Delação de Mauro Cid pode ser comprometida por mensagens e encontros com aliados de Bolsonaro

Conversas por redes sociais e encontros presenciais com Mauro Cid levantam dúvidas sobre pressões nos bastidores e colocam delação em xeque.

Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do ex-presidente Bolsonaro

O advogado Eduardo Kuntz, defensor do ex-assessor presidencial Marcelo Câmara, afirmou em depoimento à Polícia Federal (PF), na terça-feira (1), que conversou com o tenente-coronel Mauro Cid sobre sua delação premiada. Cid foi ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

Segundo Kuntz, as conversas ocorreram por meio do Instagram e em encontros presenciais na Sociedade Hípica de Brasília, em 2024. Ele negou, porém, ter tomado a iniciativa de procurar Cid ou de discutir o acordo de colaboração com familiares do militar.

O depoimento integra a apuração da PF sobre possível tentativa de obstrução de investigação, envolvendo contatos de aliados de Bolsonaro com Cid, que fechou acordo de delação com a PF em 2023.

Além de Kuntz, também prestaram depoimento o próprio Marcelo Câmara, o ex-assessor Fábio Wajngarten e o advogado Paulo Cunha Bueno, que defende Bolsonaro.

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Contatos com a família de Cid

Wajngarten negou ter tido qualquer contato com Mauro Cid após a formalização da delação. Questionado sobre conversas com uma das filhas do militar, ele disse que pode ter ocorrido, mas que foram “exclusivamente de solidariedade”.

Já Eduardo Kuntz admitiu ter contatos esporádicos com a filha de Cid, com quem teria se relacionado na Sociedade Hípica Paulista. As conversas entre eles, segundo o advogado, ocorreram por WhatsApp e Instagram e trataram de “questões relacionadas ao hipismo”.

Kuntz também revelou ter criado um grupo no Instagram com Mauro Cid e Paulo Cunha Bueno. Segundo ele, o grupo permaneceu inativo até o dia 14 de junho de 2024, quando, por engano, enviou uma mensagem que seria destinada apenas a Bueno.

Marcelo Câmara, por sua vez, afirmou não ter tido contato com Cid ou com seus familiares. Disse ainda que desconhecia qualquer conversa entre seu advogado e o militar.

Advogado de Bolsonaro fica em silêncio

O advogado Paulo Cunha Bueno, que representa Jair Bolsonaro, exerceu o direito ao silêncio. Ele apenas declarou que confirmava o conteúdo de uma petição enviada ao Supremo Tribunal Federal (STF) na véspera do depoimento.

Na petição, Bueno admite ter mantido contato com familiares de Mauro Cid, mas nega que tenha discutido a delação ou qualquer conteúdo relacionado à colaboração premiada.

Delação em xeque

A delação de Mauro Cid implicou diretamente diversos nomes ligados a uma suposta tentativa de golpe de Estado para manter Bolsonaro no poder. As conversas entre Cid e Eduardo Kuntz passaram a ser usadas por críticos do processo para questionar a validade do acordo.

Mauro Cid, no entanto, nega que tenha usado o Instagram para tratar de temas ligados à delação.

Aline Pessanha é jornalista, com Pós-graduação em Marketing e Comunicação Integrada pela FACHA - RJ. Possui passagem pelo Grupo Bandeirantes de Comunicação, como repórter de TV e de rádio, além de ter sido repórter na Inter TV, afiliada da Rede Globo.

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