Ciro Dias Reis | Política externa influencia o humor dos eleitores dos EUA, dizem as pesquisas

Retomada por Trump neste início de segundo mandato, a ideia de anexação subiu de tom, escalou e se transformou em 2026 em ameaça levada a sério por toda a Europa

A ilha Groenlândia, cobiçada pelos EUA

Em janeiro de 2025 eu estava em viagem à Dinamarca, participando de um curso na capital Copenhague. Donald Trump acabara de tomar posse em seu segundo mandato e, embalado por seu discurso de campanha em estilo Maga (Make America Great Again), voltava a sinalizar seu interesse pela anexação da Groenlândia. A alegação era de que esse território autônomo pertencente a Dinamarca deveria passar para as mãos dos americanos em função de sua posição estratégica junto ao Ártico.

Quando expressada pela primeira vez em 2019, no primeiro mandato de Trump, a ideia foi vista basicamente como uma piada de mau gosto no país. Surpresa e repúdio foram as principais sensações há um ano, acompanhados de um sabor amargo de “ingratidão”, palavra que ouvi algumas vezes em Copenhague naquele momento.

É que, por conta da Segunda Guerra Mundial, os americanos instalaram bases militares na Groenlândia, áreas mantidas posteriormente com anuência da Dinamarca por conta da Guerra Fria nas relações com a então União Soviética. Além disso, como aliado dos EUA, o país enviou soldados para lutar contra o Talibã no Afeganistão ao lado das tropas americanas, o mesmo acontecendo quando da invasão do Iraque para a derrubada do regime do ditador Saddam Hussein.

Retomada por Trump neste início de segundo mandato, a ideia de anexação subiu de tom, escalou e se transformou em 2026 em ameaça levada a sério por toda a Europa. Se em janeiro de 2025 o ministro da defesa dinamarquês Troels Lund Poulsen anunciou investimentos do equivalente a US$ 2 bilhões no tema da segurança na Groenlândia, a nova investida de Trump desta vez levou parceiros da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) a desembarcar na ilha militares para proteção do território, em claro sinal enviado a Washington para frear seu ímpeto expansionista. Soldados do Reino Unido, França, Alemanha, Noruega, Holanda e Suécia fazem parte desse contingente.

Vale lembrar que as mudanças climáticas estão derretendo as geleiras do Ártico e ampliando rapidamente a navegação, antes muito limitada na região. Navios russos já circulam por lá e mais recentemente começaram a surgir os primeiros navios chineses. Donald Trump alega que essa realidade exigiria a posse da Groenlândia pelos americanos visando equilibrar a presença militar das grandes potências na área.

Ocorre que Copenhague, tradicional aliado de Washington, sempre sinalizou positivamente em relação aos interesses alegados por Trump na ilha: bases militares ampliadas; instalação de componentes do projeto de defesa antimíssil Domo Dourado na região; exploração de terras raras no subsolo gelado. Tudo isso sem que fosse necessária invasão ou anexação do território.

Depois de semanas de crescimento das ameaças Trump esfriou, pelo menos momentaneamente, seu ímpeto em relação ao tema. É que diante dos riscos de uma ação militar os rendimentos dos títulos do Tesouro americano caíram e puseram em dúvida a musculatura financeira do governo. Compreensivelmente, os mercados se recuperaram assim que Trump descartou a possibilidade de invadir a ilha e impor tarifas a países que se opusessem a uma eventual ação militar americana.

Há um risco embutido nas tradicionais e calculadas idas e vindas nos processos de demonstração de força de Donald Trump em temas que lhe interessa negociar: a perda de confiança na política americana no médio e longo prazo, ativo esse já danificado por posicionamentos assumidos por Washington de um ano para cá. Afinal, se aliados de longa data são desafiados e ameaçados, rupturas efetivas entram no radar.

Mais: a estratégia de Trump de usar ameaças militares como estratégia de política externa enfrenta considerável oposição na opinião pública e não ajuda o Partido Republicano neste período imediatamente anterior às eleições de meio de mandato para a Câmara dos Deputados e o Senado, marcadas para novembro deste ano. Segundo uma pesquisa da Quinnipiac University, 86% dos americanos se opõem ao uso das forças armadas para tomar o controle da Groenlândia. Além disso, apenas 29% apoiam a compra da Groenlândia, segundo outra pesquisa da Economist-YouGov.

Na esteira das medições anteriores, pesquisa New York Times-Siena sugere que o modus operandi de Trump está se voltando contra ele. Questionados sobre como o presidente americano está lidando com as relações com outros países, 58% desaprovam e apenas 39% aprovaram — uma queda de 19 pontos percentuais no endosso de suas políticas nesse campo desde sua posse, há um ano.

No curto prazo, Trump está gerando percepções junto a aliados históricos de que os EUA não são mais confiáveis como antes. Depois da escalada no tema Groenlândia, há poucos dias a União Europeia decidiu congelar o acordo comercial firmado com Washington em 2025 e amplamente festejado por Trump como uma vitória. Se o acordo comercial permanecer congelado, o resultado será preços de carros, medicamentos e bebidas mais caros para o consumidor americano, às vésperas da ida às urnas. Pode ser um tiro no próprio pé.

Leia também

Ciro é atualmente board member da International Communications Consultancy Organization (ICCO) sediada em Londres; membro do Copenhaguen Institute for Futures Studies, na Dinamarca; membro do Crisis Communications Think Tank da Universidade da Georgia (EUA). Atua ainda como coordenador do PROI Latam Squad, grupo de agências de comunicação presente em sete países da América Latina.

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

Ouvindo...