Bertha Maakaroun | Kassab descola a direita da órbita bolsonarista

Filiação do governador Ronaldo Caiado ao PSD tende a afetar a candidatura de Mateus Simões ao governo de Minas

Presidente nacional do partido, Gilberto Kassab tem trabalhado para que a legenda caminhe à direita

Com três governadores filiados ao seu partido, o PSD de Gilberto Kassab descola a direita da órbita bolsonarista. Até aqui, esse campo vinha sendo comandado pela Federação União-PP. Liderada pelo senador Ciro Nogueira (PP-PI), essa federação mantinha o seu projeto político amarrado ao ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Agora, a configuração de forças na sucessão presidencial muda: ainda que o senador Flávio Bolsonaro (PL) siga como o candidato com mais chance de alcançar um eventual segundo turno contra o presidente Lula, a chapa do PSD de Gilberto Kassab tem ambições.

Seja quem for o candidato do PSD - Ronaldo Caiado de Goiás, Ratinho Júnior do Paraná ou Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, - essa candidatura vai disputar com Flávio Bolsonaro a eventual vaga de segundo turno. Como Lula sai em vantagem na disputa de primeiro turno, o fogo amigo dessa chapa tende a ser dirigido contra Flávio Bolsonaro.

Gilberto Kassab está politicamente vinculado ao projeto de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo. Ao mesmo tempo, o seu partido tem três ministérios no governo Lula. E nos estados, o PSD integra as bases de governadores de diferentes partidos.

Apesar de construir uma chapa que vai disputar com Flávio Bolsonaro a vaga de segundo turno, Kassab mantém os dois pés, agora, em três canoas: no governo Lula; com o projeto Tarcísio; e com a candidatura própria do PSD. Não quer briga, com ninguém, pelo momento.

Se chegar ao segundo turno, é outra história. Por isso, Kassab pretende liberar as lideranças do PSD nos estados para apoiarem a candidatura presidencial que atenda os interesses das disputar locais.

O PSD são muitos. No Amazonas, no Piauí, em Pernambuco, na Bahia e no Rio de Janeiro, o partido de Kassab tende a apoiar Lula. Em Santa Catarina e outros estados da região Central, pende a Flávio Bolsonaro. No Paraná, no Rio Grande do Sul e em Goiás, estados governados pelos três governadores, a legenda tende a se dividir: entre Flávio Bolsonaro, o próprio PSD e, em menor proporção, Lula. No caso mineiro, já estava acordado: Mateus Simões, vice-governador filiado ao PSD vai apoiar o governador Romeu Zema (Novo) na corrida presidencial.

Mas há problemas à vista para Mateus Simões na eleição ao governo de Minas. Essa movimentação no plano nacional, põe em risco o leque de alianças que Mateus Simões vem construindo no estado. Com a esperada filiação do senador Rodrigo Pacheco (PSD) ao União, Mateus poderá perder o apoio da Federação União-PP no estado.

A disputa nacional mais apertada no primeiro turno também levará Flávio Bolsonaro a desejar palanque próprio do PL em Minas, retirando a legenda que caminhava para a coligação com Mateus. Se o PL lançar nome próprio em Minas, a candidatura mais provável para encabeçar a chapa seria a do senador Cleitinho (Republicanos).

Em coligação com o Republicanos, a chapa teria um único candidato ao Palácio do Planalto. Cleitinho entrou em 2026 dando sinais de que poderia desistir de concorrer, como desejaria Mateus Simões.

Dessa forma, a nova composição do PSD nacional para disputar a presidência da República vai ter consequências para Mateus Simões. Como diria certo pensador: “Tudo o que é sólido desmancha no ar”.

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Jornalista, doutora em Ciência Política e pesquisadora

A opinião deste artigo é do articulista e não reflete, necessariamente, a posição da Itatiaia.

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