Entenda como o sedentarismo dos tutores compromete a saúde dos pets

Falta de estímulo físico não gera apenas obesidade, mas afeta também o sistema cardiovascular, as articulações e, principalmente, a saúde mental dos animais

A obesidade animal já é considerada uma epidemia silenciosa pela comunidade veterinária. Estima-se que mais de 50% da população de cães e gatos em áreas urbanas esteja acima do peso ideal.

No Brasil, país que lidera rankings de inatividade física na América Latina, o estilo de vida dos tutores está refletindo diretamente na balança e na saúde dos cães e gatos. O que muitos não percebem é que a falta de estímulo físico não gera apenas obesidade, mas afeta também o sistema cardiovascular, as articulações e, principalmente, a saúde mental dos animais.

A obesidade animal já é considerada uma epidemia silenciosa pela comunidade veterinária. Estima-se que mais de 50% da população de cães e gatos em áreas urbanas esteja acima do peso ideal.

“O animal sedentário é, quase sempre, o reflexo de um tutor que também não se exercita. O problema é que o impacto metabólico no pet é muito mais acelerado. Um quilo a mais em um cão de pequeno porte equivale a quase dez quilos em um ser humano adulto”, alerta Thiago Alvarenga, médico veterinário especializado em nutrologia.

O ciclo de inatividade física costuma vir acompanhado da “compensação alimentar”. Tutores que passam muito tempo sentados ou que não têm disposição para caminhadas tendem a oferecer petiscos como forma de interação ou para aliviar a culpa pela falta de atenção.

“Essa dinâmica cria um ciclo perigoso. O animal ganha peso, as articulações começam a doer devido à sobrecarga e, por sentir dor, ele se movimenta ainda menos. Se não houver intervenção, o tutor está, literalmente, reduzindo anos da vida do seu companheiro por meio da inércia”, reforça o especialista.

Além dos danos físicos, o sedentarismo é o principal gatilho para transtornos comportamentais. Cães são animais sociais e exploratórios que precisam de gasto de energia e estímulos sensoriais.

Segundo Carolina Rocha, veterinária e especialista em comportamento animal, a falta de atividade física é a raiz de comportamentos destrutivos, latidos excessivos e até automutilação.

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“Um cão que não caminha e não explora o mundo exterior canaliza sua frustração para dentro de casa. O sedentarismo gera ansiedade, e essa ansiedade muitas vezes é confundida pelo tutor como ‘mau comportamento’, quando na verdade é apenas falta de vazão para a energia acumulada”, explica a doutora.

As diretrizes do Conselho Federal de Medicina Veterinária (CFMV) enfatizam que o exercício não deve ser visto como um “luxo”, mas como uma necessidade fisiológica básica. De acordo com notas técnicas do órgão, o enriquecimento ambiental e as caminhadas diárias são preventivos essenciais contra doenças metabólicas como o diabetes tipo 2 e a hipertensão felina.

“Mudar o estilo de vida do pet exige uma mudança de hábito do tutor. É uma via de mão dupla onde ambos se beneficiam do aumento da atividade”, afirma a instituição em suas recomendações de saúde preventiva.

Em última análise, combater o sedentarismo animal é um ato de responsabilidade ética. Conforme resume Thiago Alvarenga, “não se trata apenas de estética ou de ter um cão ‘atlético’. Trata-se de garantir que o coração, os pulmões e a mente desse animal funcionem em sua plenitude. O melhor brinquedo que um tutor pode dar ao seu pet não é um objeto caro, mas sim trinta minutos de caminhada diária”.

Jessica de Almeida é repórter multimídia e colabora com reportagens para a Itatiaia. Tem experiência em reportagem, checagem de fatos, produção audiovisual e trabalhos publicados em veículos como o jornal O Globo e as rádios alemãs Deutschlandfunk Kultur e SWR. Foi bolsista do International Center for Journalists.

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