O Real Madrid foi o primeiro clube do mundo a faturar 1 bilhão de dólares em uma única temporada (2023/2024). Por sua vez o Flamengo bateu seu próprio recorde na temporada de 2025 com faturamento equivalente a 380 milhões de dólares, favorecido pelas conquistas do campeonato brasileiro e da Libertadores da América.
A Champions League, sozinha, produz um impacto econômico que se aproxima de 5 bilhões de dólares a cada edição, enquanto a Copa do Mundo de 2026 a ser realizada nos Estados Unidos, Canadá e México este ano deve movimentar recursos em torno de 40 bilhões de dólares nos três países (vNúmeros do futebol, memória brasileira e um mito chamado Peléalor resultante dos ingressos, transmissões ao vivo, serviços de transporte, hospedagem, alimentação e lazer dos fãs do esporte nas 16 cidades sede).
São números que mostram o atual lado business do esporte mais praticado no planeta e traduzem uma constante sofisticação dos processos de gestão de clubes e entidades que os representam. Trata-se, na verdade, do resultado de um processo evolutivo e de aprendizado que entendeu lacunas e erros do passado e soube encontrar soluções mais eficazes e produtivas para construir cases de sucesso.
É comum dizer que o Brasil é um país sem memória. A definição reflete em boa medida o comportamento nacional apressado ou distraído de nem sempre olhar para o passado com a devida atenção, mas ela às vezes soa exagerada. Não faltam, por exemplo, publicações, filmes, reportagens e análises sobre a trajetória do mais conhecido mineiro de Três Corações: Edson Arantes do Nascimento.
No último dia 28 de dezembro completaram-se três anos de sua morte. Duas semanas antes o jornalista Paulo Vinícius Coelho, mais conhecido como PVC, lançava seu belo livro sobre o maior jogador de todos os tempos e cujo título tem apenas três letras autoexplicativas sobre o personagem: Rei.
O livro de PVC detalha saborosas histórias de Pelé em campo e fora dele. Eu, como torcedor do Santos Futebol Clube desde que me conheço por gente, trago minhas próprias memórias de episódios protagonizados pela lenda, a quem tive o privilégio de ver jogar e poder conversar, ainda que brevemente, em quatro ocasiões. Compartilho a seguir alguns momentos marcantes de que fui testemunha. Deixo de lado os gols impressionantes marcados, pois esses todos conhecem e dispensam meus comentários.
Cena 1: A cada jogo do Santos Futebol Clube um padrão se repetia, em qualquer estádio. Antes do início das partidas os alto-falantes ecoavam as escalações dos dois times. Como é de praxe até hoje, cada torcida vaiava as menções aos jogadores adversários, com uma exceção. No momento do anúncio do camisa 10 do Santos, o locutor fazia uma pausa, um suspense, e anunciava com ênfase: “Número 10... Pelé”. E predominavam os aplausos, no máximo acompanhados por murmúrios da torcida adversária, como se esta concordasse que o Rei merecia tratamento diferenciado em relação aos jogadores comuns.
Ninguém me contou, eu estava lá. Desde criança, muitas dezenas de vezes, às vezes levado por um pai são-paulino, deslumbrado (como qualquer mortal sincero) com o balé sempre proporcionado por Pelé.
Cena 2: Santos e Atlético Mineiro, estádio do Pacaembu. Jogo empatado em 1x1 até os minutos finais. Bola no ataque do Santos em direção a Pelé. Em sua direção corre o zagueiro encarregado da marcação. Mas ele engana o adversário que o cerca e, de costas para os outros atacantes do Santos, dá um salto e ainda no ar toca a bola de calcanhar para trás, desconcertando toda a defesa e deixando o companheiro Nenê na cara do gol. Santos 2x1 e final do jogo.
Ninguém me contou, eu estava lá, um garoto com bandeira improvisada feita em casa. Fosse hoje a jogada seria saudada por comentaristas esportivos como uma “assistência genial” mas no território do Rei aquele era apenas mais um passe banal, entre tantos outros eu assisti.
Cena 3: Final dos anos 1980. Pelé era uma espécie de embaixador do turismo brasileiro no cenário internacional. Na condição de jovem repórter viajei com ele para a Alemanha em um grupo de jornalistas a convite da Embratur, que organizara o roteiro. No aeroporto de Guarulhos um pequeno tumulto: muitos passageiros queriam puxar conversa e pedir autógrafos. Ele gentilmente atendeu, na medida do possível, a caminho do embarque.
Chegada no aeroporto de Frankfurt e novo tumulto: jovens e idosos querendo se aproximar e pedir autógrafos. A seguir, conexão para Bonn (capital da então Alemanha Ocidental) e horas depois jantar formal com grupo seleto de convidados na embaixada brasileira. Deslumbrado por estar junto a Pelé o garçom italiano encarregado de coordenar os serviços quebrou o protocolo, interrompeu a conversa e pediu ao Rei que autografasse uma camisa, argumentando: quando seu filho crescesse não perdoaria o pai se ele não tivesse aproveitado a ocasião.
Pelé tirou de letra, assinou a camisa e todos em torno da mesa acharam o máximo. Inclusive o embaixador.
Ninguém me contou. Eu estava lá.
Cena 4: No dia seguinte uma festa enorme para centenas de crianças fora organizada pelas autoridades de Bonn e tinha Pelé como principal homenageado. Minha surpresa: crianças alemãs de 7, 8 e 9 ou 10 anos, não tinham idade para tê-lo visto jogar, aplaudiam e gritavam freneticamente seu nome quando ele apareceu na varanda e acenou para aquela pequena multidão infantil. Na sequência, o chanceler da então Alemanha Ocidental Helmut Kohl interrompeu uma reunião importante apenas para se dirigir ao local e conversar com Pelé, sem dispensar uma sessão de fotos a seu lado. Detalhe: a reunião interrompida discutia o processo de reaproximação entre os dois lados de um muro de Berlim que já estava prestes a ser derrubado. E quem ficou esperando pela volta de Kohl foi o presidente da então Alemanha Oriental, Erich Honecker.
Ninguém me contou. Eu estava lá, impressionado pelo alcance daquele personagem situado acima de questões geracionais e das sensibilidades da diplomacia.
Cena 5: No dia 21 de junho de 2011 o Santos conquistava o tricampeonato da Taça Libertadores da América. Festa nas arquibancadas do estádio do Pacaembu e jogadores confraternizando em campo. Generoso, Pelé foi até o banco de reservas do Santos, puxou pelo braço o sempre discreto técnico Muricy Ramalho e o levou até o centro do gramado para que fosse saudado pela torcida. Era um gesto destinado a mostrar que, para além dos ídolos que fazem os gols, a vitória se constrói no dia a dia do planejamento, da liderança e do trabalho em equipe.
Ninguém me contou. Eu estava lá.
Cena 6: Dia 29 de dezembro de 2021. Debaixo de um sol escaldante milhares de pessoas faziam uma fila que dobrava vários quarteirões para entrar no estádio da Vila Belmiro, em Santos. Estavam ali para poder passar alguns segundos pelo esquife de Pelé, prestando assim sua última homenagem a um mito que, de fato, merece a definição. Em volta daquele palco onde o jogador balançou as redes centenas de vezes homens, mulheres e crianças simpatizantes de variados times, crenças e perfis sabiam que aquele não era um momento comum. Três palavras seriam suficientes para definir a essência daquele cenário: respeito, reconhecimento e muita emoção. Era como se todos compartilhassem a mesma percepção: a de que naquele dia estava indo embora um pedaço irrecuperável do Brasil.
Sim, claro.
Ninguém me contou. Eu estava lá.