Duas pessoas podem ter o mesmo peso na balança, mas riscos completamente diferentes para o coração. O que determina essa diferença não é quanto você pesa, mas onde a gordura se acumula no seu corpo.
Esse conceito muda a forma como avaliamos a saúde cardiovascular. A gordura concentrada no abdômen, popularmente conhecida como “barriga de chope”, provoca alterações estruturais no coração que o peso total não revela. Compreender essa distinção pode ser determinante para prevenir problemas cardíacos antes que se tornem irreversíveis.
Gordura visceral versus gordura subcutânea
Nem toda gordura corporal afeta o organismo da mesma maneira. A gordura subcutânea fica logo abaixo da pele, aquela que conseguimos apertar com os dedos. Já a gordura visceral se deposita profundamente no abdômen, envolvendo órgãos como o fígado.
A grande diferença está na atividade metabólica. Segundo a cardiologista Juliana Soares, do Einstein Hospital Israelita, “diferentemente da gordura subcutânea, que fica logo abaixo da pele e conseguimos apertar com os dedos, a gordura visceral é metabolicamente ativa e libera substâncias conhecidas como adipocinas ou citocinas inflamatórias na circulação”.
Essas substâncias criam um estado de inflamação crônica no organismo. Com o tempo, esse processo favorece resistência à insulina, alterações no colesterol e aumento da pressão arterial. Todos esses fatores sobrecarregam o coração de forma silenciosa e progressiva.
Como a obesidade abdominal altera a estrutura do coração
A gordura visceral provoca um tipo específico de remodelamento cardíaco. Pesquisas com mais de 2.200 adultos entre 46 e 78 anos, avaliados por ressonância magnética, mostraram espessamento do músculo cardíaco à medida que a concentração de gordura abdominal aumentava.
Esse espessamento ocorre principalmente no ventrículo esquerdo, acompanhado de redução do espaço interno das cavidades cardíacas. O coração funciona como uma bexiga elástica, que precisa de espaço para se encher de sangue e flexibilidade para esvaziar a cada batimento.
“Com a obesidade e o estado inflamatório crônico, o coração passa a trabalhar contra uma pressão maior. Como qualquer músculo submetido a esforço contínuo, suas paredes se tornam mais espessas ao longo do tempo”, explica a cardiologista Juliana Soares.
O problema é que esse espessamento reduz o espaço interno e deixa o músculo mais rígido. O coração acomoda menos sangue a cada batimento e perde capacidade de relaxamento. Inicialmente, o órgão compensa batendo mais rápido, mas eventualmente essa sobrecarga compromete sua eficiência.
O resultado pode ser insuficiência cardíaca em que o coração ainda consegue contrair, mas não se enche adequadamente. Isso prejudica a circulação de oxigênio e nutrientes pelo corpo, mesmo antes do aparecimento de sintomas perceptíveis.
Por que o IMC não conta toda a história
O índice de massa corporal (IMC) é amplamente utilizado para avaliar peso, mas tem limitações importantes. Ele não diferencia massa muscular de gordura nem mostra onde essa gordura está localizada.
Estudos comparando IMC e relação cintura-quadril revelam padrões distintos. Pessoas com IMC elevado, mas sem grande concentração abdominal de gordura, apresentam aumento do tamanho das câmaras cardíacas sem o mesmo espessamento muscular observado na obesidade visceral.
Isso explica por que duas pessoas com peso ou IMC semelhante podem ter riscos cardiovasculares diferentes. “O IMC não diferencia massa muscular de gordura nem mostra onde essa gordura está localizada”, observa Juliana Soares. “Já a relação cintura-quadril direciona o olhar para a gordura central, que é a mais associada ao remodelamento cardíaco deletério.”
Diferenças entre homens e mulheres na distribuição de gordura
O padrão de acúmulo de gordura varia significativamente entre os sexos, influenciando o risco cardiovascular de forma distinta. Homens tendem a desenvolver obesidade do tipo androide, com concentração abdominal que favorece maior proporção de gordura visceral.
Mulheres, especialmente antes da menopausa, apresentam padrão ginoide. A gordura se deposita mais em quadris e coxas, predominantemente subcutânea e metabolicamente menos agressiva ao coração.
Fatores hormonais exercem papel central nessa diferença. O estrogênio tem efeito cardioprotetor e influencia como o corpo armazena gordura, direcionando-a para regiões menos nocivas. Com a queda desse hormônio após a menopausa, a proteção diminui e o risco feminino se aproxima ao masculino.
A resposta inflamatória também difere entre os sexos. Homens tendem a apresentar níveis mais elevados de inflamação sistêmica associada à gordura visceral, o que pode acelerar as alterações estruturais no coração. Isso explica por que os efeitos da obesidade abdominal são mais intensos no sexo masculino.
Como avaliar seu risco cardiovascular real
Medidas simples podem fornecer informações mais precisas sobre risco cardíaco do que a balança. A circunferência da cintura e a relação cintura-quadril são obtidas com uma fita métrica e revelam a distribuição de gordura corporal.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), valores de circunferência da cintura acima de 90 cm para homens e 85 cm para mulheres indicam maior risco cardiovascular. A relação cintura-quadril é calculada dividindo a medida da cintura pela medida do quadril.
Essas avaliações são especialmente importantes porque alterações cardíacas associadas à gordura visceral podem ocorrer em pessoas aparentemente saudáveis, sem histórico de doença cardiovascular. “Devido a essa característica silenciosa, as medidas preventivas, baseadas em mudanças do estilo de vida, devem ser adotadas precocemente, antes que a lesão cardíaca se torne irreversível”, alerta Juliana Soares.
Estratégias práticas para redução da gordura visceral
O processo de emagrecimento deve acontecer através de hábitos saudáveis mantidos a longo prazo. Atividade física regular e alimentação equilibrada são fundamentais para reduzir a gordura abdominal.
A gordura visceral responde melhor ao exercício do que outros tipos de gordura corporal. “Atividade física regular e alimentação equilibrada são fundamentais, especialmente porque a gordura visceral responde melhor ao exercício e pode ser reduzida mesmo sem grande perda de peso”, avisa a cardiologista do Einstein.
Isso significa que mudanças na composição corporal podem melhorar a saúde cardiovascular mesmo quando a balança não mostra alterações dramáticas. O foco deve estar na qualidade da mudança, não apenas na quantidade de peso perdido.