todo o potencial do valor econômico de nossos alimentos e bebidas. Ainda que existam movimentos destinados a canalizar os muitos talentos que possuímos nesse campo, o caminho à frente é longo.
Um bom exemplo de que isso pode ser feito de forma altamente positiva vem do Peru. Em menos de vinte anos o país garantiu para sua culinária o status de referência global, a ponto de se transformar em destino gastronômico. Muitos milhares de viajantes de todo o mundo escolhem o Peru (notadamente a capital Lima) como opção de férias e lazer fortemente influenciados por sua cozinha eletrizante que consegue aliar tradição, releitura e criatividade.
Maido, com seu cardápio fusion peruano-japonês, foi eleito em 2025 o melhor restaurante do mundo no ranking da The World’s 50 Best Restaurants. Já o Central foi o melhor do mundo em 2023 a partir de sua consagrada missão de adotar e combinar apenas ingredientes nativos. Astrid y Gastón foi a casa pioneira no estabelecimento da reputação internacional da culinária peruana, pavimentando o caminho para a chegada de toda uma série de estabelecimentos de sucesso. Reservas naqueles três locais precisam ser feitas com dias ou semanas de antecedência, tamanha a procura por moradores de Lima e, principalmente, turistas.
O turismo aliado a gastronomia, por sinal, já responde por cerca de 9% do PIB do Peru. Pesquisas indicam que 81% estrangeiros que voam para lá levam em conta o paladar como variável para optar por uma estadia no país. Os pratos típicos e a criatividade dos chefs locais representam hoje um faturamento de 200 milhões de dólares por ano. Mas numa visão ampliada para toda a cadeia produtiva (produção, distribuição de alimentos e serviços de apoio) esses números são cerca de sete vezes maiores.
Em resumo, promover, revisitar e recriar a culinária de uma região é uma maneira de fortalecer a economia local, gerar mais empregos e riquezas.