Crime contra Orelha mobiliza manifestações e gera debate sobre punição para maus-tratos

Apesar da previsão legal, maior parte dos agressores acaba respondendo com medidas mais brandas, principalmente quando são menores de idade

Milhares de pessoas se concentraram no vão do Museu de Arte Moderna de São Paulo (MASP)

A morte brutal do cão comunitário conhecido como Orelha, espancado até a morte por um grupo de adolescentes em Florianópolis (SC) no início de janeiro de 2026, repercutiu na imprensa o debate sobre maus-tratos a animais e a eficácia das leis brasileiras de proteção animal. O episódio provocou comoção nacional e mobilizações por punições mais rígidas a agressores de cães e gatos.

No Brasil, maus-tratos contra cães e gatos estão previstos como crime na Lei de Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/1998) e foram ampliados pela chamada Lei Sansão (Lei nº 14.064/2020), sancionada em 2020. Essa lei aumentou a pena prevista para maus-tratos a cães e gatos de dois para até cinco anos de reclusão, além de multa e proibição de guarda do animal.

Apesar dessa previsão legal robusta, a maior parte dos agressores acaba respondendo com medidas mais brandas, como prestação de serviços à comunidade ou advertência, principalmente quando são menores de idade, como é o caso dos suspeitos do crime contra Orelha.

Adultos cometeriam o crime tipificado no artigo 32 da Lei de Crimes Ambientais, com pena de dois a cinco anos de prisão, mas, por serem adolescentes, os envolvidos estão sendo responsabilizados por atos infracionais sob o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), com medidas socioeducativas previstas na legislação juvenil.

O caso da morte do cão Orelha também repercutiu entre os políticos mineiros alinhados à causa da proteção dos direitos dos animais. Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), o deputado Noraldino Junior (PSB) liderou um abaixo-assinado para pressionar as autoridades catarinenses a avançar na investigação sobre a morte do cachorro. O parlamentar foi presidente da Comissão Extraordinária de Proteção aos Animais da Casa.

“Violência contra animais não é brincadeira, não é ‘coisa de adolescente’ e nunca é um fato isolado. É um sinal de alerta. A ciência é clara. A chamada Teoria do Link demonstra que a crueldade contra animais, especialmente na infância e na adolescência, está diretamente associada a maiores riscos de violência contra pessoas no futuro.

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Outros parlamentares classificaram os maus-tratos como inaceitáveis e defenderam endurecimento da legislação, incluindo proteção mais ampla aos chamados animais comunitários, aqueles que vivem em espaços públicos e contam com cuidado espontâneo de moradores.

Especialistas em direitos dos animais e juristas afirmam que a lei atual representa um avanço significativo na tutela jurídica dos animais, e que a pena de dois a cinco anos prevista pela Lei Sansão, teoricamente é comparável à aplicada em crimes de lesão corporal leve contra humanos.

No entanto, a aplicação efetiva das penas é muito mais rara, principalmente porque muitos casos são apenas registrados como infrações administrativas ou recebem tratamento simbólico. Agentes da proteção animal defendem que isso ocorre devido à falta de capacitação policial, resistência cultural e limitações no sistema judiciário.

O caso Orelha também trouxe reflexões sobre como a sociedade encara a violência contra animais. A morte dele se soma a outros episódios emblemáticos, como o Caso Manchinha, em 2018, que levou à sanção da Lei Sansão após grande mobilização social, e o Caso Bruce, que impulsionou a discussão sobre endurecimento de penalidades no Congresso Nacional.

O caso Orelha

Orelha era um cão comunitário conhecido por moradores da Praia Brava, em Florianópolis, onde vivia há cerca de dez anos e era alimentado, acariciado e cuidado por diferentes pessoas do bairro. Segundo o registro oficial, ele foi agredido a pauladas por uma quadrilha de quatro adolescentes, encontrado ferido dias depois em uma área de mata e levado a uma clínica veterinária mas, devido à gravidade das lesões, precisou ser submetido à eutanásia.

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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