Especialistas apontam falhas em minas que despejaram 320 mil m³ de água com sedimentos na natureza

Casos envolvendo a Vale nas minas de Fábrica, em Ouro Preto, e de Viga, em Congonhas, reacendem o alerta em Minas Gerais após extravasamentos de água e sedimentos causarem danos ambientais nos rios da região

Fotos: estragos em Congonhas após extravasamento na Mina de Viga, da Vale

Pelo menos 320 mil metros cúbicos de água e sedimentos de minério foram derramados pelos extravasamentos registrados em minas da Vale em Congonhas e Ouro Preto, na Região Central de Minas Gerais, no domingo (25), com impactos ambientais ainda incalculáveis nos Rios Goiabeiras e Maranhão. Os dados sobre o episódio foram informados durante coletiva nessa segunda-feira (26). Segundo especialistas entrevistados pela Itatiaia nesta terça (27), os extravasamentos não podem ser tratados como eventos normais ou aceitáveis.

Eles citam ainda que não é tecnicamente correto relacionar o extravasamento de estruturas desse tipo exclusivamente a eventos de chuvas intensas. Os danos aos cursos d’água são apurados pela Agência Nacional de Mineração (ANM), que investiga responsabilidades.

Segundo a engenheira civil com PhD em Geotecnia, Rafaela Baldi, e o diretor do Instituto Mineiro de Perícias, Eder Mascarenhas, a causa para os episódios recentes é a falta de manutenção. Eles ainda apontam que um extravasamento é um sintoma de fragilidade no sistema das estruturas, ainda que não configure, isoladamente, uma ruptura catastrófica.

“Embora chuvas intensas sejam frequentes, os sistemas de drenagem de barragens, diques, sumps, canais e bacias devem ser projetados e operados para suportar eventos extremos compatíveis com o risco da estrutura. Assim, um extravasamento indica, em geral, uma ou mais falhas associadas, ao subdimensionamento hidráulico do sistema, mudança de premissas sem reavaliação de projeto, falhas operacionais ou de manutenção e até gestão inadequada do nível d’água”, explicou a engenheira Rafaela.

Ainda de acordo com a especialista em geotecnia, projetos como esses devem, obrigatoriamente, considerar eventos hidrológicos extremos e indicam a existência de falha humana e técnica.

“A legislação, as normas técnicas e a boa prática de engenharia exigem que as estruturas disponham de capacidade hidráulica suficiente, incluindo sistemas de drenagem, vertedores adequados e freeboard compatível. Dessa forma, a ocorrência de extravasamento indica a existência de falha humana associada, seja em projeto, operação ou gestão. A chuva, nesses casos, atua como gatilho, e não como causa raiz do evento”, completou ela.

Destruição ambiental

Atualmente diretor do Instituto Mineiro de Perícias, Eder Mascarenhas explicou os possíveis impactos imediatos nos Rios Goiabeiras e Maranhão, atingidos pela lama da Vale em Cataguases e Ouro Preto.

Segundo o diretor, que já coordenou trabalhos sobre o rompimento das barragens na Mineração Rio Verde, em Macacos, na Grande BH, em 2001; na Indústria Cataguases de Papel, em 2003; e na barragem de rejeitos de bauxita da Rio Pomba Cataguases, que se rompeu em Miraí, em 2007, os sedimentos podem ser transportados rio abaixo e se depositarem no Rio Paraopeba, com a possibilidade de remobilização em cheias futuras.

“O aumento de turbidez e sedimentos piora a qualidade da água, com possível mortandade de peixes e dificuldades no abastecimento e no uso da água pela população. Os sedimentos podem ser transportados rio abaixo e se depositar em trechos mais lentos, como o Paraopeba”, explicou ele.

Do ponto de vista técnico, o perito citou ainda que, mesmo sem rejeitos industriais, "é essencial amostragem com cadeia de custódia; comparação com condições naturais (background); e análises físico-químicas e de sedimentos para confirmar a origem e o risco”.

Fotos: estragos em Congonhas após extravasamento na Mina de Viga, da Vale

O extravasamento na Mina de Fábrica, em Ouro Preto, despejou cerca de 260 mil m³ de água e sedimentos em rios, matas e áreas da mineradora CSN. Já no caso do extravasamento da Mina de Viga, em Congonhas, o volume estimado pela empresa foi de 62 mil m³. Esses volumes ainda serão alvo de fiscalização dos órgãos ambientais das duas cidades, das defesas civis e do Governo de Minas Gerais.

As licenças de funcionamento das duas minas foram suspensas pela Prefeitura de Congonhas.

Por meio de nota, o Governo de Minas informou que a Vale foi autuada por causa dos impactos ambientais e por deixar de comunicar a ocorrência em até duas horas, contadas a partir do horário em que o acidente ocorreu.

“A Semad determinou que a Vale cumpra imediatamente uma série de medidas emergenciais, incluindo ações de limpeza do local afetado, assim como o monitoramento do curso d’água atingido. Também será solicitado à empresa um plano de recuperação ambiental para limpeza das margens, desassoreamento e demais medidas necessárias à recuperação do curso d’água afetado”, disse.

A Vale se posicionou com a nota abaixo:

“A Vale esclarece que os extravasamentos de água identificados em Congonhas e Ouro Preto no domingo (25) foram contidos. Ninguém ficou ferido e a população e as comunidades próximas não foram afetadas.

Nenhuma das duas situações tem qualquer relação com as barragens da Vale na região, que seguem sem alterações nas suas condições de estabilidade e segurança e são monitoradas 24 horas por dia, 7 dias por semana. A Vale esclarece, ainda, que não houve carreamento de rejeitos de mineração, apenas água com sedimentos (terra).

A Vale realiza periodicamente ações preventivas de inspeção e manutenção de suas estruturas, que são seguras. A empresa reforça esses procedimentos durante o intenso período chuvoso. As causas dos dois extravasamentos estão sendo apuradas e os aprendizados extraídos serão imediatamente incorporados aos planos de chuva da companhia. A Vale segue à disposição das autoridades para prestar os esclarecimentos necessários.”

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Formada em jornalismo pelo Centro Universitário de Belo Horizonte (UniBH), já trabalhou na Record TV e na Rede Minas. Atualmente é repórter multimídia e apresenta o ‘Tá Sabendo’ no Instagram da Itatiaia.

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