Ciro Dias Reis | Medo das ações do ICE faz imigrantes deixarem os Estados Unidos

Milhares de imigrantes deixaram os EUA voluntariamente no último ano para evitar o risco de detenção e deportação repentinas

Faixa pede saída do ICE de Minnesota

O tradicional diário Star Tribune, de Minneapolis, nos Estados Unidos, estampou a seguinte manchete na segunda-feira, dia 2 de fevereiro: “Cansada de viver com medo, esta família decidiu deportar a si mesma”. Abaixo, uma grande foto: o chefe da família, de nome Segundo, se despede emocionado de familiares em Minneapolis antes de partir de volta ao seu país, o Equador, acompanhado pela esposa Maria e o filho caçula Jairo.

O jornal esclarece os cuidados que cercaram a confecção da reportagem: “Star Tribune está usando apenas os primeiros nomes porque teme que familiares que ainda estejam em Minnesota possam ser detidos”.

Segundo, Maria e Jairo estavam com processo de regularização de sua situação imigratória em andamento, com documentação encaminhada, mas não resistiram a pressão de viver em permanente estado de alerta.

“Com o aumento da fiscalização da imigração em Minnesota, a família passou a limitar as saídas do apartamento. Eles dependiam de doações de alimentos e outros itens essenciais de amigos e membros da igreja. No final de dezembro, o risco de ser detido e os problemas de saúde contínuos de Segundo preocupavam cada vez mais sua família no Equador”, informa o jornal. “A família decidiu que Segundo, Maria e Jairo iriam embora. Um filho mais velho, duas filhas e um neto, que é cidadão americano, ficariam para trás, na esperança de que a onda de repressão diminuísse”, acrescenta a notícia.

Eles estão entre as dezenas de milhares de imigrantes que deixaram os EUA voluntariamente no último ano para evitar o risco de detenção e deportação repentinas. Representam um caso típico tanto do ambiente vivido hoje em Minneapolis como do crescente desconforto dos americanos em relação ao modus operandi do serviço de imigração e alfândega dos Estados Unidos, ICE na sigla em inglês.

As ações dos agentes do ICE destinadas a deter imigrantes e enfrentar manifestantes que se opõem às suas movimentações têm ecoado cada vez mais em todo o país.

No último fim de semana mais de trezentas manifestações e eventos ocorreram em todos os 50 estados como parte do movimento “ICE Fora de Todos os Lugares”, que cresceu a partir das mortes de Renne Nicole Good e Alex Pretti, baleados por agentes daquela força especial.

Pesquisa Reuters/Ipsos revelou que a aprovação da gestão do tema imigração por Trump atingiu o nível mais baixo até agora: 39% dos americanos ouvidos se dizem a favor dessa política, enquanto outros 53% se mostram contrários.

Outro levantamento, da empresa Morning Consult, aponta que a taxa de aprovação de Trump caiu de 46% para 45% no final de janeiro, enquanto 52% desaprovam seu desempenho no cargo.

O respeitado think tank Pew Research, de Washington, aponta que metade dos entrevistados em sua pesquisa recente considera as ações de Trump desde que voltou a Casa Branca piores do que o esperado, em comparação com 21% que mostram visão exatamente oposta. Outros 28% afirmam que as ações do governo estiveram em linhas com suas expectativas.

Mais do que simplesmente medir o humor da opinião pública todas essas avaliações já calibram estratégias de democratas e republicanos em relação às eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, marcadas para a primeira semana de novembro deste ano.

O Partido Democrata segue desorientado pela derrota acachapante nas urnas em novembro de 2024, quando além do triunfo de Donald Trump sobre Kamala Harris seu Partido Republicano fez maioria nas duas casas do Congresso. Para os democratas as eleições de meio de mandato em 2026 se apresentam como uma esperança para começar a virar o jogo. São consideradas boas as suas chances de fazer maioria pelo menos na Câmara dos Deputados, que terá todas as 435 cadeiras em disputa. Já no Senado, que renovará apenas 34 dos 100 assentos da casa, a balança tende a pender para o lado dos republicanos.

Ocorre que uma maioria democrata na Câmara já seria suficiente para frear uma série de iniciativas lideradas por Trump no âmbito de sua política MAGA (Make America Great Again) e ainda promover, eventualmente, um processo de impeachment contra o presidente. Um impeachment na Câmara não tiraria Donald Trump do cargo, pois sua remoção exigiria ainda endosso do Senado.

Na verdade, esse cenário já ocorreu no primeiro mandato de Trump: os deputados aprovaram sua remoção, mas os senadores vetaram a medida. Um segundo impeachment anos depois, ainda que barrado na sequência pelos senadores, seria bastante incômodo e um forte arranhão na imagem do governo. E traria, consequentemente, prejuízos políticos para o Partido Republicano em sua jornada destinada a manter a Casa Branca nas eleições presidenciais de 2028.

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Ciro é atualmente board member da International Communications Consultancy Organization (ICCO) sediada em Londres; membro do Copenhaguen Institute for Futures Studies, na Dinamarca; membro do Crisis Communications Think Tank da Universidade da Georgia (EUA). Atua ainda como coordenador do PROI Latam Squad, grupo de agências de comunicação presente em sete países da América Latina.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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