Ciro Dias Reis | Noruega é exemplo de gestão de recursos do petróleo e visão de futuro

No país, o petróleo é indutor de profunda transformação positiva, cujo território é pouco maior que Goiás e tem 5,1 milhões de habitantes

Extração de petróleo na Noruega

Escrevi sábado passado neste espaço sobre a “maldição do petróleo”. Trata-se da definição de especialistas para países que usufruem com empobrecida visão de curto prazo a riqueza proporcionada pela exploração e venda da commodity. Seus governos não aproveitam a oportunidade para diversificar e modernizar o ambiente econômico, ampliar a competitividade e o protagonismo. Em resumo, desperdiçam a garantia de um futuro razoavelmente promissor para a sociedade como um todo.

Iraque e Libia, respectivamente comandados longos anos pelos ditadores Sadamm Hussein e Muammar Kadhafi, são dois casos típicos a serem lembrados.

O texto de sábado focalizou a Venezuela, produtora de petróleo há cerca de cem anos e dona das maiores reservas do planeta. Seus diferentes governos, ao longo de décadas, pouco se preocuparam com projetos estruturantes para a economia e o desenvolvimento sustentado.

Mas nem sempre a armadilha da “maldição do petróleo” funciona.

Ótimo exemplo de como o petróleo pode ser indutor de profunda transformação positiva vem da democrática Noruega, cujo território na região da Escandinávia é pouco maior que o do estado de Goiás e ocupado por uma população de 5,1 milhões de habitantes, inferior à da cidade do Rio de Janeiro.

O país chegou a ser um dos mais pobres da Europa até descobrir petróleo no Mar do Norte em meados dos anos 1970. Em lugar de sair gastando o dinheiro arrecadado com a descoberta como se não houvesse amanhã, os diferentes governos que se seguiram no poder escolheram outro caminho. Trataram de usar essa vantagem não apenas para garantir melhorias na qualidade de vida de seu povo como para apostar na infraestrutura e pensar nas próximas gerações.

Esse objetivo foi definitivamente materializado por meio da criação em 1990 do Fundo Soberano da Noruega (batizado Government Pension Fund Global), hoje o maior do mundo. Administrado pelo Norges Bank Investment Management (NBIM), que é um braço do Norges Bank, o banco central do país, o fundo é, portanto, 100% controlado pelo Estado.

Ele obedece a rígidas premissas estabelecidas na própria Constituição. Assim desenhado o mecanismo está a salvo de qualquer eventual intenção de mudança de regras ou ímpetos de gasto descontrolado de recursos. Apenas os lucros de seus investimentos podem ser usados, até certo ponto, pelo governo de plantão.

Sua trajetória de sucesso pode ser comprovada pelos números: os ativos atingiram 2 trilhões de dólares resultantes não apenas de moeda acumulada. Vieram principalmente dos mais de 11 mil investimentos, principalmente participações acionárias (em geral entre 1% e 4%) em exatas 8.374 empresas de diferentes setores, em 68 países.

Algumas das empresas onde o fundo possui participações acionárias são o sonho de qualquer investidor: Nvidia; Microsoft; Apple; Amazon; Meta; Netflix; JPMorgan; Citigroup; SAP; Uber; Alphabet; Tesla; Coca-Cola; Walmart; Eli Lilly.

Ou seja, o fundo evitar colocar os ovos numa mesma cesta e diversifica seus recursos com base em uma estratégia segura.

O portfólio é composto por ações (cerca de 70% dos recursos totais aportados) e renda fixa (26%), ficando o restante alocado em infraestrutura de energia renovável e imóveis.

Graças a essa diversificação escolhida a dedo no terceiro trimestre de 2024 o fundo soberano registrou um lucro de quase US$ 103 bilhões. Trond Grande, CEO da NBIM, atribuiu os fortes ganhos no mercado de ações predominantemente aos setores de telecomunicações e finanças, além do otimismo representado pelo mercado de inteligência artificial.

Tantos recursos permitem a Noruega um alto nível de independência para posicionar-se de forma clara em relação a temas sensíveis no ambiente internacional que outras nações procuram evitar. No segundo semestre de 2024, por exemplo, Oslo decidiu restringir as atividades do seu fundo soberano em Israel devido aos bombardeios do país na faixa de Gaza.

Em outro caso emblemático, a Noruega foi a primeira a aderir, com uma doação de 3 bilhões de dólares (a maior até agora), à ideia do Brasil de criação de um Fundo de Florestas Tropicais para Sempre. A ideia do TFFF (na sigla em inglês) é fazer pagamentos a países que garantam a conservação daquelas florestas, nas diversas geografias do planeta. Outras doações foram do Brasil (1 bilhão de dólares), Alemanha (1 bilhão de euros) e França (500 milhões de euros).

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Ciro é atualmente board member da International Communications Consultancy Organization (ICCO) sediada em Londres; membro do Copenhaguen Institute for Futures Studies, na Dinamarca; membro do Crisis Communications Think Tank da Universidade da Georgia (EUA). Atua ainda como coordenador do PROI Latam Squad, grupo de agências de comunicação presente em sete países da América Latina.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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