Pancreatite e canetas emagrecedoras: especialista defende tratamento, mas faz alerta

Registro de seis mortes suspeitas associadas às canetas emagrecedoras acendeu um alerta na saúde brasileira; medicações são muito utilizadas de forma indevida, principalmente para fins estéticos

Caneta emagrecedora “Ozempic”

O registro de seis mortes suspeitas de pancreatite associadas às canetas emagrecedoras acendeu um alerta na saúde brasileira. O medicamento, autorizado para o tratamento de diabetes e obesidade, também é muito utilizado de maneira irregular para fins estéticos.

Entre 2020 e 2025, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) recebeu 145 notificações de diagnósticos de pancreatite em pacientes que estavam utilizando as canetas emagrecedoras. Os casos estão sendo investigados.

Em entrevista para o Rádio Vivo, da Itatiaia, o coordenador do serviço de endocrinologia do Mater Dei, Paulo Miranda, explicou que o medicamento, quando utilizado da forma correta, é seguro.

“São medicações estudadas e aprovadas para o tratamento de diabetes tipo dois, obesidade e sobrepeso associado a comorbidades. Para essa finalidade, as medicações são seguras e eficazes, desde que bem indicadas e acompanhadas por um médico habilitado, para que a gente tenha a previsibilidade dos efeitos”, esclareceu.

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O especialista também destacou que os tratamentos devem ser individualizados. “Dose certa, progressão de dose, existe todo um processo de individualização do tratamento e isso faz diferença em termo de percepção da pessoa, do efeito, benfício e riscos de efeitos adversos.”

A pancreatite é uma doença grave, podendo ser fatal, sendo uma inflamação no órgão. O pâncreas participa do sistema endócrino e digestivo, sendo responsável pela produção de insulina e outros hormônios.

Alerta da Anvisa

A Anvisa emitiu, na última segunda-feira (9), um aviso para o uso indevido das canetas emagrecedoras. É o segundo alerta publicado desde a regularização dos medicamentos no Brasil.

Os dois avisos foram motivados pelo aumento de casos de pancreatite em pessoas que estavam usando essa medicações. “O primeiro aviso gerou um esforço internacional de análise de todos os dados publicados e não foi comprovada uma relação entre pancreatite e as medicações”, explicou Miranda.

Porém, a pancreatite passou a ser um critério de exclusão dos pacientes. Ou seja, não é recomendado que pessoas diagnosticadas com essa doença utilizem canetas emagrecedoras.

“O sistema de farmacovigilância funciona com notificações de casos. Há um viés de seleção, é mais comum termos notificações de pancreatite em um paciente que esteja usando essa medicação, por exemplo”, disse Miranda. “Nos estudos que temos até hoje não foi observado um aumento de risco de pancreatite entre essas pessoas comparado com quem não está usando a medicação”, completou.

Para o coordenador do serviço de endocrinologia do Mater Dei, o novo alerta tem como objetivo “parar, revisar todos os estudos e estabelecer ou excluir essa causalidade entre pancreatite e as canetas emagrecedoras.”

Uso inadequado do medicamento e acompanhamento médico

O alerta emitido para a Anvisa também destaca sobre os riscos do uso incorreto do medicamento. As “canetas”, como Ozempic, Saxenda e Mounjaro, se tornaram muito populares para fins estéticos - muitas vezes sem receita ou indicação médica.

“Precisamos ter uma seriedade no tratamento”, ressalta Miranda. Além disso, o especialista destaca a importância de um acompanhamento médico durante todo o processo: “O tratamento é um guarda-chuva que envolve múltiplas ações. O peso é um dos indicadores de sucesso terapêutico, mas o controle de outros fatores como glicose e pressão arterial também são importantes para essa avaliação.”

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Estudante de jornalismo pela PUC Minas, Júlia Melgaço trabalhou como repórter do caderno de Gerais no jornal Estado de Minas. Também já passou por veículos de rádio e televisão. Na Itatiaia, cobre Minas Gerais, Brasil e Mundo.

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